Disse: "Konam, a carne que eu não provo até que seja o jejum" — não fica proibido senão até a noite do jejum, pois ele não teve em mente senão até a hora em que as pessoas costumam comer carne. Rabi Yossi seu filho diz: "Konam, o alho que eu não provo até que seja Shabat" — não fica proibido senão até a noite de Shabat, pois ele não teve em mente senão até a hora em que as pessoas costumam comer alho. — Assim como Rabi Yehudá, na mishná anterior, leu o voto do vinho de Pessach pelo costume social e não pela letra da festa inteira, esta mishná aplica exatamente o mesmo raciocínio a dois outros casos concretos. Quem veda a carne "até que seja o jejum" — referindo-se a Yom Kipur — não pretende se abster além da última refeição costumeira antes do jejum começar, que por tradição é farta em carne; por isso a proibição cessa já na própria noite anterior ao jejum, e não se estende pelo dia do jejum inteiro (quando de qualquer forma comer estaria proibido pela própria mitzvá do jejum). Rabi Yossi bar Yehudá aplica o mesmo raciocínio ao alho: por decreto de Ezra, era costume comer alho nas noites de sexta-feira, ligado à sexualidade conjugal recomendada para essa noite; por isso quem veda o alho "até que seja Shabat" só pretende se abster até a própria noite de sexta-feira, quando esse costume específico ocorre.
O jejum mencionado nesta mishná é o próprio mandamento de afligir a alma no dia dez de Tishrei, cuja obrigação começa "de tarde a tarde" — a mesma expressão bíblica que já explicou, na abertura do capítulo, por que "hoje" termina ao escurecer.
A Torá ordena que o jejum de Yom Kipur comece já na noite anterior, "aos nove do mês, à tarde" — de modo que a última refeição permitida, tradicionalmente farta em carne para fortalecer o corpo antes do jejum, ocorre necessariamente antes do anoitecer do dia nove, no limiar do dia dez. É precisamente esse limiar bíblico entre a última refeição permitida e o início do jejum que a mishná identifica como o verdadeiro alvo do voto: "até que seja o jejum" não aponta para o dia do jejum em si — quando comer já estaria proibido de qualquer forma pela própria mitzvá —, mas para a última oportunidade real de comer carne, na própria véspera.
Rambam, no Perush HaMishná, explica o costume de comer alho nas noites de Shabat como decreto de Ezra; Bartenura confirma que a halachá não segue nenhum dos dois, mas a regra geral já fixada anteriormente no capítulo.
Rambam identifica "o jejum" desta mishná especificamente com o Yom Kipur, e explica o costume do alho: segundo a alimentação e o clima daquela terra, comer alho no início da noite de sexta-feira era entendido como benéfico para a relação conjugal, e por isso Ezra instituiu esse costume precisamente ligado à noite de Shabat, quando os sábios tradicionalmente cumpriam essa mitzvá.
Bartenura confirma que Ezra instituiu comer alho nas noites de Shabat por aumentar a fertilidade, mas esclarece que a halachá final não segue nem Rabi Yehudá (carne até o jejum) nem seu filho Rabi Yossi (alho até Shabat): a decisão prática volta à regra geral já formulada anteriormente no capítulo — tudo cujo tempo é fixo, dizer "até que chegue" proíbe até chegar, e "até que seja" proíbe até sair —, tratando estes dois casos como exceções pragmáticas que não prevaleceram como norma final.
Rashi, no Talmud, explica com precisão o horário social exato visado por cada um dos dois votos desta mishná.
Rashi precisa o momento exato: "até a noite do jejum" refere-se à própria noite que antecede o dia em que se jejuará, e é justamente nessa noite — não além dela — que a carne permanece permitida, pois é quando as pessoas comuns costumam comer carne e o nazireu deseja participar dessa refeição social junto com elas. O mesmo padrão de leitura pragmática se aplica ao alho, cujo horário costumeiro é a própria noite de sexta-feira que abre o Shabat.
Rambam situa o costume do alho dentro de um contexto social e alimentar mais amplo — o clima e a dieta daquela terra tornavam o alho especialmente associado ao vigor conjugal —, reforçando por que Rabi Yossi bar Yehudá lê o voto sobre o alho pelo mesmo padrão pragmático que seu pai aplicou à carne do jejum.
Bartenura acrescenta que há inclusive uma mitzvá específica de fartar-se em refeição na véspera de Yom Kipur — reforçando ainda mais por que "até que seja o jejum" só poderia mesmo apontar para essa refeição da véspera, precisamente o momento em que comer carne se torna, além de costume social, uma obrigação religiosa própria daquele dia.