Seder Moed · Massechet Moed Katan · Perek Bet · Mishná 2 de 5

O vinho no lagar e o risco de azedar

מִי שֶׁהָיָה יֵינוֹ בְּתוֹךְ הַבּוֹר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O caso paralelo do vinho no lagar: a mesma disputa entre Rabi Yehudá e Rabi Yossei se repete, mas com as posições invertidas, pois o risco de perda do vinho é diferente do risco de perda do azeite.

E do mesmo modo, quem tinha seu vinho dentro do poço e lhe sobreveio luto ou força maior, ou os trabalhadores o enganaram, derrama, termina e sela como de costume — palavras de Rabi Yossei. Rabi Yehudá diz: faz para ele suportes provisórios, para que não azede.O "poço" é o recipiente junto ao lagar que recolhe o vinho que escorre das uvas prensadas. Assim como no caso do azeite, aqui também Rabi Yossei permite completar todo o processo — recolher o vinho, terminar de prensar e selar as jarras normalmente — pois o prejuízo já começou por circunstâncias alheias ao dono. Rabi Yehudá, porém, inverte sua posição em relação ao caso anterior: para o vinho, basta um remédio provisório — tapar o poço com tábuas soltas, sem selar de vez — suficiente para impedir que o vinho azede, sem realizar o trabalho completo de engarrafamento, que pode esperar até depois da festa.

וְכֵן מִי שֶׁהָיָה יֵינוֹ בְּתוֹךְ הַבּוֹר וְאֵרְעוֹ אֵבֶל אוֹ אֹנֶס, אוֹ שֶׁהִטְעוּהוּ פוֹעֲלִים, זוֹלֵף וְגוֹמֵר וְגָף כְּדַרְכּוֹ, דִּבְרֵי רַבִּי יוֹסֵי. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, עוֹשֶׂה לוֹ לִמּוּדִים, בִּשְׁבִיל שֶׁלֹּא יַחְמִיץ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 16:8
שֵׁשֶׁת יָמִים תֹּאכַל מַצּוֹת, וּבַיּוֹם הַשְּׁבִיעִי עֲצֶרֶת לַה׳ אֱלֹהֶיךָ, לֹא תַעֲשֶׂה מְלָאכָה
Seis dias comerás pães ázimos, e no sétimo dia haverá assembleia solene para o Senhor teu Deus; não farás nenhum trabalho.

Este segundo caso, irmão gêmeo do primeiro, mostra que a mesma leniência de davar ha-aved vale para qualquer processo agrícola interrompido por circunstâncias alheias à vontade do dono — seja o azeite, seja o vinho. A inversão das posições de Rabi Yehudá e Rabi Yossei entre os dois casos ensina que a medida exata da leniência depende da natureza técnica de cada prejuízo: o que basta para impedir a perda do vinho — um remédio provisório — não é o mesmo que basta para impedir a perda do azeite, e vice-versa, cada mestre calibrando sua posição segundo o risco real envolvido em cada produto.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o termo técnico "limudim" e confirma que aqui, ao contrário do caso anterior, a halachá segue Rabi Yossei.

Rambam · Perush HaMishná, Moed Katan 2:2
לִמּוּדִים, פֵּרוּשׁ שֶׁיְּכַסֶּה אוֹתָם בִּנְסָרִים, וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי.
O termo limudim ("suportes") significa que ele cobre o vinho no poço com tábuas soltas, sem selar por completo — apenas para protegê-lo do ar até depois da festa. Também aqui a halachá segue Rabi Yossei, permitindo concluir todo o processo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura identifica o poço do lagar e o material dos suportes provisórios; Rashi confirma a leitura técnica dos mesmos verbos usados na mishná anterior.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Moed Katan 2:2
וְכֵן מִי שֶׁהָיָה יֵינוֹ בְּתוֹךְ הַבּוֹר וְאֵרְעוֹ כוּ׳: לִמּוּדִים פֵּרוּשׁ שֶׁיְּכַסֶּה אוֹתָם בִּנְסָרִים.

O paralelo entre azeite e vinho é explícito na própria mishná — "e do mesmo modo" —, mas a solução técnica se inverte: onde no azeite o mínimo necessário era completar a primeira prensagem, no vinho o mínimo necessário é apenas cobri-lo com tábuas, sem selar de vez, evitando o contato prolongado com o ar que faria o vinho azedar.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Moed Katan 2:2
בְּתוֹךְ הַבּוֹר. חֲפִירָה שֶׁתַּחַת הַגַּת מְסֻיֶּדֶת בְּסִיד לְקַבֵּל הַיַּיִן. לִמּוּדִים. נְסָרִים שֶׁל עֵץ, כְּלוֹמַר מְכַסֶּה אוֹתוֹ שָׁם בִּנְסָרִים שֶׁלֹּא יַחְמִיץ, וְלֹא יִשְׁלֵהוּ מִן הַבּוֹר. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי.

"Dentro do poço" refere-se à cavidade caiada sob o lagar, destinada a recolher o vinho que escorre da prensa. Os "suportes" são tábuas de madeira — ele apenas cobre o vinho ali com essas tábuas para que não azede, sem tirá-lo do poço antes da hora. A halachá segue Rabi Yossei, que permite o processo completo.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Moed Katan 12a
מַתְנִיתִין בְּתוֹךְ הַבּוֹר — שֶׁלִּפְנֵי הַגַּת, אוֹתוֹ כְּלִי שֶׁהַיַּיִן נוֹפֵל בּוֹ מִן הַגַּת קָרוּי בּוֹר. זוֹלֵף וְגוֹמֵר כְּדַרְכּוֹ — כְּלוֹמַר מֵרִיק אוֹתוֹ בֶּחָבִית וְגָף הֶחָבִית בְּמְגוּפָה גְּמוּרָה. עוֹשֶׂה לוֹ לִמּוּדִים — אֵינוֹ יָכוֹל לִגְפֹּף כְּדַרְכּוֹ, אֶלָּא שֶׁיִּתְפֹּס בָּהֶן הַיַּיִן בִּשְׁבִיל שֶׁלֹּא יַחְמִיץ.

Rashi explica que o "poço" fica junto ao lagar e recebe o vinho conforme escorre das uvas prensadas. "Derrama e termina como de costume" significa esvaziar o poço numa jarra e fechá-la com uma rolha completa, como em dia comum. "Faz para ele suportes" significa que, na posição de Rabi Yehudá, ele não pode selar por completo — apenas prender o vinho com tábuas soltas, o bastante para que não azede, deixando o selamento final para depois da festa.