Seder Tehorot · Massechet Negaim · Perek Bet · Mishná 5 de 5 — última do capítulo

Exceto as próprias pragas

חוּץ מִנִּגְעֵי עַצְמו
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Bet, a mishná reúne três âmbitos distintos — pragas, votos e primogênitos — nos quais vale o mesmo princípio: ninguém julga o próprio caso, ainda que seja perito para julgar o de qualquer outra pessoa

Toda pessoa examina pragas, exceto as próprias pragas. Rabi Meir diz: nem mesmo as pragas de seus parentes. Toda pessoa dissolve votos, exceto os próprios votos. Rabi Yehudá diz: nem mesmo os votos de sua esposa que dizem respeito somente entre ela e outros. Toda pessoa examina primogênitos, exceto os próprios primogênitos.

Esta mishná de encerramento desloca-se de questões sensoriais — luz, postura, tom de pele — para uma restrição de outra natureza: o impedimento de julgar o próprio caso, ainda que o julgador seja tecnicamente competente. O princípio se repete em três áreas do direito tanaítico que, à primeira vista, nada têm em comum: o sacerdote não certifica a própria praga, mesmo sendo apto a certificar a de qualquer outro; o sábio não dissolve seu próprio voto, mesmo sendo apto a dissolver o de qualquer outro; e o perito não examina seus próprios primogênitos para determinar se podem ser abatidos por defeito. Rabi Meir estende a restrição das pragas aos parentes próximos, comparando pragas a litígios (rivim), que também exigem juízes sem relação de parentesco com as partes; a halachá, porém, não segue Rabi Meir. Rabi Yehudá estende de modo semelhante a restrição de votos aos votos da própria esposa quando afetam terceiros, temendo que o marido julgue com leniência excessiva por interesse pessoal; mas ele pode integrar-se a um colegiado de três leigos, pois a pluralidade de juízes afasta a suspeita de parcialidade.

כָּל הַנְּגָעִים אָדָם רואֶה, חוּץ מִנִּגְעֵי עַצְמו. רַבִּי מֵאִיר אומֵר, אַף לא נִגְעֵי קְרובָיו. כָּל הַנְּדָרִים אָדָם מַתִּיר, חוּץ מִנִּדְרֵי עַצְמו. רַבִּי יְהוּדָה אומֵר, אַף לא נִדְרֵי אִשְׁתּו שֶׁבֵּינָהּ לְבֵין אֲחֵרִים. כָּל הַבְּכורות אָדָם רואֶה, חוּץ מִבְּכורות עַצְמו:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Negaim 2:5
כבר התבאר בבכורות…

Já se explicou em Bechorot (37a) que, quando surgem defeitos no primogênito, ele é comido por causa de seu defeito e não é oferecido, e ali se explicaram todas as condições disto. E a halachá não é como Rabi Yehudá, nem como Rabi Meir.

Bartenura · Negaim 2:5
רַבִּי מֵאִיר אומֵר אַף לא נִגְעֵי קְרובָיו…

Sobre “Rabi Meir diz: nem mesmo as pragas de seus parentes”: pois as pragas são equiparadas aos litígios, como está escrito (Devarim 21:5): “todo litígio e toda praga” — assim como os litígios não são julgados por parentes, também as pragas não são examinadas por parentes. E a halachá não é como Rabi Meir.

Sobre “exceto os próprios votos”: pois está escrito (Bamidbar 30:3): “não profanará sua palavra” — ele mesmo não a profana (dissolve), mas outros podem dissolvê-la para ele.

Sobre “nem mesmo os votos de sua esposa que dizem respeito somente entre ela e outros”: como votos que não são de aflição pessoal, e assuntos que não são entre ele e ela, os quais exigem investigação por um sábio — pois talvez ele seja leniente por causa de sua esposa e não investigue bem. E especificamente sozinho ele não pode dissolvê-los, mesmo sendo um perito único; mas pode integrar-se ao conjunto de três leigos, pois, havendo três, não há suspeita de que deixem de investigar bem.

Sobre “toda pessoa examina primogênitos”: se podem ser comidos por causa de seu defeito.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Negaim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste capítulo.
הֲדַרָן עֲלָךְ בַּהֶרֶת עַזָּה

Com esta quinta mishná, encerra-se o Perek Bet de Massechet Negaim — o perek que, tendo o Perek Alef já fixado o vocabulário e as tonalidades da tzaraat, volta-se para a mecânica prática do próprio exame. A mishná 1 tratou do tom de pele do examinado, mostrando como germânicos e etíopes distorcem a leitura das quatro tonalidades e reunindo quatro soluções tanaíticas para o problema. A mishná 2 fixou as janelas horárias do dia em que a luz permite um exame confiável. A mishná 3 excluiu o sacerdote de visão comprometida e proibiu criar luz artificial numa casa escura. A mishná 4 descreveu as posturas corporais exatas — sachar, colher azeitonas, amassar, amamentar, tecer — que expõem as axilas ao exame sem contá-las como lugar oculto, regra estendida também à raspagem do metzora. E esta quinta e última mishná fechou o capítulo com um princípio de outra ordem: ninguém julga o próprio caso, seja em pragas, em votos ou em primogênitos.

O estudo da Mishná prossegue agora para o Perek Guimel de Massechet Negaim, que tratará de quem pode contrair impureza de tzaraat, de quem está qualificado para examinar as pragas e de quem, entre eles, tem autoridade para pronunciar o veredicto de impuro ou puro.