Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Alef · Mishná 3 de 4

"Não chulin", "como um cordeiro": votar sem dizer korban

כְּאִמְּרָא כַּדִּירִין כָּעֵצִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Depois de tratar dos kinuyim que substituem diretamente a palavra korban, a mishná passa a duas outras formas de votar sem pronunciar essa palavra: negar que a comida seja "comum" ou "permitida", e compará-la a algo ligado ao Templo — um cordeiro, os currais, a lenha, o próprio altar ou Jerusalém.

Quem diz: não chulin, não comerei para ti; não kasher, e não dechei; puro, e impuro; notar, e pigul — está proibido. Como um cordeiro, como os currais, como a lenha, como os fogos, como o altar, como o Santuário, como Jerusalém — votou por meio de um dos utensílios de serviço do altar; mesmo sem mencionar a palavra oferenda, eis que votou em oferenda. Rabi Yehuda diz: quem diz "Jerusalém" não disse nada.A mishná apresenta duas técnicas adicionais de voto que dispensam a palavra "korban". Na primeira, a pessoa nega à comida do outro a qualidade de "chulin" (comida comum, não sacra) ou de "kasher"/"dechei" (aceitável, apta), ou afirma que ela é "impura", "notar" (sobra de sacrifício além do prazo) ou "pigul" (sacrifício invalidado por intenção errada no momento do abate) — todos esses são termos que só fazem sentido referidos a uma oferenda, de modo que, ao aplicá-los à comida comum do outro, a pessoa a está tratando implicitamente como sacra, proibindo-a. Na segunda técnica, a pessoa compara a comida a algo do complexo do Templo — um cordeiro do sacrifício tamid, os currais onde ficavam os animais, a lenha da pira, o fogo do altar, o próprio altar, o Santuário ou Jerusalém — ou a qualquer um dos utensílios de serviço do altar; mesmo sem citar a palavra "korban", essa comparação implícita basta para constituir um voto pleno. Rabi Yehuda discorda apenas quanto a "Jerusalém": para ele, essa palavra sozinha é ambígua demais (podendo referir-se à cidade em geral, não apenas ao seu aspecto sacro) para constituir voto, e por isso "não disse nada".

הָאוֹמֵר לֹא חֻלִּין לֹא אֹכַל לָךְ, לֹא כָשֵׁר, וְלֹא דְכֵי, טָהוֹר, וְטָמֵא, נוֹתָר, וּפִגּוּל, אָסוּר. כְּאִמְּרָא, כַּדִּירִין, כָּעֵצִים, כָּאִשִּׁים, כַּמִּזְבֵּחַ, כַּהֵיכָל, כִּירוּשָׁלָיִם, נָדַר בְּאֶחָד מִכָּל מְשַׁמְּשֵׁי הַמִּזְבֵּחַ, אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא הִזְכִּיר קָרְבָּן, הֲרֵי זֶה נָדַר בְּקָרְבָּן. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, הָאוֹמֵר יְרוּשָׁלַיִם, לֹא אָמַר כְּלוּם:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A distinção entre o comum (chulin) e o sagrado, que fundamenta a primeira metade desta mishná, remonta ao mandamento sacerdotal de separar entre o sagrado e o profano.

Vayikra (Levítico) 10:10
וּלְהַבְדִּיל בֵּין הַקֹּדֶשׁ וּבֵין הַחֹל, וּבֵין הַטָּמֵא וּבֵין הַטָּהוֹר
E para distinguir entre o sagrado e o comum, e entre o impuro e o puro.

A Torá estabelece "chol" (comum) e "kodesh" (sagrado), assim como "tahor" (puro) e "tamê" (impuro), como pares de categorias opostas e mutuamente exclusivas. É exatamente esse par de opostos que a mishná explora: ao negar que sua comida seja "chulin" — isto é, ao afirmar implicitamente que ela pertence à categoria oposta, o "kodesh" — a pessoa está, pela própria lógica binária que a Torá estabelece, tratando aquele alimento como sacrifício consagrado. O mesmo vale para "tahor" e "tamê": negar a pureza equivale a afirmar a condição de uma oferenda impura, sujeita às leis de "notar" e "pigul" que só se aplicam a sacrifícios.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Mishné Torá, detalha os dois mecanismos da mishná separadamente: a negação de "chulin" e similares, e a comparação com objetos ligados ao serviço do Templo.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Nedarim 1:14, 1:18
אָמַר הֲרֵי הֵן עָלַי כְּתָמִידִים כְּדִירִים כְּעֵצִים כְּאִשִּׁים כְּמִזְבֵּחַ אוֹ כְּאַחַד מִמְּשַׁמְּשֵׁי הַמִּזְבֵּחַ... וְכֵן הָאוֹמֵר הֲרֵי הֵן עָלַי כְּהֵיכָל כִּירוּשָׁלַיִם הֲרֵי אֵלּוּ אֲסוּרִין, וְאַף עַל פִּי שֶׁלֹּא הִזְכִּיר שֵׁם קָרְבָּן... הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ מַה שֶּׁאֹכַל עִמְּךָ לֹא יְהֵא חֻלִּין... הֲרֵי זֶה כְּמִי שֶׁאָמַר לוֹ כָּל מַה שֶּׁאֹכַל עִמְּךָ יְהֵא קָרְבָּן שֶׁהוּא אָסוּר

Rambam confirma que quem compara sua comida a qualquer elemento ligado permanentemente ao serviço do Templo — os currais, a lenha, os fogos, o altar, ou instrumentos como os garfos e as bacias de aspersão — e igualmente quem a compara ao Santuário ou a Jerusalém, torna essa comida proibida como se tivesse mencionado explicitamente a palavra "korban", pois todos esses objetos e lugares só existem em função do serviço sacrificial, de modo que invocá-los equivale a invocar a própria oferenda. Quanto à primeira metade da mishná, Rambam explica que negar a "chulin" equivale a afirmar "kodesh" — e quem assim proíbe sua comida e depois come um kazait dela leva chicotadas por violar a proibição bíblica de profanar sua palavra, exatamente como se tivesse feito um voto de oferenda em termos explícitos.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam, no Perush HaMishná, identifica cada um dos objetos do Templo mencionados na mishná; Bartenura acrescenta a opinião alternativa sobre "Jerusalém"; Rashi, sobre a Guemará, discute a distinção entre "como um cordeiro que comerei" e "como um cordeiro não comerei".

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 1:3
וְאִמְּרָא הֵם ב' תְּמִידִים. וְדִירִים מְקוֹמוֹת שֶׁבָּעֲזָרָה. וְעֵצִים עֲצֵי מִזְבֵּחַ. וְאִשִּׁים רְצוֹנוֹ לוֹמַר כְּמוֹ הַדְּבָרִים שֶׁנִּקְרָבִין לָאִשִּׁים וְהֵם אֵימוּרֵי קָדָשִׁים שֶׁאֵינָן מֻתָּרִים בַּאֲכִילָה. וּמְשַׁמְּשֵׁי הַמִּזְבֵּחַ הֵם יָעָיו וּמִזְרָקוֹתָיו וּמִזְלָגוֹתָיו

Rambam identifica com precisão cada termo técnico da mishná: "eimra" refere-se aos dois cordeiros do sacrifício tamid, oferecido diariamente pela manhã e à tarde; "dirin" são os locais do pátio do Templo onde os animais destinados ao sacrifício ficavam guardados; "etzim" é a lenha empilhada para a pira do altar; e "ishim" designa as partes do sacrifício que são queimadas no fogo do altar — os "eimurim" (partes consagradas) que não são permitidas para consumo humano. Os "utensílios de serviço do altar" são as pás (para as cinzas), as bacias de aspersão do sangue e os garfos usados para virar as carnes sobre o fogo. Rambam explica que este trecho da mishná é o que se relaciona diretamente ao versículo "impor proibição sobre si mesmo" (Bamidbar 30:3): a pessoa toma algo que lhe é permitido e o transforma, por sua fala, em algo com o status de coisas totalmente proibidas.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 1:3
כִּירוּשָׁלָיִם. כַּקָּרְבָּנוֹת שֶׁבִּירוּשָׁלַיִם. פֵּרוּשׁ אַחֵר, כְּחוֹמוֹת יְרוּשָׁלַיִם, דְּקָסָבַר שֶׁחוֹמוֹת יְרוּשָׁלַיִם מִשְּׁיָרֵי הַלִּשְׁכָּה קָא אָתוּ... רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר הָאוֹמֵר יְרוּשָׁלַיִם, בְּלֹא כָּ"ף, לֹא אָמַר כְּלוּם

Bartenura traz duas explicações para "como Jerusalém": a primeira entende que a comparação é com as oferendas trazidas e consumidas em Jerusalém; a segunda, que a comparação é com as próprias muralhas da cidade, construídas — segundo essa opinião — com o excedente dos fundos da câmara do Templo (a "lishcá"), sendo portanto elas mesmas um bem sacro. Bartenura esclarece ainda um ponto textual importante: a posição de Rabi Yehuda, segundo a qual "quem diz Jerusalém não disse nada", refere-se especificamente a quem diz apenas "Jerusalém" sem o prefixo comparativo "como" (kaf), e não à fórmula completa "como Jerusalém" mencionada no corpo da mishná — e a lei não segue Rabi Yehuda.

Rashi · רש"י
Nedarim 13a
כֻּלָּן שֶׁאֹכַל לָךְ אָסוּר — דְּכִי אָמַר כְּאִמְּרָא שֶׁאֹכַל לָךְ דָּמֵי כְּמַאן דְּאָמַר יֵאָסֵר עָלַי מַה שֶּׁאֹכַל לָךְ, אֲבָל אָמַר כְּאִמְּרָא לֹא אֹכַל לָךְ מֻתָּר, דְּמַשְׁמַע אֲבָל אִם אֹכַל לָךְ לֹא יְהֵא כְּאִמְּרָא, וּמֻתָּר

Rashi, discutindo a sugia sobre estas fórmulas de comparação, esclarece uma distinção sintática crucial preservada pela Guemará: quando a pessoa diz "como um cordeiro que comerei para ti" (a fórmula afirmativa, referida ao ato futuro de comer), isso equivale a dizer "seja proibido o que eu comer para ti" — um voto pleno e válido, como registra a nossa mishná. Mas se ela disser "como um cordeiro, não comerei para ti" (invertendo a ordem, com a negação referida ao comer), o sentido se torna condicional e reflexivo: "mas, se eu comer para ti, isso não será como um cordeiro" — o que na verdade permite a ação, sem constituir proibição alguma. Rashi mostra assim que a ordem exata das palavras hebraicas determina se a fórmula proíbe ou permite, um refinamento que a Guemará atribui à opinião de Rabi Meir sobre a diferença entre essas construções.