Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Alef · Mishná 2 de 4

Konam, cherek, nazik, shevutá: os quatro grupos de kinuyim

קוֹנָם קוֹנָח קוֹנָס הֲרֵי אֵלּוּ כִנּוּיִין לְקָרְבָּן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Depois de estabelecer, na mishná anterior, que as fórmulas substitutas valem como o termo original, esta mishná lista os quatro grupos concretos de kinuyim — palavras distorcidas ou estrangeiras que os Sábios reconheceram como equivalentes a korban, cherem, nezirut e shevuá.

Quem diz a seu companheiro: konam, konach, konas — estas são expressões substitutas para oferenda. Cherek, cherech, cheref — estas são expressões substitutas para anátema. Nazik, naziach, paziach — estas são expressões substitutas para nazireado. Shevutá, shekuká, votou "bemota" — estas são expressões substitutas para juramento.Esta mishná passa das yadot (alças do voto, tratadas na mishná anterior) para os kinuyim propriamente ditos: palavras que soam parecidas com o termo hebraico original, mas dele se distanciam por corrupção fonética ou por serem emprestadas de outras línguas. "Konam", "konach" e "konas" substituem "korban" (oferenda) — bastando que a pessoa diga uma dessas palavras junto com uma proibição para que o voto tenha a força de um voto de oferenda. "Cherek", "cherech" e "cheref" substituem "cherem" (anátema, consagração irrevogável). "Nazik", "naziach" e "paziach" substituem "nazir" (nazireu): quem usa uma dessas palavras para se comprometer assume as obrigações do nazireado. E "shevutá", "shekuká" e a fórmula "nadar bemota" (jurando "bemota", termo aramaico) substituem "shevuá" (juramento). Em todos os quatro grupos, o princípio é o mesmo estabelecido na mishná anterior: a Torá não exige a palavra exata, e sim a intenção clara de proibição expressa pela fala — mesmo que distorcida ou em outro idioma.

הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ, קוֹנָם קוֹנָח, קוֹנָס, הֲרֵי אֵלּוּ כִנּוּיִין לְקָרְבָּן. חֵרֶק חֵרֶךְ, חֵרֵף, הֲרֵי אֵלּוּ כִנּוּיִין לְחֵרֶם. נָזִיק נָזִיחַ, פָּזִיחַ, הֲרֵי אֵלּוּ כִנּוּיִין לִנְזִירוּת. שְׁבוּתָה, שְׁקוּקָה, נָדַר בְּמוֹתָא, הֲרֵי אֵלּוּ כִנּוּיִין לִשְׁבוּעָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A Guemará deriva a validade dos kinuyim de nazireado — e, por analogia (hekesh), a de todos os demais tipos de voto — da própria formulação da lei do nazireu na Torá, que fala em "declarar" e não apenas em pronunciar a palavra técnica.

Bamidbar (Números) 6:2
אִישׁ אוֹ אִשָּׁה כִּי יַפְלִא לִנְדֹּר נֶדֶר נָזִיר לְהַזִּיר לַה'
Um homem ou uma mulher, quando se distinguir fazendo um voto de nazireu, para se consagrar (lehazir) ao Eterno.

A Guemará repara que a Torá poderia ter escrito apenas "quando fizer um voto de nazireu", mas acrescenta a expressão "lehazir" (para se consagrar) — uma palavra "a mais" que os Sábios interpretam como incluindo qualquer expressão substituta que evoque a ideia de consagração, ainda que não seja o termo técnico "nazir". Desse excedente textual na lei do nazireado, a Guemará deriva por analogia (hekesh) que também os kinuyim de voto, de anátema e de juramento têm força vinculante — pois a Torá equipara explicitamente as diferentes categorias de voto entre si. É essa mesma leitura generosa da linguagem da Torá, atenta à intenção e não apenas à fórmula exata, que sustenta toda a lista de expressões substitutas desta mishná.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Mishné Torá, formula o princípio geral por trás desta lista: os kinuyim seguem o uso linguístico corrente em cada lugar e época, e não uma lista fechada e imutável.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Nedarim 1:16
יֵשׁ מְקוֹמוֹת שֶׁאַנְשֵׁיהֶם עִלְּגִים וּמַפְסִידִין אֶת הַלָּשׁוֹן וּמְכַנִּין עַל דָּבָר בְּדָבָר אַחֵר, הוֹלְכִין שָׁם אַחַר הַכִּנּוּי... וְכֵן כָּל כַּיּוֹצֵא בָּזֶה הוֹלְכִין אַחַר לְשׁוֹן כְּלַל הָעָם בְּאוֹתוֹ מָקוֹם וּבְאוֹתוֹ זְמַן

Rambam explica o fenômeno linguístico por trás desta mishná: há lugares onde os moradores falam de forma corrompida ou gaga, distorcendo a pronúncia correta e chamando uma coisa pelo nome de outra — e é exatamente esse uso popular, ainda que tecnicamente "errado", que a halachá reconhece como válido para fins de voto. Rambam formula a regra geral: em qualquer caso semelhante aos listados nesta mishná, segue-se o uso linguístico do povo comum, naquele lugar e naquela época específicos — o que significa que a lista de kinuyim da mishná não é necessariamente exaustiva ou fixa para todas as gerações, mas exemplifica o princípio de que a linguagem coloquial distorcida tem a mesma força que o termo técnico correto, contanto que a intenção de proibição seja clara.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica a origem estrangeira dos termos "konam" e "bemota"; Rashi, sobre a Guemará, confirma que os kinuyim são palavras de povos gentios que os Sábios incorporaram por reconhecerem nelas a mesma intenção de voto.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 1:2
קוֹנָם קוֹנָח קוֹנָס הֲרֵי אֵלּוּ כִנּוּיִין לְקָרְבָּן. לְשׁוֹנוֹת שֶׁל גּוֹיִם הֵם... נָדַר בְּמוֹתָא. כְּלוֹמַר נִשְׁבַּע בְּמוֹתָא, וְהוּא כִנּוּי שֶׁל מוֹמְתָא, שֶׁהִיא שְׁבוּעָה בִּלְשׁוֹן תַּרְגּוּם

Bartenura explica que "konam", "konach" e "konas" são termos de línguas gentias: entre os diferentes povos, havia quem chamasse a oferenda de uma forma e quem a chamasse de outra, e em qualquer uma dessas línguas, a pessoa que a pronuncia junto com uma proibição consagra o objeto por meio de uma oferenda. Sobre a última fórmula, "nadar bemota", Bartenura esclarece que significa "jurou por mota" — sendo esta uma variante de "momta", que é a palavra para "juramento" na língua do Targum (aramaico). O comentário confirma o padrão comum aos quatro grupos: cada um reúne variações fonéticas e empréstimos de outros idiomas que os Sábios reconheceram como referindo-se, sem ambiguidade, à categoria de voto correspondente.

Rashi · רש"י
Nedarim 3a
כִּנּוּיִין לְשׁוֹן נָכְרִים — דְּבְהָנֵי לְשׁוֹנוֹת נִדְרֵי נָכְרִים כְּקוֹנָם קוֹנָח קוֹנָס, שֶׁיֵּשׁ לָשׁוֹן שֶׁקּוֹרִין לְקָרְבָּן קוֹנָם וְיֵשׁ לָשׁוֹן שֶׁקּוֹרִין לְקָרְבָּן קוֹנָח, וְכֵן הַשְּׁאָר... וְכֵיוָן דְּאִיכָּא נָכְרִים דְּנָדְרֵי הַתּוֹרָה אָסְרָה בְּכָל לָשׁוֹן דְּקָאָמַר, דְּהָא הֲוֵי נֶדֶר

Rashi confirma o pano de fundo linguístico: os kinuyim desta mishná são, em sua origem, palavras de povos gentios — pois entre as diversas nações havia quem chamasse a oferenda "konam" e quem a chamasse "konach", e assim por diante com os demais termos. A Guemará explica que os Sábios contaram justamente essas fórmulas porque os judeus da época eram versados nelas (bekiin), tendo contato com essas línguas; mas o princípio subjacente vale para qualquer expressão em qualquer idioma, pois a Torá proíbe "conforme tudo o que sair de sua boca" — ou seja, em qualquer língua que a pessoa use, desde que ela expresse de fato a intenção de um voto, a proibição se aplica. Rashi discute ainda, à luz da posição de Reish Lakish, a distinção entre kinuyim como fórmulas emprestadas de línguas estrangeiras e yadot como fórmulas que os próprios Sábios formularam.