"E era que, quando Moshé erguia sua mão, prevalecia Israel" etc. Acaso as mãos de Moshé faziam guerra ou quebravam a guerra? — Citando o verso do Êxodo sobre a batalha contra Amalek, a mishná levanta uma pergunta retórica: seria mesmo o gesto físico das mãos de Moshé, por si só, a causa da vitória ou derrota israelita no campo de batalha?
Mas antes, para te dizer: todo o tempo em que Israel olhava para cima e submetia seu coração a seu Pai que está nos céus, prevaleciam; e se não, caíam. — A resposta é que o gesto de Moshé não tinha poder mágico algum; ele funcionava como um estímulo visual que levava o povo a erguer os olhos ao céu e voltar seu coração, em submissão, para D'us — e era essa orientação interior do coração, não o movimento físico das mãos, que determinava se Israel prevalecia ou caía na batalha.
Semelhante a isso, dizes: "faze para ti uma serpente ardente e coloca-a sobre um mastro, e será que todo mordido que olhar para ela viverá." Acaso a serpente mata, ou a serpente vivifica? — A mishná traz um segundo exemplo, do episódio das serpentes no deserto: a ordem divina a Moshé de erguer uma serpente de cobre sobre um mastro para que os mordidos, ao contemplá-la, sobrevivessem. Novamente se pergunta retoricamente: seria a serpente de cobre, objeto inanimado, capaz de matar ou de curar por conta própria?
Mas: no tempo em que Israel olhava para cima e submetia seu coração a seu Pai que está nos céus, eram curados; e se não, se consumiam. — A resposta é idêntica: a serpente de cobre não tinha poder curativo intrínseco; ela era apenas o instrumento que levava o olhar do mordido a se voltar para cima, provocando a submissão do coração a D'us, da qual dependia verdadeiramente a cura.
Surdo-mudo, imbecil e menor não desobrigam o público. Este é o princípio: todo aquele que não está obrigado numa coisa não desobriga o público dela. — Retornando ao tema halachico, a mishná conclui que essas três categorias de pessoas — isentas por lei das mitzvot em geral — não podem tocar o shofar em nome da congregação para fazê-la cumprir sua obrigação, seguindo o princípio geral de que somente quem está pessoalmente obrigado numa mitzvá pode desobrigar terceiros dela.
A mishná já cita explicitamente este verso, junto ao de Bamidbar 21:8 sobre a serpente de cobre, como os dois textos-fonte de seu ensinamento sobre a intenção do coração. O paralelo entre os dois episódios é deliberado: em ambos os casos, um objeto físico — as mãos erguidas, a serpente de metal — poderia sugerir uma leitura supersticiosa, como se o próprio objeto possuísse poder sobrenatural. A mishná rejeita explicitamente essa leitura em ambos os casos, insistindo que o verdadeiro mecanismo é sempre o mesmo: o objeto funciona apenas como estímulo que direciona o olhar para cima e, com ele, submete o coração a D'us. É esse ensinamento que fecha organicamente o tema da mishná anterior sobre quem ouve o shofar dentro de um poço ou perto de uma sinagoga — pois também ali o som físico, por si só, não basta; é a intenção do coração que determina se a mitzvá foi de fato cumprida.
Bartenura explica a conexão editorial entre esta mishná e a anterior, e Rambam nota que o comentário, aqui, se limita ao essencial para o propósito do tratado.
"E era que, quando Moshé erguia sua mão etc." — como a mishná anterior tratava da intenção do coração no cumprimento da mitzvá do shofar, a mishná ensina também este outro ensinamento, que trata de um princípio semelhante: no momento em que dirigem seu coração a seu Pai que está nos céus, eles prevalecem — mostrando que essa mesma lógica da intenção interior, central ao cumprimento correto das mitzvot, também governa episódios inteiros da história bíblica de Israel.
Aqui a mishná fala apenas na medida do que é necessário ao nosso propósito e à intenção geral do tratado — isto é, o comentário sobre este ensinamento se limita ao essencial para o tema central de Rosh Hashaná, sem se estender além do que a estrutura do tratado requer.
Rashi, na Guemará, cita apenas o próprio texto do verso ao introduzir esta mishná, remetendo o leitor ao seu sentido já explicitado no corpo da mishná.
"Nossa mishná: e era que, quando Moshé erguia sua mão" etc. — Rashi introduz simplesmente o início do verso citado pela mishná, sinalizando que seu comentário à Guemará se concentrará na discussão que os Sábios desenvolvem a partir dele, enquanto o sentido homilético já está exposto com clareza no próprio corpo da mishná.
Aqui se completa o Perek Guimel — oito mishnayot dedicadas ao shofar e sua tocada: o procedimento de santificação do mês quando o tribunal e todo Israel, ou somente o tribunal, ou três pessoas comuns viram a lua nova (3:1), a regra geral de que todos os chifres servem exceto o de vaca, e a objeção de Rabi Yosei (3:2), a descrição do shofar reto e revestido de ouro de Rosh Hashaná, ladeado por trombetas (3:3), o shofar curvo e revestido de prata das taanyot, com as trombetas ao centro (3:4), a equiparação de Yom Kipur do Iovel a Rosh Hashaná e a opinião discordante de Rabi Yehuda (3:5), as condições de validade do shofar rachado, remendado ou perfurado (3:6), o princípio da intenção do coração ilustrado pelo shofar tocado dentro de um poço ou ouvido perto de uma sinagoga (3:7), e os exemplos bíblicos das mãos de Moshé e da serpente de cobre, que fecham o tema da intenção com a regra de que só quem está obrigado numa mitzvá pode desobrigar o público dela (3:8). O tratado prossegue no Perek Dalet, o último de Massechet Rosh Hashaná, sobre as instituições de Rabán Yochanan ben Zakai e a ordem das tocadas e bênçãos.