Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Dalet · Mishná 3 de 8

Terumot, ensino de Torá e o debate sobre alimentar o animal impuro

מְלַמְּדוֹ מִדְרָשׁ, הֲלָכוֹת וְאַגָּדוֹת, אֲבָל לֹא יְלַמְּדֶנּוּ מִקְרָא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná mais longa do capítulo continua listando o que o votado pode fazer pelo companheiro — separar terumot, sacrificar por ele, ensinar-lhe partes da Torá, sustentar sua família — e fecha com um debate sobre alimentar seu animal.

E separa a sua teruma e seus dízimos, com o conhecimento dele. E sacrifica por ele as oferendas de aves de zavim, de zavot, de parturientes, chatot e ashamot. E ensina-lhe Midrash, Halachot e Agadot, mas não lhe ensina Mikrá. Mas ensina Mikrá a seus filhos e filhas. E sustenta sua esposa e seus filhos, ainda que esteja obrigado ao sustento deles. Mas não sustenta seu animal, seja impuro seja puro. Rabi Eliezer diz: sustenta o impuro, mas não sustenta o puro. Disseram-lhe: qual a diferença entre o impuro e o puro? Disse-lhes: porque o puro, sua alma pertence aos céus e seu corpo é dele; e o impuro, sua alma e seu corpo pertencem aos céus. Disseram-lhe: também o impuro, sua alma pertence aos céus e seu corpo é dele, pois se quiser, eis que o vende a gentios ou o dá de comer aos cães.A mishná continua a lista de atos permitidos apesar do voto, todos unidos pela mesma lógica: cumprir um mandamento independente não é gerar benefício pessoal. Separar teruma e dízimos "com o conhecimento dele" significa que o votante age por autorização geral do dono — "quem quiser separar, que venha e separe" —, não como seu agente pessoal designado, o que evitaria a aparência de prestar-lhe um serviço direto. O sacerdote votado pode oferecer os sacrifícios de aves do israelita votante porque a Torá o obriga a fazê-lo para qualquer israelita. No ensino, a mishná distingue Midrash, Halachot e Agadot — que ninguém pode cobrar para ensinar, por serem tradição oral transmitida gratuitamente — de Mikrá, o texto bíblico, cujo ensino costuma envolver pagamento pela cantilação; por isso ensinar Mikrá de graça equivaleria a um desconto, um benefício real. Sustentar esposa e filhos é permitido porque essa obrigação já recai sobre o próprio marido/pai independentemente do voto de outrem. O debate final, entre Rabi Eliezer e os sábios, gira sobre alimentar o animal do companheiro: Rabi Eliezer distingue entre o animal impuro, cujo corpo pertence inteiramente aos céus — isto é, não tem valor comestível para seu dono israelita —, e o puro, cujo corpo é propriedade plena do dono e cuja engorda aumenta diretamente seu valor de mercado; os sábios replicam que mesmo o animal impuro tem valor de mercado, pois pode ser vendido a gentios ou dado como alimento a cães, de modo que engordá-lo também beneficia o dono.

וְתוֹרֵם אֶת תְּרוּמָתוֹ וּמַעַשְׂרוֹתָיו לְדַעְתּוֹ. וּמַקְרִיב עָלָיו קִנֵּי זָבִין, קִנֵּי זָבוֹת, קִנֵּי יוֹלְדוֹת, חַטָּאוֹת וַאֲשָׁמוֹת, וּמְלַמְּדוֹ מִדְרָשׁ, הֲלָכוֹת וְאַגָּדוֹת, אֲבָל לֹא יְלַמְּדֶנּוּ מִקְרָא. אֲבָל מְלַמֵּד הוּא אֶת בָּנָיו וְאֶת בְּנוֹתָיו מִקְרָא, וְזָן אֶת אִשְׁתּוֹ וְאֶת בָּנָיו אַף עַל פִּי שֶׁהוּא חַיָּב בִּמְזוֹנוֹתֵיהֶם. וְלֹא יָזוּן אֶת בְּהֶמְתּוֹ, בֵּין טְמֵאָה בֵּין טְהוֹרָה. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, זָן אֶת הַטְּמֵאָה, וְאֵינוֹ זָן אֶת הַטְּהוֹרָה. אָמְרוּ לוֹ, מַה בֵּין טְמֵאָה לִטְהוֹרָה. אָמַר לָהֶן, שֶׁהַטְּהוֹרָה נַפְשָׁהּ לַשָּׁמַיִם וְגוּפָהּ שֶׁלּוֹ, וּטְמֵאָה נַפְשָׁהּ וְגוּפָהּ לַשָּׁמָיִם. אָמְרוּ לוֹ, אַף הַטְּמֵאָה נַפְשָׁהּ לַשָּׁמַיִם וְגוּפָהּ שֶׁלּוֹ, שֶׁאִם יִרְצֶה, הֲרֵי הוּא מוֹכְרָהּ לְגוֹיִם אוֹ מַאֲכִילָהּ לִכְלָבִים:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A regra de que ninguém pode cobrar para ensinar Torá Oral — base da distinção entre Midrash/Halachot/Agadot e Mikrá na mishná — deriva do modelo de Moshé, que recebeu e transmitiu a Torá gratuitamente por ordem divina.

Devarim (Deuteronômio) 4:14
וְאֹתִי צִוָּה ה' בָּעֵת הַהִוא לְלַמֵּד אֶתְכֶם חֻקִּים וּמִשְׁפָּטִים, לַעֲשֹׂתְכֶם אֹתָם בָּאָרֶץ אֲשֶׁר אַתֶּם עֹבְרִים שָׁמָּה לְרִשְׁתָּהּ
E a mim ordenou o Eterno, naquele tempo, que vos ensinasse estatutos e leis, para que os praticásseis na terra à qual estais atravessando para tomá-la em posse.

Da expressão "e a mim ordenou o Eterno... para vos ensinar", a tradição rabínica deriva o princípio "assim como eu de graça, vós também de graça" — Moshé recebeu a Torá sem pagamento e a ensinou sem pagamento, estabelecendo o modelo para todo ensino de Torá Oral, que não pode ser vendido. É esse princípio que fundamenta, na mishná, a permissão de ensinar Midrash, Halachot e Agadot ao companheiro votado mesmo de graça — pois cobrar por isso já seria proibido a qualquer pessoa, com ou sem voto —, em contraste com o ensino de Mikrá, cuja cantilação costuma envolver pagamento legítimo, tornando seu ensino gratuito um benefício real e vedado pelo voto.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica o critério que separa o ensino permitido do proibido, e por que a decisão prática segue os sábios contra Rabi Eliezer no debate sobre o animal impuro.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 4:3
וְאָמְרוּ לֹא יְלַמְּדֶנּוּ מִקְרָא, זֶה הוּא בְּמָקוֹם שֶׁמְּלַמְּדִין בּוֹ תּוֹרָה שֶׁבִּכְתָב בְּשָׂכָר, אֲבָל בְּמָקוֹם שֶׁמְּלַמְּדִין תּוֹרָה שֶׁבִּכְתָב בְּלֹא שָׂכָר, מֻתָּר לוֹ לְלַמְּדוֹ מִקְרָא... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר

Rambam esclarece que a proibição de ensinar Mikrá aplica-se apenas onde é costume cobrar por esse ensino; onde o Mikrá é ensinado gratuitamente como norma, também ele pode ser ensinado ao votado sem restrição, pois deixaria de haver qualquer benefício econômico envolvido. Sobre o debate entre Rabi Eliezer e os sábios a respeito do animal impuro, Rambam decide expressamente que a lei segue os sábios: mesmo o animal impuro tem valor comercial real — pela venda a gentios ou como alimento para cães —, de modo que sustentá-lo e engordá-lo também beneficia diretamente seu dono, e por isso permanece vedado ao votado.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará (Nedarim 35b e 38a), explica o mecanismo dos sacrifícios de aves e a lógica de "não engordar" o animal do companheiro; Bartenura detalha cada cláusula da longa lista de atos permitidos e proibidos.

Rashi · רש"י
Nedarim 35b, 38a
מַתְנִיתִין וְתוֹרֵם אֶת תְּרוּמָתוֹ וְכוּ' מְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא. וּמַקְרִיב עָלָיו קִנֵּי זָבִין וְכוּ', אִם הָיָה כֹּהֵן אוֹתוֹ שֶׁנָּדַר שֶׁלֹּא יֵהָנֶה מִמֶּנּוּ, יָכוֹל לְהַקְרִיב עָלָיו קִנֵּי זָבִין וְקִנֵּי זָבוֹת וְכוּ'... מַתְנִיתִין וְזָן אֶת אִשְׁתּוֹ וְאֶת בָּנָיו שֶׁל מוּדָּר. אַף עַל פִּי שֶׁהַמּוּדָּר חַיָּב בִּמְזוֹנוֹתָן, כֵּיוָן דְּלָאו לְפַטּוּמֵי עֲבִידָן וְדֵי לָהֶן בְּמַאי שֶׁהוּא מְפַרְנְסָן, לָאו הֲנָאָה מְרֻבָּה עָבֵיד לֵיהּ, וְלֹא יָזוּן אֶת בְּהֶמְתּוֹ, הוֹאִיל וּלְפַטּוּמֵי עֲבִידָן עָבֵיד לֵיהּ הֲנָאָה מְרֻבָּה

Rashi confirma que, se o votado for sacerdote, ele pode oferecer os sacrifícios de aves do israelita votante — obrigação sacerdotal que não depende da relação entre eles. Sobre o sustento da família, Rashi explica a distinção decisiva entre pessoas e animais: sustentar esposa e filhos não configura "benefício grande", pois a intenção não é engordá-los para lucro, e basta prover o mínimo necessário; mas sustentar o animal do companheiro é, por definição, um ato de engorda que aumenta seu valor de mercado — por isso constitui um "benefício grande" e permanece proibido pelo voto.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 4:3
כְּבָר בֵּאַרְנוּ שֶׁאִם פָּרַע הוּא בִּשְׁבִילוֹ שׁוּם דָּבָר הַמְחֻיָּב בּוֹ הֲרֵי זֶה מֻתָּר, וְאֵינָהּ נִקְרֵאת הֲנָאָה... וְאָמְרוּ לֹא יְלַמְּדֶנּוּ מִקְרָא זֶה הוּא בְּמָקוֹם שֶׁמְּלַמְּדִין בּוֹ תּוֹרָה שֶׁבִּכְתָב בְּשָׂכָר

Rambam retoma o princípio já estabelecido: cumprir uma obrigação preexistente do outro não conta como benefício, mesmo quando lhe traz alívio real — o sustento da família é, para o marido/pai, uma dívida que a Torá lhe impõe independentemente do voto de terceiros. Sobre a proibição de ensinar Mikrá em lugares onde se cobra por isso, Rambam observa, com certo espanto, que há quem tente justificar cobrar por ensino de Torá em geral, e reafirma: a regra bíblica é ensinar Torá gratuitamente, e a única exceção tolerada é o pagamento específico pela técnica de cantilação e vigilância das crianças, não pelo conteúdo do ensino em si.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 4:3
וְתוֹרֵם תְּרוּמָתוֹ וּמַעַשְׂרוֹתָיו לְדַעְתּוֹ. כְּגוֹן שֶׁאָמַר כָּל הָרוֹצֶה לִתְרֹם יָבֹא וְיִתְרֹם, אֲבָל לֹא יֹאמַר לוֹ לִתְרֹם, שֶׁהֲרֵי עוֹשֵׂהוּ שָׁלִיחַ וַהֲנָאָה הִיא לוֹ שֶׁעוֹשֶׂה שְׁלִיחוּתוֹ... אֲבָל לֹא יְלַמְּדֶנּוּ מִקְרָא, שֶׁמֻּתָּר לִטֹּל שָׂכָר עַל לִמּוּד הַמִּקְרָא... וְלֹא יָזוּן אֶת בְּהֶמְתּוֹ, דְּנִיחָא לֵיהּ בְּפִטּוּמָהּ וְקָא מְהַנֵּי לֵיהּ

Bartenura precisa o mecanismo de "com o conhecimento dele": o dono precisa ter feito um anúncio geral e impessoal — "quem quiser separar, que venha e separe" —, nunca uma instrução direta ao votante, pois isso o tornaria seu agente designado, o que já constituiria benefício. Sobre o ensino de Mikrá, Bartenura explica que, como é costume receber pagamento pelo ensino da cantilação correta, ensinar de graça equivale a conceder um desconto real — daí a proibição, restrita aos lugares onde esse costume prevalece. Quanto ao debate sobre o animal, Bartenura resume a posição final dos sábios: como o dono sempre pode vender o animal impuro a gentios ou alimentá-lo aos cães, seu corpo também lhe pertence economicamente, e por isso a lei não segue Rabi Eliezer.