Quem toca para dentro do poço, ou para dentro da cisterna, ou para dentro do jarro grande — se ouviu o som do shofar, cumpriu; e se ouviu o som do eco, não cumpriu. — Quem sopra o shofar dentro de uma cavidade como um poço, uma cisterna ou um grande recipiente de barro produz um som que pode se confundir com sua própria reverberação. Quem ouve o som direto do shofar cumpre sua obrigação; mas quem ouve apenas o eco distorcido — o som refletido, e não o som original do instrumento — não cumpre.
E, da mesma forma, quem estava passando atrás da sinagoga, ou cuja casa era próxima à sinagoga, e ouviu o som do shofar ou o som do rolo — se dirigiu seu coração, cumpriu; e se não, não cumpriu. — O mesmo princípio se aplica a quem ouve o som do shofar, ou a leitura do Rolo de Ester, sem estar presente na sinagoga, apenas passando por perto ou morando ao lado: a validade depende de ele ter direcionado deliberadamente sua atenção e intenção ao cumprimento da mitzvá naquele instante.
Ainda que este tenha ouvido e aquele tenha ouvido, este dirigiu seu coração e aquele não dirigiu seu coração. — A mishná conclui destacando a consequência prática desse princípio: duas pessoas podem ouvir exatamente o mesmo som do shofar, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, e ainda assim apenas uma delas cumprir a mitzvá — precisamente aquela que dirigiu conscientemente seu coração ao ato, enquanto a outra, que ouviu passivamente sem essa intenção, não cumpre.
O verso descreve o dia como "lembrança de terua" — não simplesmente "terua", mas a lembrança dela — e essa formulação é lida pela tradição como a base para exigir que o ouvinte participe ativamente do ato, e não apenas o receba passivamente pelos ouvidos. "Lembrar-se" é um ato mental deliberado, que pressupõe intenção e presença de espírito; um som que apenas atinge o ouvido de alguém distraído, sem qualquer voltar-se consciente para a mitzvá, não constitui essa "lembrança" exigida pela Torá. É esse mesmo princípio que explica por que o eco, mesmo sendo tecnicamente um som produzido pelo shofar, não cumpre a mitzvá — pois o eco não é o som do shofar em si, mas sua reverberação distorcida, faltando-lhe a identidade direta com o toque original que a Torá exige ser ouvido e lembrado.
Rambam e Bartenura explicam a distinção entre quem está dentro da cavidade e quem está fora dela, e o papel especial da intenção do chazan que toca para toda a congregação.
"Se ouviu o som do shofar" — refere-se a quem está de pé fora do poço e ouviu o som da tocada de quem toca dentro do poço; pois quem está dentro do próprio poço sempre cumpre sua obrigação, já que ouve o som direto do shofar sem qualquer interferência. "Se dirigiu seu coração" — para cumprir a mitzvá. "Cumpriu" — e isso mesmo que quem tocou o shofar não tivesse a intenção específica de fazê-lo cumprir sua obrigação, pois aqui se trata do chazan da sinagoga que toca com a intenção geral de fazer cumprir a obrigação de todos os que ouvem o som de sua tocada, ainda que não conheça individualmente cada ouvinte.
E a respeito daqueles que estão fora do poço, disseram: se ouviu o som do eco, não cumpriu — mas aqueles que estavam dentro do próprio poço sempre cumprem sua obrigação. E, em geral, é preciso que quem toca o shofar tenha a intenção de fazer o ouvinte cumprir sua obrigação, e que o próprio ouvinte tenha a intenção de ouvir para cumpri-la — sendo necessária essa dupla intenção, de quem toca e de quem escuta, exceto no caso do chazan da sinagoga, cuja intenção geral já abrange todos os presentes.
Rashi define os três recipientes mencionados na mishná e reforça a lógica da intenção dupla exigida entre quem toca e quem escuta.
"Poço" — uma escavação no próprio solo. "Cisterna" — um lugar cercado por muros erguidos sobre o chão. "Jarro grande" — um vasilhame grande feito de cerâmica. "Som do eco" — o som que se ouve de dentro do poço por meio de reverberação, e não o próprio som do shofar — distinção que explica por que um ouvinte externo pode não cumprir a mitzvá mesmo estando fisicamente perto de quem toca, caso o que lhe chegue aos ouvidos seja apenas essa reverberação distorcida.