Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Chet · Mishná 6 de 7

O jejum, o alho e a hora do costume

קוֹנָם בָּשָׂר שֶׁאֵינִי טוֹעֵם עַד שֶׁיְּהֵא הַצּוֹם, אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא עַד לֵילֵי צוֹם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná estende o mesmo princípio pragmático que fechou a mishná anterior — a intenção real do costume social, e não a duração técnica da festa — a dois novos casos: a carne vedada até o jejum de Yom Kipur, e o alho vedado até o Shabat.

Disse: "Konam, a carne que eu não provo até que seja o jejum" — não fica proibido senão até a noite do jejum, pois ele não teve em mente senão até a hora em que as pessoas costumam comer carne. Rabi Yossi seu filho diz: "Konam, o alho que eu não provo até que seja Shabat" — não fica proibido senão até a noite de Shabat, pois ele não teve em mente senão até a hora em que as pessoas costumam comer alho.Assim como Rabi Yehudá, na mishná anterior, leu o voto do vinho de Pessach pelo costume social e não pela letra da festa inteira, esta mishná aplica exatamente o mesmo raciocínio a dois outros casos concretos. Quem veda a carne "até que seja o jejum" — referindo-se a Yom Kipur — não pretende se abster além da última refeição costumeira antes do jejum começar, que por tradição é farta em carne; por isso a proibição cessa já na própria noite anterior ao jejum, e não se estende pelo dia do jejum inteiro (quando de qualquer forma comer estaria proibido pela própria mitzvá do jejum). Rabi Yossi bar Yehudá aplica o mesmo raciocínio ao alho: por decreto de Ezra, era costume comer alho nas noites de sexta-feira, ligado à sexualidade conjugal recomendada para essa noite; por isso quem veda o alho "até que seja Shabat" só pretende se abster até a própria noite de sexta-feira, quando esse costume específico ocorre.

אָמַר קוֹנָם בָּשָׂר שֶׁאֵינִי טוֹעֵם עַד שֶׁיְּהֵא הַצּוֹם, אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא עַד לֵילֵי צוֹם, שֶׁלֹּא נִתְכַּוֵּן זֶה אֶלָּא עַד שָׁעָה שֶׁדֶּרֶךְ בְּנֵי אָדָם לֶאֱכֹל בָּשָׂר. רַבִּי יוֹסֵי בְנוֹ אוֹמֵר, קוֹנָם שׁוּם שֶׁאֵינִי טוֹעֵם עַד שֶׁתְּהֵא שַׁבָּת, אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא עַד לֵילֵי שַׁבָּת, שֶׁלֹּא נִתְכַּוֵּן זֶה אֶלָּא עַד שָׁעָה שֶׁדֶּרֶךְ בְּנֵי אָדָם לֶאֱכֹל שׁוּם:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O jejum mencionado nesta mishná é o próprio mandamento de afligir a alma no dia dez de Tishrei, cuja obrigação começa "de tarde a tarde" — a mesma expressão bíblica que já explicou, na abertura do capítulo, por que "hoje" termina ao escurecer.

Vayikra (Levítico) 23:32
שַׁבַּת שַׁבָּתוֹן הוּא לָכֶם וְעִנִּיתֶם אֶת נַפְשֹׁתֵיכֶם, בְּתִשְׁעָה לַחֹדֶשׁ בָּעֶרֶב מֵעֶרֶב עַד עֶרֶב תִּשְׁבְּתוּ שַׁבַּתְּכֶם
Shabat completo de descanso será para vós, e afligireis vossas almas; aos nove do mês, à tarde, de tarde a tarde guardareis vosso descanso.

A Torá ordena que o jejum de Yom Kipur comece já na noite anterior, "aos nove do mês, à tarde" — de modo que a última refeição permitida, tradicionalmente farta em carne para fortalecer o corpo antes do jejum, ocorre necessariamente antes do anoitecer do dia nove, no limiar do dia dez. É precisamente esse limiar bíblico entre a última refeição permitida e o início do jejum que a mishná identifica como o verdadeiro alvo do voto: "até que seja o jejum" não aponta para o dia do jejum em si — quando comer já estaria proibido de qualquer forma pela própria mitzvá —, mas para a última oportunidade real de comer carne, na própria véspera.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica o costume de comer alho nas noites de Shabat como decreto de Ezra; Bartenura confirma que a halachá não segue nenhum dos dois, mas a regra geral já fixada anteriormente no capítulo.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 8:5 (sobre 8:6)
לֵילֵי צוֹם רוֹצֶה לוֹמַר צוֹם כִּפּוּר, וְהָיָה מִנְהָגָם לֶאֱכֹל הַשּׁוּם בְּלֵילֵי שַׁבָּתוֹת בִּתְחִלַּת הַלַּיְלָה, לְפִי שֶׁהָיָה מְסַיֵּעַ לָהֶם עַל הַתַּשְׁמִישׁ לְפִי מַאֲכָלָם וְאַרְצָם

Rambam identifica "o jejum" desta mishná especificamente com o Yom Kipur, e explica o costume do alho: segundo a alimentação e o clima daquela terra, comer alho no início da noite de sexta-feira era entendido como benéfico para a relação conjugal, e por isso Ezra instituiu esse costume precisamente ligado à noite de Shabat, quando os sábios tradicionalmente cumpriam essa mitzvá.

Bartenura · Nedarim 8:6
קוֹנָם שׁוּם שֶׁאֵינִי טוֹעֵם וְכוּ'. שֶׁעֶזְרָא תִקֵּן שֶׁיְּהוּ אוֹכְלִים שׁוּם בְּלֵילֵי שַׁבָּת מִפְּנֵי שֶׁמַּרְבֶּה הַזֶּרַע. וְאֵין הֲלָכָה לֹא כְּרַבִּי יְהוּדָה וְלֹא כְּרַבִּי יוֹסֵי בְנוֹ, אֶלָּא כִּדְאָמְרִינַן לְעֵיל בְּמַתְנִיתִין, כָּל שֶׁזְּמַנּוֹ קָבוּעַ, אָמַר עַד שֶׁיַּגִּיעַ, אָסוּר עַד שֶׁיַּגִּיעַ. עַד שֶׁיְּהֵא, אָסוּר עַד שֶׁיֵּצֵא

Bartenura confirma que Ezra instituiu comer alho nas noites de Shabat por aumentar a fertilidade, mas esclarece que a halachá final não segue nem Rabi Yehudá (carne até o jejum) nem seu filho Rabi Yossi (alho até Shabat): a decisão prática volta à regra geral já formulada anteriormente no capítulo — tudo cujo tempo é fixo, dizer "até que chegue" proíbe até chegar, e "até que seja" proíbe até sair —, tratando estes dois casos como exceções pragmáticas que não prevaleceram como norma final.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, no Talmud, explica com precisão o horário social exato visado por cada um dos dois votos desta mishná.

Rashi · רש"י
Nedarim 63b
אֶלָּא עַד לֵילֵי צוֹם. עַד אוֹתָהּ לַיְלָה שֶׁיָּצוּם לְמָחָר, וְאוֹתָהּ הַלַּיְלָה מֻתָּר לֶאֱכֹל בָּשָׂר: עַדֵי שָׁעָה שֶׁדֶּרֶךְ בְּנֵי אָדָם לֶאֱכֹל בָּשָׂר. וְרוֹצֶה לֶאֱכֹל עִמָּהֶן: עַד לֵילֵי שַׁבָּת. וּבְלֵילֵי שַׁבָּת

Rashi precisa o momento exato: "até a noite do jejum" refere-se à própria noite que antecede o dia em que se jejuará, e é justamente nessa noite — não além dela — que a carne permanece permitida, pois é quando as pessoas comuns costumam comer carne e o nazireu deseja participar dessa refeição social junto com elas. O mesmo padrão de leitura pragmática se aplica ao alho, cujo horário costumeiro é a própria noite de sexta-feira que abre o Shabat.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 8:5 (sobre 8:6)
לֵילֵי צוֹם רוֹצֶה לוֹמַר צוֹם כִּפּוּר, וְהָיָה מִנְהָגָם לֶאֱכֹל הַשּׁוּם בְּלֵילֵי שַׁבָּתוֹת

Rambam situa o costume do alho dentro de um contexto social e alimentar mais amplo — o clima e a dieta daquela terra tornavam o alho especialmente associado ao vigor conjugal —, reforçando por que Rabi Yossi bar Yehudá lê o voto sobre o alho pelo mesmo padrão pragmático que seu pai aplicou à carne do jejum.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 8:6
לֵילֵי הַצּוֹם. לֵיל צוֹם כִּפּוּר, שֶׁמִּצְוָה לְהַרְבּוֹת בִּסְעוּדָה בְּעֶרֶב צוֹם כִּפּוּר

Bartenura acrescenta que há inclusive uma mitzvá específica de fartar-se em refeição na véspera de Yom Kipur — reforçando ainda mais por que "até que seja o jejum" só poderia mesmo apontar para essa refeição da véspera, precisamente o momento em que comer carne se torna, além de costume social, uma obrigação religiosa própria daquele dia.