Seder Tehorot · Massechet Negaim · Perek Guimel · Mishná 1 de 8

Uma praga de cada vez

אֵין רוֹאִים שְׁנֵי נְגָעִים כְּאֶחָד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Guimel, a mishná distingue quem pode contrair impureza de tzaraat, quem está apto a examinar as pragas, e reserva ao sacerdote a autoridade exclusiva de pronunciar o veredicto — fechando com a regra de nunca examinar duas pragas simultaneamente

Toda pessoa é passível de impureza pelas pragas, exceto os gentios e o converso residente. Toda pessoa é apta para examinar as pragas, mas a declaração de impuro e de puro está nas mãos do sacerdote. Dizem-lhe: diga “impuro”, e ele diz “impuro”; diga “puro”, e ele diz “puro”. Não se examinam duas pragas como uma só, seja em um único homem, seja em dois homens; mas examina uma, e a enclausura, ou a certifica impura, ou a declara pura, e volta à segunda. Não se enclausura o já enclausurado, nem se certifica impuro o já certificado impuro. Não se enclausura o já certificado impuro, nem se certifica impuro o já enclausurado. Mas no início, ou ao fim de uma semana, quem enclausura enclausura, e quem certifica certifica; enclausura e declara puro, certifica e declara puro.

Encerrado o Perek Bet com a mecânica do exame — luz, postura, tom de pele —, o Perek Guimel abre delimitando o próprio campo de aplicação da lei: quem, entre os seres humanos, é passível de contrair impureza por tzaraat. Gentios estão fora do sistema porque a Torá dirige a lei a “um homem” entendido no contexto da aliança, e o converso residente — que aceitou as sete leis noaícas mas não se converteu plenamente — permanece igualmente fora. Em seguida, a mishná separa dois papéis que facilmente se confundem: qualquer pessoa com conhecimento técnico pode examinar visualmente uma praga e determinar, segundo os sinais, o que ela é; mas somente o sacerdote tem autoridade para pronunciar a palavra que produz o efeito jurídico — a declaração formal de impuro ou puro, que só ele pode proferir, ainda que apenas repita o que um sábio leigo lhe dita. A mishná fecha com uma regra processual: o sacerdote nunca examina duas pragas ao mesmo tempo, pois o exame simultâneo comprometeria a precisão do julgamento; e uma vez que uma praga já foi enclausurada ou certificada impura, ela não pode ser reclassificada dentro do mesmo período de observação — exceto nos pontos de virada fixados pela lei: o início do exame e o fim de cada semana de clausura.

הַכֹּל מִטַּמְּאִין בַּנְּגָעִים, חוּץ מִן הַנָּכְרִים וְגֵר תּוֹשָׁב. הַכֹּל כְּשֵׁרִים לִרְאוֹת אֶת הַנְּגָעִים, אֶלָּא שֶׁהַטֻּמְאָה וְהַטָּהֳרָה בִידֵי כֹהֵן. אוֹמְרִים לוֹ אֱמֹר טָמֵא, וְהוּא אוֹמֵר טָמֵא. אֱמֹר טָהוֹר, וְהוּא אוֹמֵר טָהוֹר. אֵין רוֹאִים שְׁנֵי נְגָעִים כְּאֶחָד, בֵּין בְּאִישׁ אֶחָד וּבֵין בִּשְׁנֵי אֲנָשִׁים, אֶלָּא רוֹאֶה אֶת הָאֶחָד וּמַסְגִּירוֹ וּמַחְלִיטוֹ וּפוֹטְרוֹ, וְחוֹזֵר לַשֵּׁנִי. אֵין מַסְגִּירִין אֶת הַמֻּסְגָּר וְלֹא מַחְלִיטִין אֶת הַמֻּחְלָט. אֵין מַסְגִּירִין אֶת הַמֻּחְלָט, וְלֹא מַחְלִיטִין אֶת הַמֻּסְגָּר. אֲבָל בַּתְּחִלָּה, בְּסוֹף שָׁבוּעַ, הַמַּסְגִּיר מַסְגִּיר, וְהַמַּחְלִיט מַחְלִיט, מַסְגִּיר וּפוֹטֵר, מַחְלִיט וּפוֹטֵר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Negaim 3:1
הכל. ואפי’ עבדים ואפי’ קטן בן יומו מיטמא בנגעים…

Sobre “toda pessoa”: inclusive escravos, e inclusive um recém-nascido de um dia, tornam-se impuros pelas pragas. E encontrarás a linguagem da Torá, em todas as pragas: “e o sacerdote o enclausurará”, “o sacerdote o certificará impuro”, “o sacerdote o declarará puro” — ali a decisão do enclausuramento, da certificação e da isenção está entregue ao sacerdote. E saiba que o sacerdote profanado (chalal) é desqualificado para examinar as pragas, pois está dito “ou a um de seus filhos, os sacerdotes”, e é sabido que os filhos de Aarão são sacerdotes; quis dizer, porém, que estejam em seu sacerdócio, para excluir os profanados. E disse “e o sacerdote a verá”, indicando que não examinará senão uma única praga; e depois de examiná-la e julgá-la conforme o que julgar, voltará a examinar outra praga. E do mesmo modo, se havia duas pragas em um só homem, não as examinará juntas, pois está dito, bendito seja Ele: “e o sacerdote verá a praga”.

Sobre “no início e ao fim da semana”: o sentido é que todas essas decisões só são válidas no início — quando a pessoa é trazida perante o sacerdote, que então a isenta, a enclausura ou a certifica impura —, ou ao fim da semana, seja ao fim da primeira semana, seja ao fim da segunda, se for alguém sujeito a um segundo enclausuramento. Mas enclausurar, certificar ou isentar antes de completada a semana, ou depois dela, não há para isso fundamento, pois o versículo determinou que o exame se dê apenas no início do processo ou ao fim das semanas.

Sobre “não se enclausura o já certificado impuro”: quer dizer que, quando surge nele uma nova praga que mereceria enclausuramento durante os dias de sua certificação, não o enclausuram — pois isto é proibido, como está dito: “não o enclausurará, pois é impuro”. E do mesmo modo, não se certifica impuro durante os dias do enclausuramento: quando surge nele outra praga que também mereceria certificação, não certifica o que mereceria certificar durante os dias do enclausuramento, nem enclausura durante os dias do enclausuramento por outra praga. E já se explicou em meu Sifrê que, poder-se-ia dizer que, no mesmo momento — seja no início, seja ao fim da semana —, “eis que estás enclausurado por esta e certificado impuro por aquela”, ou “certificado impuro por esta e enclausurado por aquela”; ou, depois que se manifestou um dos dois julgamentos tal como convém a uma praga, não voltará a julgá-la conforme convém à segunda praga enquanto estiver dentro do enclausuramento da primeira praga ou dentro de sua certificação.

Sobre “enclausura e declara puro”: o sentido é que, no início ou ao fim da semana, dir-lhe-á: “eis que estás enclausurado por esta praga e isento por aquela”; e assim também lhe dirá: “eis que estás certificado impuro por esta praga e isento por aquela”. E já se explicou na Tosefta que o sacerdote que examinou a praga no início do processo é o mesmo que a examinará ao fim da primeira semana e ao fim da segunda semana, e é ele mesmo quem enclausurará, certificará ou isentará; e se o primeiro sacerdote morreu, examina-o um segundo sacerdote. E quando o sacerdote examinou a praga e a enclausurou, e depois morreu, a regra do alastramento já foi então removida, pois o alastramento se conhece por comparação com o que veio antes. E já antecipamos que só examina as pragas quem está habituado a todos os seus tipos, como explicaram na Tosefta, ao dizerem “até que seja perito nelas e em seus nomes”; e na Sifra, para ensinar “no dia do impuro etc.”, disseram: isso ensina que ele não examina as pragas até que seu mestre o instrua.

Bartenura · Negaim 3:1
הַכֹּל מִטַּמְּאִין. וַאֲפִלּוּ קָטָן…

Sobre “toda pessoa torna-se impura”: inclusive um menor. Pois poder-se-ia pensar que está escrito “um homem terá tzaraat”, o texto nos ensina “adam”, termo que inclui também a criança — pois está escrito “quando houver na pele da carne dele”.

Sobre “toda pessoa é apta para examinar as pragas”: mesmo que não seja perita nelas e em seus nomes, se um sábio estiver com ela, pode examinar; mas sozinha, se não for perita nelas e em seus nomes, não examina as pragas.

Sobre “mas a declaração de impuro e de puro está nas mãos do sacerdote”: um sábio de Israel examina as pragas e diz ao sacerdote — ainda que este seja tolo —: diga “impuro”, diga “puro”.

Sobre “seja em um único homem, seja em dois homens”: quando nascem duas pragas em um único homem, ou em dois homens, o sacerdote não as examina de uma só vez, pois o sacerdote não pode examinar bem duas pragas ao mesmo tempo.

Sobre “e a enclausura”: se é passível de enclausuramento, como por meio das quatro aparências.

Sobre “e a certifica impura”: se é digna de certificação, como por meio de pelo branco ou carne viva.

Sobre “e a declara pura”: se está abaixo das quatro aparências.

Sobre “e volta à segunda”: visto que a segunda nasceu antes de ele enclausurar ou certificar impura a primeira.

Sobre “não se enclausura o já enclausurado”: e do mesmo modo também não se certifica impuro o já enclausurado. Pois, se o enclausurou por uma praga e depois lhe nasceu outra praga digna de enclausuramento ou de certificação, não se ocupa dela; e enquanto se cura da primeira, a segunda praga não tem sobre si nem a condição de enclausurada nem a de certificada, até que ele se ocupe dela.

Sobre “mas no início, ao fim da semana, enclausura e enclausura”: se no início da semana nasceu a segunda antes de ele enclausurar a primeira, enclausura a primeira e enclausura a segunda. E do mesmo modo, ao fim da primeira semana, se a primeira permaneceu como estava, enclausura-a e volta a enclausurar a segunda.

Sobre “certifica e certifica”: certifica impura a primeira e volta a certificar impura a segunda.

Sobre “enclausura e declara pura”: enclausura a primeira e declara pura a segunda.

Sobre “certifica e declara pura”: certifica impura a primeira e declara pura a segunda. E o mesmo vale ao contrário: enclausura e certifica, ou certifica e enclausura, declara pura e enclausura, declara pura e certifica.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Negaim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste capítulo.