Seder Kodashim · Massechet Midot · Perek Hei · Mishná 4 de 4 — última do capítulo e de todo o tratado

A câmara da pedra lavrada e o Sinédrio

שֶׁבַּדָּרוֹם, לִשְׁכַּת הָעֵץ, לִשְׁכַּת הַגּוֹלָה, לִשְׁכַּת הַגָּזִית
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná final do tratado: as três câmaras do sul — a câmara da madeira (com a disputa sobre sua função e a opinião de Abba Shaul de que era a câmara do sumo sacerdote), a câmara do exílio (com a cisterna que abastecia todo o pátio), e a câmara da pedra lavrada, sede do grande Sinédrio, que examinava a linhagem sacerdotal, com o rito das vestes negras ou brancas e a bênção final pela pureza da semente de Aarão

As do sul: a câmara da madeira, a câmara do exílio, a câmara da pedra lavrada. A câmara da madeira — disse Rabi Eliezer ben Yaakov: esqueci para que servia. Abba Shaul diz: era a câmara do sumo sacerdote, e ficava atrás das outras duas, e o teto das três era um só. A câmara do exílio — ali havia uma cisterna fixa, e a roda estava colocada sobre ela, e dali forneciam água para todo o pátio. A câmara da pedra lavrada — ali sentava o grande Sinédrio de Israel e julgava o sacerdócio; e o sacerdote em quem se encontrava desqualificação vestia-se de negro e se envolvia em negro, e saía e ia embora; e aquele em quem não se encontrava desqualificação vestia-se de branco e se envolvia em branco, entrava e servia com seus irmãos sacerdotes. E faziam um dia de festa, porque não se encontrara desqualificação na semente de Aarão o sacerdote, e assim diziam: bendito o Onipresente, bendito Ele, que não se encontrou desqualificação na semente de Aarão; e bendito Ele, que escolheu Aarão e seus filhos para estarem a serviço perante o Eterno na Casa do Santo dos Santos.

A mishná final do tratado completa o catálogo das seis câmaras do pátio, apresentando agora as três do lado sul. A câmara da madeira recebe, curiosamente, um testemunho de esquecimento genuíno — Rabi Eliezer ben Yaakov admite não recordar sua função exata —, ao qual se soma a opinião de Abba Shaul, segundo a qual essa câmara era, na verdade, a residência do sumo sacerdote, situada atrás das outras duas e coberta por um único teto contínuo com elas. A câmara do exílio guardava uma cisterna permanente, equipada com uma roda (provavelmente para operar um sistema de poleia ou nora), que abastecia de água todo o complexo do pátio — seu nome, segundo a tradição, remonta ao poço cavado pelos que retornaram do exílio babilônico. Mas é a terceira câmara, a da pedra lavrada (Lishcát HaGazit), que recebe a descrição mais extensa e mais significativa: nela sentava o grande Sinédrio de Israel, cuja função aqui descrita é especificamente judicial-genealógica — examinar e julgar a aptidão da linhagem sacerdotal. O procedimento descrito é solene e visual: o sacerdote cuja linhagem se revelasse desqualificada vestia-se de negro, cobria-se de negro, e retirava-se em silêncio; aquele cuja aptidão fosse confirmada vestia-se de branco, cobria-se de branco, e entrava para servir junto aos demais sacerdotes. E o tratado inteiro, dedicado do início ao fim à arquitetura precisa do Templo, encerra-se não com uma medida em côvados, mas com uma cena de celebração comunitária: um dia de festa proclamado sempre que se confirmava não haver mácula na descendência de Aarão, com uma bênção dupla — ao Onipresente, por preservar a pureza dessa linhagem, e Àquele que escolheu Aarão e seus filhos para o serviço eterno diante do Eterno, na Casa do Santo dos Santos.

שֶׁבַּדָּרוֹם, לִשְׁכַּת הָעֵץ, לִשְׁכַּת הַגּוֹלָה, לִשְׁכַּת הַגָּזִית. לִשְׁכַּת הָעֵץ, אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן יַעֲקֹב, שָׁכַחְתִּי מֶה הָיְתָה מְשַׁמֶּשֶׁת. אַבָּא שָׁאוּל אוֹמֵר, לִשְׁכַּת כֹּהֵן גָּדוֹל, וְהִיא הָיְתָה אֲחוֹרֵי שְׁתֵּיהֶן, וְגַג שְׁלָשְׁתָּן שָׁוֶה. לִשְׁכַּת הַגּוֹלָה, שָׁם הָיָה בוֹר קָבוּעַ, וְהַגַּלְגַּל נָתוּן עָלָיו, וּמִשָּׁם מַסְפִּיקִים מַיִם לְכָל הָעֲזָרָה. לִשְׁכַּת הַגָּזִית, שָׁם הָיְתָה סַנְהֶדְרִי גְדוֹלָה שֶׁל יִשְׂרָאֵל יוֹשֶׁבֶת וְדָנָה אֶת הַכְּהֻנָּה, וְכֹהֵן שֶׁנִּמְצָא בוֹ פְסוּל, לוֹבֵשׁ שְׁחוֹרִים וּמִתְעַטֵּף שְׁחוֹרִים, וְיוֹצֵא וְהוֹלֵךְ לוֹ. וְשֶׁלֹּא נִמְצָא בוֹ פְסוּל, לוֹבֵשׁ לְבָנִים וּמִתְעַטֵּף לְבָנִים, נִכְנָס וּמְשַׁמֵּשׁ עִם אֶחָיו הַכֹּהֲנִים. וְיוֹם טוֹב הָיוּ עוֹשִׂים, שֶׁלֹּא נִמְצָא פְסוּל בְּזַרְעוֹ שֶׁל אַהֲרֹן הַכֹּהֵן, וְכָךְ הָיוּ אוֹמְרִים, בָּרוּךְ הַמָּקוֹם בָּרוּךְ הוּא, שֶׁלֹּא נִמְצָא פְסוּל בְּזַרְעוֹ שֶׁל אַהֲרֹן. וּבָרוּךְ הוּא, שֶׁבָּחַר בְּאַהֲרֹן וּבְבָנָיו לַעֲמֹד לְשָׁרֵת לִפְנֵי ה' בְּבֵית קָדְשֵׁי הַקֳּדָשִׁים:

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura · Midot 5:4
לִשְׁכַּת הַגּוֹלָה. עַל שֵׁם בּוֹר שֶׁכָּרוּ שָׁם עוֹלֵי גּוֹלָה…

Bartenura explica: “câmara do exílio” — assim chamada por causa do poço que os que subiram do exílio ali cavaram. Sobre a opinião de Abba Shaul, explica que essa mesma câmara da madeira era, de fato, a câmara do sumo sacerdote, sendo também a câmara de Parhedrin sobre a qual se ensina, no início do tratado Yomá, que sete dias antes do Dia do Perdão separavam o sumo sacerdote de sua casa para essa câmara. Sobre “e o teto das três era um só”, explica tratar-se de uma única cobertura contínua para as três câmaras. Sobre “ali sentava o grande Sinédrio de Israel”, precisa que se sentava no lado comum da câmara, pois a câmara da pedra lavrada tinha metade sagrada e metade comum, e na metade sagrada não era possível ao Sinédrio sentar-se, já que não há assento permitido no pátio, exceto para os reis da casa de David, como está escrito: “e entrou o rei David, e sentou-se perante o Eterno” (Shmuel Bet 7).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Midot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado de mishnayot puras, dedicado à descrição arquitetônica do Segundo Templo, sem comentário talmúdico amoraico. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado — inclusive nesta última mishná, que encerra o tratado inteiro sem o desenvolvimento amoraico que fecha a maioria dos demais tratados da Mishná. Nesta mishná, o Rambam também não deixou comentário no Perush HaMishná que chegou até nós; por honestidade com as fontes, essa seção é omitida.

Encerramento do tratado · סִיּוּם הַמַּסֶּכֶת

הֲדַרָן עֲלָךְ כָּל הָעֲזָרָה, וּסְלִיקָא לַהּ מַסֶּכֶת מִדּוֹת

Com esta quarta mishná do Perek Hei, encerra-se o Perek “כָּל הָעֲזָרָה” — e com ele, toda a Massechet Midot. Como o tratado não possui Guemará no Talmud Bavli, não há aqui a fórmula amoraica tradicional de encerramento de daf; em seu lugar, adota-se a fórmula que abre este bloco — “hadran alach” (“voltaremos a ti”), nomeando o capítulo por suas palavras iniciais, seguida de “vessalika lah massechet Midot”, “e assim se encerra o tratado Midot” — o mesmo padrão adotado ao final de Massechet Eduyot, outro tratado sem Guemará.

Ao longo de seus cinco perakim e trinta e quatro mishnayot, Midot ofereceu algo único entre os tratados de Kodashim: não leis de sacrifício, pureza ou serviço, mas um levantamento arquitetônico completo do Segundo Templo, câmara por câmara e côvado por côvado. O Perek Alef (nove mishnayot) abriu com os postos de vigia noturna — três para os sacerdotes, vinte e um para os levitas —, os cinco portões do Monte do Templo, os sete portões do átrio, a Câmara da Fogueira com suas quatro salas internas, e o sistema noturno de fechamento das portas com sua rota subterrânea reservada. O Perek Bet (seis mishnayot) mediu o Monte do Templo, descreveu o Soreg e o Chel, o muro oriental baixo ligado à vaca ruiva, o átrio das mulheres com suas quatro câmaras, e o catálogo final de treze portões. O Perek Guimel (oito mishnayot) voltou-se para o altar de sacrifícios: suas camadas e medidas, o escoamento do sangue até o Kidron, a rampa de acesso, o matadouro com seus anéis e mesas, a bacia de água, e o portal monumental do Ulam com suas correntes de ouro e sua videira dourada de ofertas voluntárias. O Perek Dalet (sete mishnayot) descreveu o próprio edifício do Heichal: seu portal e portas, as trinta e oito câmaras em três andares ao seu redor, a mesibá em espiral, a altura de cem côvados camada por camada, e a imagem final do Santuário estreito atrás e largo à frente, como um leão. E este Perek Hei (quatro mishnayot), o mais breve do tratado, fechou o levantamento com as medidas totais do pátio nos dois eixos, e suas seis câmaras funcionais — três ao norte (sal, parvá, lavadores) e três ao sul (madeira, exílio, pedra lavrada) —, culminando na câmara onde o grande Sinédrio examinava a pureza da linhagem sacerdotal, e na celebração comunitária que fecha todo o tratado: a bênção pela ausência de mácula na semente de Aarão.

Com a conclusão de Massechet Midot, completa-se o décimo tratado da Seder Kodashim, a quinta das seis Ordens da Mishná. O estudo da Mishná prossegue agora para o último tratado desta Ordem, Massechet Kinim — o mais breve de toda a Mishná, dedicado às leis das oferendas de aves —, e, depois dele, para a Seder Tehorot, a sexta e última das seis Ordens.