Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Chet · Mishná 7 de 7

Encerrando o Perek Chet: "isto é minha honra"

הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ קוֹנָם שֶׁאֲנִי נֶהֱנֶה לְךָ אִם אֵין אַתָּה בָא וְנוֹטֵל לְבָנֶיךָ כּוֹר אֶחָד שֶׁל חִטִּין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Chet, a mishná deixa o tema do tempo dos votos e retoma, com quatro casos concretos, o princípio de que a intenção real por trás das palavras — não sua letra estrita — determina o alcance do voto: presentes insistidos, casamentos recusados, divórcios e convites a jantar.

Quem diz a seu amigo, "Konam, que eu me beneficie de ti, se não vieres e tomares para teus filhos um cor de trigo e dois barris de vinho" — pode anular seu voto sem um sábio, e dizer-lhe: "Acaso disseste isso senão por minha honra? Isto é minha honra." E da mesma forma, quem diz a seu amigo, "Konam, que te beneficies de mim, se não vieres e deres a meu filho um cor de trigo e dois barris de vinho" — Rabi Meir diz: fica proibido até que dê. E os sábios dizem: também este pode anular seu voto sem um sábio, e dizer-lhe: "Eis que é como se eu já tivesse recebido." Estavam pressionando-o a casar com a filha de sua irmã, e ele disse, "Konam, que ela se beneficie de mim para sempre" — e da mesma forma quem expulsa sua esposa e diz, "Konam, minha esposa se beneficia de mim para sempre" — estas ficam permitidas a se beneficiar dele, pois ele não teve em mente senão o sentido de matrimônio. Estava pressionando seu amigo a comer em sua casa, e disse, "Konam, à tua casa que eu não entro", "gota de água fria que eu não provo de ti" — é permitido entrar em sua casa e beber dele água fria, pois ele não teve em mente senão o sentido de comer e beber.Os dois primeiros casos são espelhados: alguém insiste tanto em dar um presente generoso a um amigo relutante que acaba fazendo um voto vedando seu próprio proveito caso o amigo recuse — mas todos entendem que a verdadeira intenção por trás da insistência era apenas preservar sua própria honra ao ser recusado, e uma vez que o amigo reconheça verbalmente essa honra, o voto se resolve, mesmo sem a intervenção formal de um sábio. Rabi Meir discorda apenas quando a fórmula é invertida — o amigo vedando seu próprio proveito ao doador —, mas os sábios mantêm a mesma lógica pragmática. Os dois casos finais tratam de vedações "para sempre" ditas em momentos de fricção emocional — a pressão para um casamento indesejado, ou a raiva de um divórcio — e a mishná ensina que essas palavras extremas, ditas sob pressão social ou emocional, nunca pretendem vedar todo tipo de proveito, apenas o proveito específico do contexto que gerou a fala: o vínculo conjugal, ou a refeição compartilhada.

הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ קוֹנָם שֶׁאֲנִי נֶהֱנֶה לְךָ אִם אֵין אַתָּה בָא וְנוֹטֵל לְבָנֶיךָ כּוֹר אֶחָד שֶׁל חִטִּין וּשְׁתֵּי חָבִיּוֹת שֶׁל יַיִן, הֲרֵי זֶה יָכוֹל לְהָפֵר אֶת נִדְרוֹ שֶׁלֹּא עַל פִּי חָכָם, וְיֹאמַר לוֹ, כְּלוּם אָמַרְתָּ אֶלָּא מִפְּנֵי כְבוֹדִי, זֶהוּ כְבוֹדִי. וְכֵן הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ קוֹנָם שֶׁאַתָּה נֶהֱנֶה לִי אִם אֵין אַתָּה בָא וְנוֹתֵן לִבְנִי כּוֹר אֶחָד שֶׁל חִטִּין וּשְׁתֵּי חָבִיּוֹת שֶׁל יַיִן, רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, אָסוּר עַד שֶׁיִּתֵּן. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אַף זֶה יָכוֹל לְהָפֵר אֶת נִדְרוֹ שֶׁלֹּא עַל פִּי חָכָם, וְיֹאמַר לוֹ, הֲרֵי אֲנִי כְאִלּוּ הִתְקַבָּלְתִּי. הָיוּ מְסָרְבִין בּוֹ לָשֵׂאת בַּת אֲחוֹתוֹ וְאָמַר קוֹנָם שֶׁהִיא נֶהֱנֵית לִי לְעוֹלָם, וְכֵן הַמְגָרֵשׁ אֶת אִשְׁתּוֹ וְאָמַר קוֹנָם אִשְׁתִּי נֶהֱנֵית לִי לְעוֹלָם, הֲרֵי אֵלּוּ מֻתָּרוֹת לֵהָנוֹת לוֹ, שֶׁלֹּא נִתְכַּוֵּן זֶה אֶלָּא לְשׁוּם אִישׁוּת. הָיָה מְסָרֵב בַּחֲבֵרוֹ שֶׁיֹּאכַל אֶצְלוֹ, אָמַר קוֹנָם לְבֵיתְךָ שֶׁאֵינִי נִכְנָס, טִפַּת צוֹנֵן שֶׁאֵינִי טוֹעֵם לָךְ, מֻתָּר לִכָּנֵס לְבֵיתוֹ וְלִשְׁתּוֹת מִמֶּנּוּ צוֹנֵן, שֶׁלֹּא נִתְכַּוֵּן זֶה אֶלָּא לְשׁוּם אֲכִילָה וּשְׁתִיָּה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O caso do tio que pressiona o sobrinho a casar com a filha de sua irmã ecoa diretamente a exortação profética de não se esconder da própria carne — o parente próximo —, citada pelos próprios sábios como o fundamento moral dessa pressão social.

Yeshayahu (Isaías) 58:7
הֲלוֹא פָרֹס לָרָעֵב לַחְמֶךָ, וַעֲנִיִּים מְרוּדִים תָּבִיא בָיִת, כִּי תִרְאֶה עָרֹם וְכִסִּיתוֹ, וּמִבְּשָׂרְךָ לֹא תִתְעַלָּם
Acaso não é partir teu pão ao faminto, e trazer para casa os pobres desabrigados? Quando vires o nu, cobri-lo, e de tua própria carne não te esconderes.

A expressão "ומבשרך לא תתעלם" — de tua própria carne não te esconderes — é lida pela tradição talmúdica (Yevamot 62b) como referindo-se especificamente ao dever de não desprezar o parente próximo, e é citada como o fundamento pelo qual era costume pressionar um homem a casar com a filha de sua irmã, sua "própria carne" no sentido familiar mais direto. É exatamente esse pano de fundo de pressão social bem-intencionada — e não de hostilidade real — que a mishná usa para explicar por que um voto de vedação "para sempre", pronunciado em meio a essa pressão, nunca pretendeu realmente vedar todo tipo de proveito conjugal, mas apenas expressar, num momento de fricção, uma recusa que a própria linguagem íntima do voto acaba por revelar limitada.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica por que era mitzvá especial casar com a filha da irmã, e por que a halachá não segue Rabi Meir no segundo caso.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 8:7
מְסָרְבִין. מַפְצִירִים. וְאָמְרוּ בַּת אֲחוֹתוֹ, לְפִי שֶׁהוּא נָהוּג, וְעוֹד שֶׁהִיא מִצְוָה, וְחַיָּב אָדָם לְהִשְׁתַּדֵּל בָּזֶה, וְאָמַר "וּמִבְּשָׂרְךָ לֹא תִתְעַלָּם", זֶה הַנּוֹשֵׂא בַּת אֲחוֹתוֹ. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר

Rambam explica que "mesarvin" significa "insistem, pressionam", e que casar com a filha da própria irmã era não apenas costume social comum, mas considerado por muitos uma mitzvá especial de cuidado familiar — fundamentada precisamente no versículo de Yeshayahu sobre não se esconder da própria carne. Rambam registra também que a halachá não segue Rabi Meir no segundo caso do presente insistido: mesmo ali, o voto pode ser anulado pelo próprio interessado sem sábio, seguindo a posição dos sábios.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica cada um dos quatro casos da mishná; Bartenura completa com o fundamento de cada resolução, encerrando o Perek Chet com o mesmo princípio pragmático que já havia orientado as chuvas, o jejum e o alho.

Rashi · רש"י
Nedarim 63b
זֶהוּ כְבוֹדִי. שֶׁלֹּא אֶטּוֹל מִמְּךָ: וַיֹּאמַר לוֹ. הַמַּדִּיר, הֲרֵינִי כְּאִלּוּ נִתְקַבַּלְתִּי מַה שֶּׁבִּקַּשְׁתִּי מִמְּךָ: הֲרֵי אֵלּוּ מֻתָּרוֹת לֵהָנוֹת מִמֶּנּוּ. שְׁאָר הֲנָאָה: אֶלָּא לְשׁוּם אִישׁוּת. שֶׁנָּדַר שֶׁלֹּא תֵהָנֶה מִמֶּנּוּ דֶּרֶךְ אִישׁוּת: שֶׁלֹּא נִתְכַּוֵּן זֶה. הַמְסָרֵב בּוֹ אֶלָּא לַאֲכִילָה וּשְׁתִיָּה הַמְרֻבָּה

Rashi explica que "isto é minha honra" significa que o amigo generoso nunca pretendeu de fato lucrar às custas do outro, apenas evitar a humilhação de ver seu presente recusado. No caso invertido, o doador pode declarar ao devedor original "é como se eu já tivesse recebido" — uma ficção legal que resolve o voto sem exigir a entrega física do trigo e vinho. Sobre o casamento e o divórcio, Rashi esclarece que "estas ficam permitidas a se beneficiar dele" refere-se especificamente a outros tipos de proveito, além do vínculo conjugal — pois o voto, dito em momento de tensão sobre o casamento, só teve em mente vedar esse vínculo específico. E no caso final, quem pressiona o amigo a jantar em sua casa e depois se arrepende com um voto exagerado só tinha em mente a refeição farta em si, não qualquer contato mínimo com a casa ou com água fria.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 8:7
הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ קוֹנָם שֶׁאֲנִי נֶהֱנֶה לְךָ אִם אֵין כוּ': מְסָרְבִין מַפְצִירִים, וְאָמְרוּ בַּת אֲחוֹתוֹ לְפִי שֶׁהוּא נָהוּג, וְעוֹד שֶׁהִיא מִצְוָה וְחַיָּב אָדָם לְהִשְׁתַּדֵּל בָּזֶה, וְאָמַר וּמִבְּשָׂרְךָ לֹא תִתְעַלָּם זֶה הַנּוֹשֵׂא בַּת אֲחוֹתוֹ, וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר

Rambam encerra seu comentário ao Perek Chet reunindo os quatro casos sob o mesmo fio condutor talmúdico já visto ao longo de todo o capítulo: a linguagem do voto, por mais absoluta que soe em suas palavras — "para sempre", "konam que eu não entro" —, é sempre lida à luz da intenção real que motivou a fala, seja ela a hora social do costume, seja a fricção emocional de um momento específico.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 8:7
זֶהוּ כְבוֹדִי. שֶׁאֲפַרְנֵס בָּנַי מִשֶּׁלִּי: הָיוּ מְסָרְבִין בּוֹ לָשֵׂאת אֶת בַּת אֲחוֹתוֹ. מַפְצִירִין בּוֹ שֶׁיִּשָּׂא אֶת בַּת אֲחוֹתוֹ מִפְּנֵי שֶׁהִיא בַּת גִּילוֹ, וְאָמְרִינַן הַנּוֹשֵׂא אֶת בַּת אֲחוֹתוֹ עָלָיו הַכָּתוּב אוֹמֵר וּמִבְּשָׂרְךָ לֹא תִתְעַלָּם אָז תִּקְרָא וַה' יַעֲנֶה: שֶׁלֹּא נִתְכַּוֵּן זֶה אֶלָּא לְשֵׁם אֲכִילָה וּשְׁתִיָּה. וּמִיהוּ גַּם בַּאֲכִילָה וּשְׁתִיָּה מֻתָּר, הוֹאִיל וְלֹא הוֹצִיא מִפִּיו אֲכִילָה וּשְׁתִיָּה, דְּבִנְדָרִים בָּעִינַן שֶׁיּוֹצִיא בִּשְׂפָתָיו

Bartenura explica que "isto é minha honra" significa que o amigo diz claramente ter insistido apenas para sustentar os filhos do outro com seus próprios recursos, sem intenção de lucro pessoal. Sobre a pressão do casamento com a sobrinha, Bartenura cita a mesma passagem de Yevamot ligando o versículo de Yeshayahu a essa prática, associada à promessa "então clamarás, e o Eterno responderá". E no caso final, Bartenura acrescenta um detalhe técnico crucial: mesmo quanto à comida e à bebida em si — não apenas à água fria —, o voto acaba sendo permitido, porque a formulação exata que saiu da boca do nazireu nunca mencionou explicitamente "comida" ou "bebida", e em matéria de votos exige-se que a proibição seja expressa literalmente pelos lábios, conforme o versículo "conforme tudo o que sair de sua boca fará" — encerrando assim o Perek Chet com o mesmo rigor textual que abriu o capítulo, exigindo que cada palavra do voto seja lida com precisão exata.