Seder Moed · Massechet Rosh Hashaná · Perek Guimel · Mishná 7 de 8

Se ouviu o eco, não cumpriu

אִם קוֹל הֲבָרָה שָׁמַע, לֹא יָצָא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa do instrumento em si para a experiência de quem ouve o shofar em condições acústicas peculiares — dentro de um poço ou perto de uma sinagoga — introduzindo o princípio central da intenção do coração, que determina se a mitzvá foi de fato cumprida.

Quem toca para dentro do poço, ou para dentro da cisterna, ou para dentro do jarro grande — se ouviu o som do shofar, cumpriu; e se ouviu o som do eco, não cumpriu.Quem sopra o shofar dentro de uma cavidade como um poço, uma cisterna ou um grande recipiente de barro produz um som que pode se confundir com sua própria reverberação. Quem ouve o som direto do shofar cumpre sua obrigação; mas quem ouve apenas o eco distorcido — o som refletido, e não o som original do instrumento — não cumpre.

E, da mesma forma, quem estava passando atrás da sinagoga, ou cuja casa era próxima à sinagoga, e ouviu o som do shofar ou o som do rolo — se dirigiu seu coração, cumpriu; e se não, não cumpriu.O mesmo princípio se aplica a quem ouve o som do shofar, ou a leitura do Rolo de Ester, sem estar presente na sinagoga, apenas passando por perto ou morando ao lado: a validade depende de ele ter direcionado deliberadamente sua atenção e intenção ao cumprimento da mitzvá naquele instante.

Ainda que este tenha ouvido e aquele tenha ouvido, este dirigiu seu coração e aquele não dirigiu seu coração.A mishná conclui destacando a consequência prática desse princípio: duas pessoas podem ouvir exatamente o mesmo som do shofar, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, e ainda assim apenas uma delas cumprir a mitzvá — precisamente aquela que dirigiu conscientemente seu coração ao ato, enquanto a outra, que ouviu passivamente sem essa intenção, não cumpre.

הַתּוֹקֵעַ לְתוֹךְ הַבּוֹר אוֹ לְתוֹךְ הַדּוּת אוֹ לְתוֹךְ הַפִּטָּס, אִם קוֹל שׁוֹפָר שָׁמַע, יָצָא. וְאִם קוֹל הֲבָרָה שָׁמַע, לֹא יָצָא. וְכֵן מִי שֶׁהָיָה עוֹבֵר אֲחוֹרֵי בֵית הַכְּנֶסֶת, אוֹ שֶׁהָיָה בֵיתוֹ סָמוּךְ לְבֵית הַכְּנֶסֶת, וְשָׁמַע קוֹל שׁוֹפָר אוֹ קוֹל מְגִלָּה, אִם כִּוֵּן לִבּוֹ, יָצָא, וְאִם לָאו, לֹא יָצָא. אַף עַל פִּי שֶׁזֶּה שָׁמַע וְזֶה שָׁמַע, זֶה כִּוֵּן לִבּוֹ וְזֶה לֹא כִוֵּן לִבּוֹ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikrá 23:24
בַּחֹדֶשׁ הַשְּׁבִיעִי בְּאֶחָד לַחֹדֶשׁ, יִהְיֶה לָכֶם שַׁבָּתוֹן, זִכְרוֹן תְּרוּעָה, מִקְרָא קֹדֶשׁ.
No sétimo mês, no primeiro dia do mês, haverá para vós descanso solene, lembrança de terua, convocação sagrada.

O verso descreve o dia como "lembrança de terua" — não simplesmente "terua", mas a lembrança dela — e essa formulação é lida pela tradição como a base para exigir que o ouvinte participe ativamente do ato, e não apenas o receba passivamente pelos ouvidos. "Lembrar-se" é um ato mental deliberado, que pressupõe intenção e presença de espírito; um som que apenas atinge o ouvido de alguém distraído, sem qualquer voltar-se consciente para a mitzvá, não constitui essa "lembrança" exigida pela Torá. É esse mesmo princípio que explica por que o eco, mesmo sendo tecnicamente um som produzido pelo shofar, não cumpre a mitzvá — pois o eco não é o som do shofar em si, mas sua reverberação distorcida, faltando-lhe a identidade direta com o toque original que a Torá exige ser ouvido e lembrado.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam e Bartenura explicam a distinção entre quem está dentro da cavidade e quem está fora dela, e o papel especial da intenção do chazan que toca para toda a congregação.

Bartenura · Rosh Hashaná 3:7
אִם קוֹל שׁוֹפָר שָׁמַע. הָעוֹמֵד חוּץ לַבּוֹר, וְשָׁמַע קוֹל תְּקִיעַת הַתּוֹקֵעַ בַּבּוֹר, דְּאִלּוּ אוֹתָן שֶׁבַּבּוֹר לְעוֹלָם יֵצְאוּ, שֶׁהֵן שׁוֹמְעִין קוֹל שׁוֹפָר לְעוֹלָם. אִם כִּוֵּן לִבּוֹ. לָצֵאת. יָצָא. וְאַף עַל פִּי שֶׁלֹּא נִתְכַּוֵּן הַתּוֹקֵעַ לְהוֹצִיאוֹ, הָכָא מַיְרֵי בְּחַזַּן הַכְּנֶסֶת שֶׁתּוֹקֵעַ, שֶׁהוּא מִתְכַּוֵּן לְהוֹצִיא כָּל הַשּׁוֹמְעִים קוֹל תְּקִיעָתוֹ.

"Se ouviu o som do shofar" — refere-se a quem está de pé fora do poço e ouviu o som da tocada de quem toca dentro do poço; pois quem está dentro do próprio poço sempre cumpre sua obrigação, já que ouve o som direto do shofar sem qualquer interferência. "Se dirigiu seu coração" — para cumprir a mitzvá. "Cumpriu" — e isso mesmo que quem tocou o shofar não tivesse a intenção específica de fazê-lo cumprir sua obrigação, pois aqui se trata do chazan da sinagoga que toca com a intenção geral de fazer cumprir a obrigação de todos os que ouvem o som de sua tocada, ainda que não conheça individualmente cada ouvinte.

Rambam · Perush HaMishná, Rosh Hashaná 3:6-7
וְעַל אוֹתָן שֶׁהֵם חוּץ לַבּוֹר אָמְרוּ אִם קוֹל הֲבָרָה שָׁמַע לֹא יָצָא, אֲבָל אוֹתָן שֶׁהָיוּ תּוֹךְ הַבּוֹר יָצְאוּ יְדֵי חוֹבָתָן. וְצָרִיךְ הַתּוֹקֵעַ שֶׁיִּתְכַּוֵּן לְהוֹצִיא אֶת הַשּׁוֹמֵעַ יְדֵי חוֹבָתוֹ, וְאָז יִתְכַּוֵּן הַשּׁוֹמֵעַ לִשְׁמֹעַ וְיֵצֵא יְדֵי חוֹבָתוֹ.

E a respeito daqueles que estão fora do poço, disseram: se ouviu o som do eco, não cumpriu — mas aqueles que estavam dentro do próprio poço sempre cumprem sua obrigação. E, em geral, é preciso que quem toca o shofar tenha a intenção de fazer o ouvinte cumprir sua obrigação, e que o próprio ouvinte tenha a intenção de ouvir para cumpri-la — sendo necessária essa dupla intenção, de quem toca e de quem escuta, exceto no caso do chazan da sinagoga, cuja intenção geral já abrange todos os presentes.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi define os três recipientes mencionados na mishná e reforça a lógica da intenção dupla exigida entre quem toca e quem escuta.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Rosh Hashaná 27b
בּוֹר — חֲפִירָה בַּקַּרְקַע: דּוּת — מָקוֹם מֻקָּף מְחִצּוֹת עַל הָאָרֶץ: פִּטָּס — כְּלִי גָּדוֹל שֶׁל חֶרֶס: קוֹל הֲבָרָה — קוֹל הַנִּשְׁמָע מִתּוֹךְ הַבּוֹר עַל יְדֵי הֵד, וְאֵינוֹ קוֹל הַשּׁוֹפָר עַצְמוֹ.

"Poço" — uma escavação no próprio solo. "Cisterna" — um lugar cercado por muros erguidos sobre o chão. "Jarro grande" — um vasilhame grande feito de cerâmica. "Som do eco" — o som que se ouve de dentro do poço por meio de reverberação, e não o próprio som do shofar — distinção que explica por que um ouvinte externo pode não cumprir a mitzvá mesmo estando fisicamente perto de quem toca, caso o que lhe chegue aos ouvidos seja apenas essa reverberação distorcida.