Seder Moed · Massechet Moed Katan · Perek Bet · Mishná 3 de 5

Os frutos dos ladrões e o linho da maceração

מַכְנִיס אָדָם פֵּרוֹתָיו מִפְּנֵי הַגַּנָּבִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa de casos individuais e específicos para o princípio geral que os governa: o trabalho é permitido quando evita prejuízo genuíno e imprevisto, e a condição comum a todos esses casos é que ninguém planeje deliberadamente o trabalho para o Chol HaMoed.

Uma pessoa traz seus frutos para dentro por medo dos ladrões, e tira seu linho da maceração para que não se perca, contanto que não se planeje o trabalho para o Chol HaMoed. E, se todos eles planejaram o trabalho para o Chol HaMoed, perdem-se.Frutos deixados no campo correm o risco real de serem roubados, e por isso é permitido recolhê-los durante os dias intermediários da festa. Da mesma forma, o linho deixado imerso demais na água apodrece, e por isso é permitido retirá-lo da maceração no momento certo. Ambos os casos, porém, dependem de uma condição central que a mishná generaliza a partir deles: a pessoa não pode ter deixado o trabalho de propósito, sabendo que teria tempo de fazê-lo antes da festa, apenas para aproveitar a leniência do Chol HaMoed. E a mishná acrescenta uma penalidade severa: se alguém de fato planejou dessa forma — qualquer um dos casos —, os bens em questão tornam-se proibidos de usufruir, como se estivessem perdidos por completo, mesmo que fisicamente ainda existam.

מַכְנִיס אָדָם פֵּרוֹתָיו מִפְּנֵי הַגַּנָּבִים, וְשׁוֹלֶה פִשְׁתָּנוֹ מִן הַמִּשְׁרָה בִּשְׁבִיל שֶׁלֹּא תֹאבַד, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יְכַוֵּן אֶת מְלַאכְתּוֹ בַמּוֹעֵד. וְכֻלָּן אִם כִּוְּנוּ מְלַאכְתָּן בַּמּוֹעֵד, יֹאבֵדוּ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 16:8
שֵׁשֶׁת יָמִים תֹּאכַל מַצּוֹת, וּבַיּוֹם הַשְּׁבִיעִי עֲצֶרֶת לַה׳ אֱלֹהֶיךָ, לֹא תַעֲשֶׂה מְלָאכָה
Seis dias comerás pães ázimos, e no sétimo dia haverá assembleia solene para o Senhor teu Deus; não farás nenhum trabalho.

Esta mishná formula, pela primeira vez explicitamente no capítulo, a condição que sustenta todas as leniências anteriores do capítulo: "contanto que não se planeje o trabalho para o Chol HaMoed." A proibição de trabalho nos dias intermediários é derivada da mesma leitura ampliada do versículo que rege o sétimo dia de Pessach — e é precisamente porque essa proibição existe que a permissão para evitar prejuízo genuíno precisa de uma salvaguarda: sem ela, qualquer pessoa poderia fingir urgência para trabalhar livremente durante a festa. A penalidade de perda total, aplicada a quem burla essa condição, funciona como dissuasão para preservar a santidade do Chol HaMoed.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica que a penalidade de "perda" significa a confiscação judicial do bem, tornando-o efetivamente sem dono.

Rambam · Perush HaMishná, Moed Katan 2:3
יֹאבֵדוּ, פֵּרוּשׁ שֶׁבֵּית דִּין מְאַבְּדִין לוֹ כׇּל אוֹתוֹ הַמָּמוֹן וְעוֹשִׂין אוֹתוֹ הֶפְקֵר.
A expressão "perdem-se" significa que o próprio tribunal confisca esse patrimônio e o declara hefker — sem dono, disponível para qualquer pessoa tomar —, retirando-o de quem tentou explorar a leniência do Chol HaMoed em proveito próprio.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura confirma a leitura da penalidade; Rashi define os dois verbos técnicos da mishná, "trazer" e "tirar".

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Moed Katan 2:3
מַכְנִיס אָדָם פֵּרוֹתָיו מִפְּנֵי הַגַּנָּבִים וְשׁוֹלֶה כוּ׳: פֵּרוּשׁ יֹאבֵדוּ שֶׁבֵּית דִּין מְאַבְּדִין לוֹ כׇּל אוֹתוֹ הַמָּמוֹן וְעוֹשִׂין אוֹתוֹ הֶפְקֵר.

A mishná junta dois casos de natureza distinta — roubo e apodrecimento — sob o mesmo princípio, porque ambos compartilham a estrutura de um prejuízo real e evitável apenas por ação imediata. A condição comum, e a penalidade comum a quem a viola, valem igualmente para os dois.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Moed Katan 2:3
וְשׁוֹלֶה פִשְׁתָּנוֹ. כׇּל מַה שֶּׁמַּעֲלֶה מִן הַמַּיִם קָרוּי שׁוֹלֶה. אִם כִּוְּנוּ מְלַאכְתָּן בַּמּוֹעֵד יֹאבֵדוּ. בֵּית דִּין מְאַבְּדִים אוֹתוֹ מָמוֹן, וְעוֹשִׂים אוֹתוֹ הֶפְקֵר.

O verbo "sholeh" (tirar, elevar) aplica-se a qualquer ato de retirar algo da água — daí seu uso para o linho puxado para fora da maceração. Quanto à penalidade, Bartenura confirma a leitura de Rambam: o tribunal confisca o bem e o declara sem dono, retirando dele qualquer proveito de quem planejou explorar a leniência.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Moed Katan 12b
מַתְנִיתִין. שׁוֹלֶה — מַעֲלֶה. שֶׁלֹּא יְכַוֵּן מְלַאכְתּוֹ בַּמּוֹעֵד — שֶׁיֵּשׁ לוֹ פְּנַאי בִּשְׁאָר יְמוֹת הַשָּׁנָה וְהוּא מְשַׁהֶה לַמּוֹעֵד. יֹאבְדוּ — שֶׁאָסוּר לֵהָנוֹת מֵהֶן.

Rashi define "sholeh" simplesmente como "elevar" — tirar de dentro da água. Sobre a condição central, explica que ela visa exatamente a pessoa que tinha tempo de sobra ao longo do ano para fazer o trabalho, mas deliberadamente o adiou até o Chol HaMoed, sabendo que ali poderia alegar urgência. E "perdem-se" significa, segundo Rashi, que fica proibido tirar qualquer proveito desses bens — a penalidade recai sobre o próprio uso, não apenas sobre a posse.