E ainda disse Rabi Eliezer: abre-se com o nascido. E os sábios proíbem. Como assim? Disse, "Konam, que eu não me beneficie de fulano", e este se tornou escriba, ou estava prestes a casar seu filho — e disse, "Se eu soubesse que ele se tornaria escriba, ou que casaria seu filho em breve, eu não teria feito o voto." "Konam, a esta casa que eu não entro", e ela se tornou sinagoga — e disse, "Se eu soubesse que ela se tornaria sinagoga, eu não teria feito o voto" — Rabi Eliezer permite, e os sábios proíbem. — Diferente da abertura comum, que revela um arrependimento sobre algo já verdadeiro no momento do voto, o nolad é uma circunstância totalmente nova, que só passou a existir depois. Rabi Eliezer aceita esse tipo de abertura: se o amigo vedado se tornou alguém de quem seria uma perda social evitar, ou se a casa vedada se tornou sinagoga, o votante pode alegar que jamais teria jurado sabendo disso. Os sábios recusam, porque entendem que uma alegação sobre o futuro não é um arrependimento retroativo genuíno sobre o momento exato em que o voto foi feito.
A disputa sobre o "nolad" toca a raiz do próprio poder vinculante do voto: uma vez pronunciada, a palavra do votante deve se cumprir exatamente como saiu de sua boca, independentemente do que vier a acontecer depois.
"Conforme tudo o que sair de sua boca, fará" é a base pela qual os sábios recusam abrir o voto por algo nascido depois: a palavra do votante já se cumpriu integralmente no instante em que saiu de sua boca, vinculando-o a tudo o que ali estava contido — e nenhuma novidade futura pode reescrever retroativamente o que já foi dito. Rabi Eliezer não nega esse princípio, mas entende que, quando o próprio votante declara que essa novidade específica teria mudado sua decisão original, isso ainda conta como revelar uma intenção que já estava implícita no momento do voto — apenas os sábios discordam dessa leitura.
Rambam, no Perush HaMishná, explica a lógica de fundo da disputa entre Rabi Eliezer e os sábios sobre o nolad, e a halachá segue os sábios.
Rambam explica que Rabi Eliezer permite a anulação após a consulta ao sábio mesmo quando o votante não está exatamente arrependido, mas foi levado a essa posição pelo simples reconhecimento de que a situação mudou; os sábios exigem que o arrependimento recaia sobre o próprio conteúdo original do voto, não sobre um fato posterior. Rambam conclui explicitamente que a halachá segue os sábios: o "nolad" não serve como abertura válida.
Rashi explica os dois casos concretos — o amigo que virou escriba e a casa que virou sinagoga; Rambam e Bartenura completam com a distinção conceitual entre nolad e arrependimento comum.
Rashi define o "nolad" como algo que não existia no mundo no momento do voto e só veio a existir depois. Sobre "tornou-se escriba", Rashi registra duas leituras: um erudito de quem todos passam a precisar, ou um escrivão profissional necessário para documentos. Sobre a casa que se tornou sinagoga, Rashi enfatiza que este é o exemplo mais puro de "nolad": nada na casa mudou fisicamente, apenas sua função comunitária — e mesmo assim Rabi Eliezer aceita essa mudança de circunstância como abertura válida, enquanto os sábios a recusam por completo.
Rambam explica que, para Rabi Eliezer, o requisito de arrependimento se cumpre mesmo quando o votante apenas reconhece que a mudança de circunstância teria alterado sua intenção original — não é necessário que ele já estivesse arrependido antes de saber da mudança. Para os sábios, esse reconhecimento posterior não substitui o arrependimento genuíno sobre o próprio conteúdo do voto, e por isso a halachá não aceita o nolad como abertura.
Bartenura esclarece o mecanismo técnico da anulação: o arrependimento desarraiga o voto retroativamente, como se ele nunca tivesse existido — mas essa desarraigamento só é possível quando o motivo do arrependimento já estava presente, ainda que oculto, no momento do voto. Como algo que "não existia" não pode ter motivado uma decisão passada, os sábios recusam que sua superveniência desfaça o voto, e Bartenura confirma que a halachá segue os sábios neste ponto.