Seder Moed · Massechet Moed Katan · Perek Alef · Mishná 5 de 10

Examinar as chagas e recolher os ossos dos pais

רוֹאִין אֶת הַנְּגָעִים בַּתְּחִלָּה לְהָקֵל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná deixa a agricultura para tratar de dois temas ligados à alegria da festa: o exame de chagas de tzaraat, que pode trazer boas ou más notícias, e o luto — que a festa não deve nem provocar nem reavivar.

Rabi Meir diz: examinam-se as chagas no Chol HaMoed para aliviar, mas não para agravar. Mas os sábios dizem: nem para aliviar, nem para agravar.Quando um cohen examina uma chaga suspeita de tzaraat, ele pode declará-la pura ou impura, ou aguardar em isolamento por mais uma semana. Rabi Meir permite esse exame no Chol HaMoed apenas quando o resultado provável for a pureza — trazendo alívio e alegria à pessoa —, mas não quando o resultado for a impureza, que a entristeceria justamente nos dias da festa. Os sábios discordam: uma vez que o cohen se dispõe a examinar, ele deve declarar o que de fato vê, seja pureza seja impureza, pois calar-se diante de uma impureza real não é uma opção válida — por isso preferem que ele simplesmente não seja procurado para o exame durante o Chol HaMoed.

E disse ainda Rabi Meir: recolhe-se os ossos do pai e da mãe, pois isso é uma alegria para ele. Rabi Yosei diz: é um luto para ele. Não se desperta o luto por seu morto, nem se faz seu elogio fúnebre, trinta dias antes da festa.Recolher os ossos de um parente já falecido há tempo, para transladá-los a um sepulcro definitivo, é visto por Rabi Meir como motivo de contentamento — o filho vê seus pais finalmente enterrados junto aos ancestrais — e por isso permite fazê-lo no Chol HaMoed. Rabi Yosei discorda, pois considera esse ato um reavivamento do luto, e não uma alegria; a halachá não segue nenhum dos dois nesse ponto específico. Já a proibição final é consensual: nos trinta dias antes da festa, não se deve contratar quem provoque ou reavive o luto por um morto, para que a lembrança fresca do luto não interfira na alegria da própria festa quando ela chegar.

רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, רוֹאִין אֶת הַנְּגָעִים בַּתְּחִלָּה לְהָקֵל, אֲבָל לֹא לְהַחְמִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, לֹא לְהָקֵל וְלֹא לְהַחְמִיר. וְעוֹד אָמַר רַבִּי מֵאִיר, מְלַקֵּט אָדָם עַצְמוֹת אָבִיו וְאִמּוֹ, מִפְּנֵי שֶׁשִּׂמְחָה הִיא לוֹ. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, אֵבֶל הוּא לוֹ. לֹא יְעוֹרֵר אָדָם עַל מֵתוֹ וְלֹא יַסְפִּידֶנּוּ קֹדֶם לָרֶגֶל שְׁלֹשִׁים יוֹם:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 16:14
וְשָׂמַחְתָּ בְּחַגֶּךָ
E te alegrarás em tua festa.

É este mandamento de alegria que fundamenta ambos os temas da mishná: o cohen se abstém de declarar impureza — o que traria tristeza — precisamente por causa desse versículo, e a proibição de reavivar o luto trinta dias antes da festa segue a mesma lógica. Rambam explica que Rabi Meir e os sábios concordam com o princípio de que a festa exige alegria plena; discordam apenas em como equilibrá-lo com o dever do cohen de declarar a verdade sobre a chaga. Quanto ao luto, a Guemará explica que a memória de um falecido permanece viva no coração por cerca de trinta dias após o elogio fúnebre — por isso a proibição se estende exatamente por esse período antes da festa, garantindo que a dor não esteja fresca quando "te alegrarás em tua festa" precisar se cumprir.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o mecanismo técnico do exame de chagas e por que a halachá não segue Rabi Meir em nenhuma das duas leis desta mishná.

Rambam · Perush HaMishná, Moed Katan 1:5
וַחֲכָמִים לְמֵדִים מִמַּאֲמָרוֹ לְטַהֲרוֹ אוֹ לְטַמְּאוֹ, דְּכֵיוָן שֶׁרָאָהוּ עַל כָּל פָּנִים יֵשׁ לוֹ לָדוּן וְלוֹמַר טָהוֹר אוֹ טָמֵא וְאֵין לוֹ לִשְׁתֹּק... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר בִּשְׁתֵּי הַהֲלָכוֹת.
Os sábios derivam do versículo "para declará-lo puro ou para declará-lo impuro" (Vayikrá 13) que, uma vez que o cohen já examinou a chaga, ele é obrigado a declarar seu veredito — puro ou impuro — e não pode simplesmente calar-se diante do que viu. Por isso preferem que ele não seja procurado para exame algum durante o Chol HaMoed, evitando o dilema por completo. E a halachá não segue Rabi Meir em nenhuma das duas leis desta mishná — nem quanto ao exame das chagas, nem quanto ao recolhimento dos ossos dos pais.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica por que Rabi Meir prefere que o cohen não examine de forma alguma quando o resultado é incerto; Rashi traz a razão da Guemará para a janela dos trinta dias.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Moed Katan 1:5
וְכָךְ אֵין סוֹפְדִין אֶת הַמֵּת ל׳ יוֹם קֹדֶם הַמּוֹעֵד כְּדֵי שֶׁלֹּא יָבֹא הַמּוֹעֵד וְהוּא מִתְאַנֵּחַ וְדוֹאֵג מִפְּנֵי הִתְעוֹרְרוּת אֲבֵלוּתוֹ, וְהַשֵּׁם אָמַר וְשָׂמַחְתָּ בְּחַגֶּךָ.

E, do mesmo modo, não se faz o elogio fúnebre trinta dias antes da festa, para que a festa não chegue enquanto a pessoa ainda suspira e se preocupa por causa da lembrança fresca de seu luto — pois a Torá disse "e te alegrarás em tua festa", um mandamento que exige alegria plena e não perturbada por dor recente.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Moed Katan 1:5
לֹא לְהָקֵל וְלֹא לְהַחְמִיר. מִתּוֹךְ שֶׁנִּזְקָק לִרְאוֹתוֹ אִם הוּא טָהוֹר כְּדֵי לְהָקֵל עָלָיו, הוּא נִזְקָק לְהַחְמִיר... וּמוּטָב לוֹ שֶׁלֹּא יִרְאֵהוּ הַכֹּהֵן כְּלָל.

"Nem para aliviar, nem para agravar" — pois, uma vez que o cohen se dispõe a examinar a fim de trazer alívio, ele fica igualmente obrigado a declarar a gravidade, caso a encontre, conforme está escrito "para declará-lo puro ou para declará-lo impuro" — o cohen não tem permissão de calar-se diante do que vê. Por isso os sábios preferem, de saída, que o cohen simplesmente não examine ninguém no Chol HaMoed, evitando toda a situação.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Moed Katan 8a
לֹא יְעוֹרֵר עַל מֵתוֹ - אִם מֵת לוֹ מֵת חָדָשׁ אוֹ חֳדָשִׁים קֹדֶם הַמּוֹעֵד, לֹא יְעוֹרֵר... שֶׁלֹּא יִשְׂכֹּר סַפְדָּן לַחֲזֹר עַל קְרוֹבָיו לוֹמַר בֹּכוּ עִמִּי כָּל מָרֵי נֶפֶשׁ.

"Não desperta o luto por seu morto" — se um parente faleceu recentemente, meses antes da festa, não se deve contratar um pranteador para percorrer os parentes clamando "chorai comigo, todos os de coração amargurado". A Guemará dá dois motivos para a janela de trinta dias: um, que as pessoas costumam começar a juntar dinheiro para as despesas da festa trinta dias antes, e temem que esse dinheiro acabe sendo desviado para pagar o pranteador; outro, mais direto, que a memória do falecido só começa a se apagar do coração depois de trinta dias — por isso um elogio fúnebre feito dentro dessa janela ainda estaria "fresco" quando a festa chegasse, comprometendo sua alegria.