Seder Moed · Massechet Rosh Hashaná · Perek Bet · Mishná 8 de 9

As figuras da lua de Rabán Gamliel

דְּמוּת צוּרוֹת לְבָנוֹת הָיוּ לוֹ לְרַבָּן גַּמְלִיאֵל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná narra dois episódios concretos que ilustram os limites e riscos do sistema de testemunho: a ferramenta visual que Rabán Gamliel usava para ajudar testemunhas leigas a descrever o que viram, e dois casos de testemunhos duvidosos que ele aceitou apesar da objeção de outros sábios.

Rabán Gamliel tinha figuras das formas da lua numa tábua, na parede de seu sótão, com as quais mostrava aos leigos e dizia: Foi assim que viste, ou assim?Para ajudar testemunhas sem vocabulário técnico a descrever com precisão o que haviam observado, Rabán Gamliel mantinha diagramas ilustrando as diferentes formas possíveis da lua nova, e as apresentava às testemunhas, perguntando-lhes qual delas correspondia ao que tinham visto.

Aconteceu que vieram dois e disseram: Vimo-la de manhã no oriente e à tarde no ocidente. Disse Rabi Yochanan ben Nuri: São testemunhas falsas. Quando vieram a Iavne, Rabán Gamliel os aceitou.Duas testemunhas relataram ter visto a lua minguante pela manhã a leste e, no mesmo dia, a lua nova ao entardecer a oeste — relato que Rabi Yochanan ben Nuri considerou astronomicamente impossível e por isso rejeitou como falso; ainda assim, quando os mesmos homens se apresentaram em Iavne, Rabán Gamliel os aceitou como testemunhas válidas.

E ainda vieram dois e disseram: Vimo-la em seu tempo, mas na noite de seu acréscimo não foi vista; e Rabán Gamliel os aceitou.Em outro caso, duas testemunhas relataram ter visto a lua nova no trigésimo dia, mas não na noite seguinte — um relato igualmente questionado, mas que Rabán Gamliel novamente aceitou.

Disse Rabi Dosa ben Harkinas: São testemunhas falsas; como testemunham sobre a mulher que deu à luz, e no dia seguinte seu ventre está entre seus dentes?Rabi Dosa ben Harkinas contesta esse segundo caso com uma analogia contundente: assim como é absurdo que uma mulher, tendo já dado à luz, ainda pareça grávida no dia seguinte, é igualmente absurdo que a lua, já claramente visível e "nascida" no trigésimo dia, "regrida" e deixe de ser vista na noite imediatamente seguinte.

Disse-lhe Rabi Yehoshua: Vejo teus argumentos.Rabi Yehoshua reconhece, diante desse argumento, a força lógica da objeção de Rabi Dosa — reconhecimento que se tornará o ponto de partida do confronto narrado na mishná seguinte.

דְּמוּת צוּרוֹת לְבָנוֹת הָיוּ לוֹ לְרַבָּן גַּמְלִיאֵל בַּטַּבְלָא וּבַכֹּתֶל בַּעֲלִיָּתוֹ, שֶׁבָּהֶן מַרְאֶה אֶת הַהֶדְיוֹטוֹת וְאוֹמֵר, הֲכָזֶה רָאִיתָ אוֹ כָזֶה. מַעֲשֶׂה שֶׁבָּאוּ שְׁנַיִם וְאָמְרוּ, רְאִינוּהוּ שַׁחֲרִית בַּמִּזְרָח וְעַרְבִית בַּמַּעֲרָב. אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי, עֵדֵי שֶׁקֶר הֵם. כְּשֶׁבָּאוּ לְיַבְנֶה קִבְּלָן רַבָּן גַּמְלִיאֵל. וְעוֹד בָּאוּ שְׁנַיִם וְאָמְרוּ, רְאִינוּהוּ בִזְמַנּוֹ, וּבְלֵיל עִבּוּרוֹ לֹא נִרְאָה, וְקִבְּלָן רַבָּן גַּמְלִיאֵל. אָמַר רַבִּי דוֹסָא בֶּן הַרְכִּינָס, עֵדֵי שֶׁקֶר הֵן, הֵיאָךְ מְעִידִין עַל הָאִשָּׁה שֶׁיָּלְדָה, וּלְמָחָר כְּרֵסָהּ בֵּין שִׁנֶּיהָ. אָמַר לוֹ רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, רוֹאֶה אֲנִי אֶת דְּבָרֶיךָ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Tehilim 104:19
עָשָׂה יָרֵחַ לְמוֹעֲדִים, שֶׁמֶשׁ יָדַע מְבוֹאוֹ.
Fez a lua para os tempos determinados; o sol conhece seu ocaso.

O salmista descreve a lua como um instrumento criado especificamente para marcar os tempos — e essa mesma regularidade previsível é o que torna possível, e ao mesmo tempo perigoso, o sistema de testemunho ocular que esta mishná examina. Porque a lua "foi feita para os tempos determinados", seu comportamento segue leis fixas e calculáveis: os sábios sabiam de antemão, por cálculo, quando ela poderia ou não ser vista, e por isso podiam avaliar a plausibilidade de cada relato de testemunha. É exatamente esse conhecimento prévio que permite a Rabi Yochanan ben Nuri e a Rabi Dosa ben Harkinas declarar certos testemunhos como impossíveis — não por desconfiança pessoal das testemunhas, mas porque o relato contradiz a ordem regular que o próprio salmo celebra. E é também esse conhecimento que Rabán Gamliel evoca, na Guemará, ao responder que a jornada da lua "às vezes vem por caminho longo, às vezes por caminho curto" — reconhecendo variações dentro da regularidade, mas sem jamais abandonar o princípio de que a lua segue um curso ordenado e cognoscível.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura explica por que Rabán Gamliel aceitou os testemunhos questionados — não por ingenuidade, mas por cálculo astronômico próprio que validava a parte essencial de cada relato.

Bartenura · Rosh Hashaná 2:8
קִבְּלָן רַבָּן גַּמְלִיאֵל. לֹא מִפְּנֵי שֶׁחָשַׁב שֶׁאֶפְשָׁר שֶׁתֵּרָאֶה הַיָּרֵחַ שַׁחֲרִית בַּמִּזְרָח בִּתְחִלַּת הָנֵץ הַחַמָּה וּבוֹ בַּיּוֹם עַצְמוֹ תֵּרָאֶה בַּמַּעֲרָב עִם שְׁקִיעַת הַחַמָּה, כִּי זֶה אִי אֶפְשָׁר. אֶלָּא שֶׁקִּבֵּל עֵדוּתָן בְּמַה שֶּׁאָמְרוּ שֶׁרָאוּ הַיָּרֵחַ בְּמַעֲרַב עַרְבִית, מִפְּנֵי שֶׁיָּדַע בְּדַרְכֵי הַחֶשְׁבּוֹן שֶׁהָיָה אֶפְשָׁר שֶׁתֵּרָאֶה בְּאוֹתָהּ הַלַּיְלָה.

"Rabán Gamliel os aceitou" — não porque considerasse possível que a lua fosse vista de manhã a leste no início do nascer do sol e, no mesmo dia, a oeste com o pôr do sol, pois isso é impossível. Mas aceitou o testemunho quanto ao que disseram ter visto a lua a oeste, à tarde, porque sabia, por seus próprios cálculos astronômicos, que era possível que ela fosse vista naquela noite; e quanto ao que disseram ter visto de manhã, considerou que se enganaram, tomando por lua uma nuvem em forma semelhante.

Rambam · Perush HaMishná, Rosh Hashaná 2:8
הָיָה מְצַיֵּר בַּלּוּחַ שִׁעוּר הַלְּבָנָה שֶׁיִּהְיֶה בּוֹ נְטִיַּת קַרְנֶיהָ מִצַּד הָאֹפֶק וְחַכְמֵי הַכּוֹכָבִים מְצַיְּרִים זֶה הַרְבֵּה.

Ele desenhava na tábua o formato da lua com a inclinação de seus chifres em relação ao horizonte — prática comum também entre os astrônomos, que costumam desenhar essas mesmas figuras para fins de ensino e verificação.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi identifica o objeto da mishná seguinte que já se anuncia aqui — o testemunho sobre a lua vista de manhã, considerado por ele referente à lua velha, não à nova.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Rosh Hashaná 24a-25a
מַתְנִי' מַעֲשֶׂה שֶׁבָּאוּ שְׁנַיִם כוּ': רְאִינוּהוּ שַׁחֲרִית בַּמִּזְרָח — אֶת הַיְּשָׁנָה: וְעַרְבִית בַּמַּעֲרָב — אֶת הַחֲדָשָׁה: עֵדֵי שֶׁקֶר הֵם — דְּקַיְימָא לַן עֶשְׂרִים וְאַרְבַּע שָׁעֵי מְכַסֵּי סִיהֲרָא.

"A mishná: aconteceu que vieram dois etc." — "vimo-la de manhã no oriente" — a lua velha, já minguante. "E à tarde no ocidente" — a lua nova. "São testemunhas falsas" — pois é regra estabelecida que, entre o desaparecimento da lua velha e o reaparecimento da lua nova, o corpo celeste fica encoberto por cerca de vinte e quatro horas; um intervalo tão curto entre os dois avistamentos relatados pareceria, portanto, contradizer essa regra — e é sobre essa aparente contradição, e sobre como Rabán Gamliel a resolveu por seu próprio cálculo mais preciso, que a Guemará se estende longamente.