Seder Moed · Massechet Moed Katan · Perek Bet · Mishná 4 de 5

Comprar, mudar e trazer utensílios do artesão

אֵין לוֹקְחִין בָּתִּים עֲבָדִים וּבְהֵמָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa dos trabalhos agrícolas para as transações comerciais e a mudança de bens — três casos regidos pelo mesmo princípio: só o que atende a uma necessidade real da própria festa é permitido.

Não se compram casas, escravos e animais, salvo por necessidade da festa, ou por necessidade do vendedor, que não tem o que comer. Não se muda de casa em casa, mas pode-se mudar para o próprio pátio. Não se trazem utensílios da casa do artesão; e, se há receio por eles, muda-se para outro pátio.Uma compra grande — uma casa, um escravo, um animal — é, por natureza, um empreendimento que pode esperar; comprá-la no Chol HaMoed só se justifica se o comprador precisa dela imediatamente para os próprios dias da festa, ou se o vendedor está em dificuldade financeira real e precisa do dinheiro para se sustentar. Da mesma forma, mudar-se de uma casa para outra é um trabalho evitável, adiável para depois da festa — mas mudar-se dentro do próprio pátio, de um cômodo ou anexo para outro, é um esforço menor e permitido. Por fim, buscar de volta utensílios deixados na casa de um artesão para reparo é, em regra, proibido, por não ser urgente — a menos que haja receio concreto de que sejam roubados ou perdidos ali, caso em que é permitido movê-los, ainda que apenas para outro pátio próximo, e não para dentro de casa.

אֵין לוֹקְחִין בָּתִּים, עֲבָדִים וּבְהֵמָה, אֶלָּא לְצֹרֶךְ הַמּוֹעֵד, אוֹ לְצֹרֶךְ הַמּוֹכֵר, שֶׁאֵין לוֹ מַה יֹּאכָל. אֵין מְפַנִּין מִבַּיִת לְבַיִת, אֲבָל מְפַנֶּה הוּא לַחֲצֵרוֹ. אֵין מְבִיאִין כֵּלִים מִבֵּית הָאֻמָּן. וְאִם חוֹשֵׁשׁ לָהֶם, מְפַנָּן לְחָצֵר אַחֶרֶת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 16:8
שֵׁשֶׁת יָמִים תֹּאכַל מַצּוֹת, וּבַיּוֹם הַשְּׁבִיעִי עֲצֶרֶת לַה׳ אֱלֹהֶיךָ, לֹא תַעֲשֶׂה מְלָאכָה
Seis dias comerás pães ázimos, e no sétimo dia haverá assembleia solene para o Senhor teu Deus; não farás nenhum trabalho.

Comprar, mudar-se e transportar bens não são, tecnicamente, "trabalho" no sentido físico do termo — mas o esforço, o comércio e o transtorno que envolvem contrariam o espírito de repouso e celebração que a proibição de melachá visa proteger nos dias intermediários da festa. É por isso que a mishná exige, para cada um desses três atos, uma necessidade concreta que os justifique: a necessidade da própria festa, a necessidade financeira genuína do vendedor, ou o receio real de perda — sempre a mesma lógica de davar ha-aved que fundamenta todo o capítulo, agora aplicada ao comércio e não à agricultura.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam esclarece o que conta como "necessidade da festa" ao trazer utensílios do artesão.

Rambam · Perush HaMishná, Moed Katan 2:4
וְאָמַר מְפַנֶּה הוּא לַחֲצֵרוֹ, רְצוֹנוֹ לוֹמַר שֶׁמְּפַנֶּה אוֹתָן לְבַיִת אַחֵר שֶׁבְּאוֹתוֹ חָצֵר. וּכְשֶׁהַכֵּלִים הֵם לְצֹרֶךְ הַמּוֹעֵד, כְּגוֹן כָּרִים וּכְסָתוֹת וּמַצָּעוֹת וּכְלֵי אֲכִילָה וּשְׁתִיָּה, מְבִיאִין אוֹתָן מִבֵּית הָאֻמָּן.
"Muda-se para o próprio pátio" significa que a pessoa transfere seus pertences para outra casa dentro do mesmo pátio. E quando os utensílios são efetivamente necessários para a própria festa — como almofadas, colchas, roupas de cama e utensílios de comer e beber —, é permitido trazê-los de volta da casa do artesão mesmo sem o receio especial mencionado na mishná.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura distingue os dois motivos que justificam a compra — a necessidade do comprador e a do vendedor —, e detalha o alcance da proibição de mudar utensílios; Rashi confirma a leitura da Guemará sobre o pátio vizinho.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Moed Katan 2:4
אֵין לוֹקְחִין בָּתִּים עֲבָדִים וּבְהֵמָה אֶלָּא לְצֹרֶךְ הַמּוֹעֵד כוּ׳: אֵין מְפַנִּין מִבַּיִת לְבַיִת אֲבָל מְפַנֶּה כוּ׳: מִבַּיִת לְבַיִת, פֵּרוּשׁ מִבַּיִת זֶה לְבַיִת אַחֵר.

Rambam distingue "casa para casa" — mudança proibida, por envolver dois endereços distintos e o esforço público que isso acarreta — de "para o próprio pátio", onde a mudança ocorre inteiramente dentro do mesmo espaço privado, sem o mesmo transtorno.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Moed Katan 2:4
אֶלָּא לְצֹרֶךְ הַמּוֹעֵד. שֶׁהַקּוֹנֶה צָרִיךְ לָהֶם בַּמּוֹעֵד, בָּתִּים לֵישֵׁב בָּהֶם, עֲבָדִים לְשַׁמְּשׁוֹ, בְּהֵמָה לִשְׁחִיטָה. אוֹ לְצֹרֶךְ הַמּוֹכֵר. שֶׁצָּרִיךְ לְמָעוֹת לְהוֹצִיאָן לְצֹרֶךְ יוֹם טוֹב. וְהַנֵּי מִילֵי כֵּלִים שֶׁאֵינָן לְצֹרֶךְ הַמּוֹעֵד, אֲבָל כֵּלִים שֶׁהֵן לְצֹרֶךְ הַמּוֹעֵד כְּגוֹן כָּרִים וּכְסָתוֹת וְכוֹסוֹת וְקִיתוֹנִיּוֹת שָׁרֵי.

Bartenura explica os dois motivos legítimos da compra: "necessidade da festa" significa que o próprio comprador precisa do bem durante os dias intermediários — casas para morar, escravos para servi-lo, animais para o abate ritual da festa; "necessidade do vendedor" significa que este precisa do dinheiro da venda para as despesas da própria festa. Sobre os utensílios deixados com o artesão, esclarece que a restrição vale apenas para peças que não são necessárias à festa — almofadas, colchas, copos e jarros necessários para os dias intermediários já são permitidos independentemente do receio de perda.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Moed Katan 13a
מַתְנִיתִין. אֲבָל מְפַנֶּה הוּא לַחֲצֵרוֹ — וְהָא מַשְׁמַע לֵיהּ עַכְשָׁו שֶׁמֵּבִיא מִבַּיִת שֶׁבַּחֲצֵר אַחֶרֶת לַחֲצֵרוֹ. אִם חוֹשֵׁשׁ — שֶׁמָּא יִגָּנְבוּ.

Rashi esclarece que "muda-se para o próprio pátio" refere-se, na leitura da Guemará, a trazer bens de uma casa situada em outro pátio para dentro do pátio da própria pessoa — um deslocamento limitado, mas ainda assim permitido. E o "receio" mencionado na cláusula sobre o artesão é especificamente o medo de que os utensílios sejam roubados enquanto permanecem lá.