Seder Kodashim · Massechet Midot · Perek Alef · Mishná 9 de 9 — última do capítulo

A laje de mármore e as chaves do átrio

וּמָקוֹם הָיָה שָׁם, אַמָּה עַל אַמָּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O sistema noturno de fechamento das portas do átrio e a rota subterrânea para o sacerdote que sofresse polução, encerrando o capítulo

E havia ali um lugar, de um côvado por um côvado, com uma laje de mármore, e um anel estava fixado nela, e uma corrente da qual as chaves ficavam penduradas. Chegada a hora de fechar, levantava-se a laje pelo anel, e tomavam-se as chaves da corrente; e o sacerdote fechava por dentro, e o filho do levita dormia por fora. Terminando de fechar, devolvia as chaves à corrente e a laje a seu lugar, colocava sua veste sobre ela, e dormia ali. Sobrevindo a um deles polução, saía e ia embora pela passagem que corria sob a Bira, com as lâmpadas acesas de um lado e de outro, até chegar ao lugar de imersão. Rabi Eliezer ben Yaakov diz: pela passagem que corre sob o Chel saía e ia embora, pelo portão de Tadi.

Conclui-se o capítulo com um detalhe minucioso do sistema de fechamento das portas do átrio à noite: uma laje de mármore escondendo um anel e uma corrente de chaves, o ritual de fechar com o sacerdote por dentro e o levita por fora, e a rota alternativa, por passagens subterrâneas iluminadas, para o sacerdote que sofresse uma emissão seminal noturna e precisasse alcançar o lugar de imersão sem atravessar o átrio consagrado — encerrando, com essa nota prática, a descrição dos postos de guarda do Templo.

וּמָקוֹם הָיָה שָׁם, אַמָּה עַל אַמָּה, וְטַבְלָא שֶׁל שַׁיִשׁ וְטַבַּעַת הָיְתָה קְבוּעָה בָהּ, וְשַׁלְשֶׁלֶת שֶׁהַמַּפְתְּחוֹת הָיוּ תְלוּיוֹת בָּהּ. הִגִּיעַ זְמַן הַנְּעִילָה, הִגְבִּיהַּ אֶת הַטַּבְלָא בַּטַּבַּעַת וְנָטַל אֶת הַמַּפְתְּחוֹת מִן הַשַּׁלְשֶׁלֶת, וְנָעַל הַכֹּהֵן מִבִּפְנִים, וּבֶן לֵוִי יָשֵׁן לוֹ מִבַּחוּץ. גָּמַר מִלִּנְעֹל, הֶחֱזִיר אֶת הַמַּפְתְּחוֹת לַשַּׁלְשֶׁלֶת וְאֶת הַטַּבְלָא לִמְקוֹמָהּ, נָתַן כְּסוּתוֹ עָלֶיהָ, יָשֵׁן לוֹ. אֵרַע קֶרִי בְּאַחַד מֵהֶם, יוֹצֵא וְהוֹלֵךְ לוֹ בַמְּסִבָּה הַהוֹלֶכֶת תַּחַת הַבִּירָה, וְהַנֵּרוֹת דּוֹלְקִים מִכָּאן וּמִכָּאן, עַד שֶׁהוּא מַגִּיעַ לְבֵית הַטְּבִילָה. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב אוֹמֵר, בַּמְּסִבָּה הַהוֹלֶכֶת תַּחַת הַחֵיל יוֹצֵא וְהוֹלֵךְ לוֹ בְּטָדִי:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Midot 1:9
רבי אליעזר בן יעקב אומר שאינו חוזר טבול יום זה לבית המוקד אלא יוצא להר הבית...

Rambam explica que Rabi Eliezer ben Yaakov diz que esse sacerdote imerso naquele dia não retorna à Câmara da Fogueira, mas sai para o Monte do Templo, pois Tadi é o portão norte dentre os portões do Monte do Templo, como já se mencionou neste capítulo. E não é a lei como Rabi Eliezer ben Yaakov.

Bartenura · Midot 1:9
הִגִּיעַ זְמַן הַנְּעִילָה. לִנְעֹל שַׁעֲרֵי הָעֲזָרָה...

Bartenura explica: “chegada a hora de fechar” — de fechar os portões do átrio. “O sacerdote por dentro e o filho do levita sentava-se por fora” — porque os levitas são subordinados aos sacerdotes, como está dito (Bamidbar 18): “e se ajuntarão a ti e te servirão”; por isso, na Câmara de Avtinas e na Câmara da Faísca, que tinham andares superiores, os sacerdotes vigiavam em cima e os levitas embaixo; e na Câmara da Fogueira, que era apenas uma abóbada ao nível do chão, o sacerdote ficava por dentro e o filho do levita por fora.

“Pela passagem” — pela galeria que corria sob a Bira, pois havia uma galeria sob o Templo; e todo o Templo é chamado Bira, como está escrito (Divrei HaYamim I 29): “para a Bira que preparei”. E, por ser um homem com polução, não caminhava pelo átrio, mas pelas galerias, pois estabelecemos que as galerias não foram consagradas. “E as lâmpadas acesas” — na galeria, de um lado e de outro.

“Pela passagem que corre sob o Chel, saía” — e não voltava à Câmara da Fogueira, por ser imerso naquele dia; e não é a lei como Rabi Eliezer ben Yaakov, mas como ensinamos no início de Tamid: vinha e se sentava junto a seus irmãos sacerdotes, na Câmara da Fogueira, até que os portões se abrissem, e então saía e ia embora — pois, ainda que um imerso naquele dia não pudesse entrar no pátio das mulheres, isto é, o acampamento levítico, aqui foram leniente, porque ele se contaminara dentro do próprio recinto.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Midot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado de mishnayot puras, dedicado à descrição arquitetônica do Segundo Templo, sem comentário talmúdico amoraico. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Com esta mishná, encerra-se o Perek Alef, primeiro capítulo de Massechet Midot, dedicado inteiramente à descrição dos postos de guarda do Segundo Templo. Percorreu-se, ao longo de nove mishnayot, a rede completa de vigilância noturna: os três postos sacerdotais e os vinte e um postos levíticos (1:1); a ronda do encarregado e a punição do levita flagrado dormindo (1:2); os cinco portões externos do Monte do Templo, culminando no portão oriental por onde saía o sumo sacerdote da vaca ruiva (1:3); os sete portões do átrio, com destaque ao portão de Nicanor e suas duas câmaras (1:4); o portão da Faísca e o início da descrição da Câmara da Fogueira (1:5); as quatro câmaras internas dessa câmara, cada uma com sua função (1:6); os dois portões da Câmara da Fogueira e a ronda matinal de revista do átrio (1:7); a estrutura física da câmara e os que ali dormiam (1:8); e, por fim, o sistema de fechamento noturno das portas, com a laje de mármore, a corrente de chaves e a rota subterrânea reservada ao sacerdote impuro (1:9).

Massechet Midot, dedicada à descrição arquitetônica do Segundo Templo, não possui Guemará no Talmud Bavli; por isso, apoiou-se em Rambam e Bartenura como comentadores centrais, sem seção de mefarshim talmúdicos. É o décimo tratado de Seder Kodashim. Seguem-se, na ordem, o Perek Bet e os demais capítulos do tratado, que continuarão a descrição do Templo: seus muros, câmaras, o altar, o Santuário e suas dependências.