Seder Moed · Massechet Rosh Hashaná · Perek Guimel · Mishná 8 de 8 (última do perek)

Acaso as mãos de Moshé faziam guerra?

וְהָיָה כַּאֲשֶׁר יָרִים משֶׁה יָדוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Guimel, e retomando o tema da intenção do coração introduzido na mishná anterior, a mishná traz dois exemplos bíblicos que ilustram esse princípio — as mãos erguidas de Moshé na guerra contra Amalek, e a serpente de cobre no deserto — antes de concluir com a regra de quem está apto a tocar o shofar em nome do público.

"E era que, quando Moshé erguia sua mão, prevalecia Israel" etc. Acaso as mãos de Moshé faziam guerra ou quebravam a guerra?Citando o verso do Êxodo sobre a batalha contra Amalek, a mishná levanta uma pergunta retórica: seria mesmo o gesto físico das mãos de Moshé, por si só, a causa da vitória ou derrota israelita no campo de batalha?

Mas antes, para te dizer: todo o tempo em que Israel olhava para cima e submetia seu coração a seu Pai que está nos céus, prevaleciam; e se não, caíam.A resposta é que o gesto de Moshé não tinha poder mágico algum; ele funcionava como um estímulo visual que levava o povo a erguer os olhos ao céu e voltar seu coração, em submissão, para D'us — e era essa orientação interior do coração, não o movimento físico das mãos, que determinava se Israel prevalecia ou caía na batalha.

Semelhante a isso, dizes: "faze para ti uma serpente ardente e coloca-a sobre um mastro, e será que todo mordido que olhar para ela viverá." Acaso a serpente mata, ou a serpente vivifica?A mishná traz um segundo exemplo, do episódio das serpentes no deserto: a ordem divina a Moshé de erguer uma serpente de cobre sobre um mastro para que os mordidos, ao contemplá-la, sobrevivessem. Novamente se pergunta retoricamente: seria a serpente de cobre, objeto inanimado, capaz de matar ou de curar por conta própria?

Mas: no tempo em que Israel olhava para cima e submetia seu coração a seu Pai que está nos céus, eram curados; e se não, se consumiam.A resposta é idêntica: a serpente de cobre não tinha poder curativo intrínseco; ela era apenas o instrumento que levava o olhar do mordido a se voltar para cima, provocando a submissão do coração a D'us, da qual dependia verdadeiramente a cura.

Surdo-mudo, imbecil e menor não desobrigam o público. Este é o princípio: todo aquele que não está obrigado numa coisa não desobriga o público dela.Retornando ao tema halachico, a mishná conclui que essas três categorias de pessoas — isentas por lei das mitzvot em geral — não podem tocar o shofar em nome da congregação para fazê-la cumprir sua obrigação, seguindo o princípio geral de que somente quem está pessoalmente obrigado numa mitzvá pode desobrigar terceiros dela.

וְהָיָה כַּאֲשֶׁר יָרִים משֶׁה יָדוֹ וְגָבַר יִשְׂרָאֵל וְגוֹ׳ (שמות יז), וְכִי יָדָיו שֶׁל משֶׁה עוֹשׂוֹת מִלְחָמָה אוֹ שׁוֹבְרוֹת מִלְחָמָה. אֶלָּא לוֹמַר לְךָ, כָּל זְמַן שֶׁהָיוּ יִשְׂרָאֵל מִסְתַּכְּלִים כְּלַפֵּי מַעְלָה וּמְשַׁעְבְּדִין אֶת לִבָּם לַאֲבִיהֶם שֶׁבַּשָּׁמַיִם הָיוּ מִתְגַּבְּרִים. וְאִם לָאו, הָיוּ נוֹפְלִין. כַּיּוֹצֵא בַדָּבָר אַתָּה אוֹמֵר (במדבר כא), עֲשֵׂה לְךָ שָׂרָף וְשִׂים אֹתוֹ עַל נֵס, וְהָיָה כָּל הַנָּשׁוּךְ וְרָאָה אֹתוֹ וָחָי. וְכִי נָחָשׁ מֵמִית, אוֹ נָחָשׁ מְחַיֶּה. אֶלָּא, בִּזְמַן שֶׁיִּשְׂרָאֵל מִסְתַּכְּלִין כְּלַפֵּי מַעְלָה וּמְשַׁעְבְּדִין אֶת לִבָּם לַאֲבִיהֶן שֶׁבַּשָּׁמַיִם, הָיוּ מִתְרַפְּאִים, וְאִם לָאו, הָיוּ נִמּוֹקִים. חֵרֵשׁ, שׁוֹטֶה, וְקָטָן, אֵין מוֹצִיאִין אֶת הָרַבִּים יְדֵי חוֹבָתָן. זֶה הַכְּלָל, כֹּל שֶׁאֵינוֹ מְחֻיָּב בַּדָּבָר, אֵינוֹ מוֹצִיא אֶת הָרַבִּים יְדֵי חוֹבָתָן:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot 17:11
וְהָיָה כַּאֲשֶׁר יָרִים מֹשֶׁה יָדוֹ וְגָבַר יִשְׂרָאֵל, וְכַאֲשֶׁר יָנִיחַ יָדוֹ וְגָבַר עֲמָלֵק.
E era que, quando Moshé erguia sua mão, prevalecia Israel; e quando abaixava sua mão, prevalecia Amalek.

A mishná já cita explicitamente este verso, junto ao de Bamidbar 21:8 sobre a serpente de cobre, como os dois textos-fonte de seu ensinamento sobre a intenção do coração. O paralelo entre os dois episódios é deliberado: em ambos os casos, um objeto físico — as mãos erguidas, a serpente de metal — poderia sugerir uma leitura supersticiosa, como se o próprio objeto possuísse poder sobrenatural. A mishná rejeita explicitamente essa leitura em ambos os casos, insistindo que o verdadeiro mecanismo é sempre o mesmo: o objeto funciona apenas como estímulo que direciona o olhar para cima e, com ele, submete o coração a D'us. É esse ensinamento que fecha organicamente o tema da mishná anterior sobre quem ouve o shofar dentro de um poço ou perto de uma sinagoga — pois também ali o som físico, por si só, não basta; é a intenção do coração que determina se a mitzvá foi de fato cumprida.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura explica a conexão editorial entre esta mishná e a anterior, e Rambam nota que o comentário, aqui, se limita ao essencial para o propósito do tratado.

Bartenura · Rosh Hashaná 3:8
וְהָיָה כַּאֲשֶׁר יָרִים מֹשֶׁה יָדוֹ וְכוּ׳. מִשּׁוּם דְּאָיְרֵי לְעֵיל בְּכַוָּנַת הַלֵּב, תָּנָא נַמִּי לְהַךְ דְּאִית בָּהּ בְּשָׁעָה שֶׁמְּכַוְּנִים לִבָּן לַאֲבִיהֶם שֶׁבַּשָּׁמַיִם הֵם מִתְגַּבְּרִים.

"E era que, quando Moshé erguia sua mão etc." — como a mishná anterior tratava da intenção do coração no cumprimento da mitzvá do shofar, a mishná ensina também este outro ensinamento, que trata de um princípio semelhante: no momento em que dirigem seu coração a seu Pai que está nos céus, eles prevalecem — mostrando que essa mesma lógica da intenção interior, central ao cumprimento correto das mitzvot, também governa episódios inteiros da história bíblica de Israel.

Rambam · Perush HaMishná, Rosh Hashaná 3:8
דִּבֶּר בְּכָאן כְּפִי מַה שֶּׁאֲנַחְנוּ צְרִיכִין בּוֹ בְּמַה שֶּׁאֲנַחְנוּ בְּדַרְכּוֹ וּכְפִי כַּוָּנַת הַמַּסֶּכְתָּא.

Aqui a mishná fala apenas na medida do que é necessário ao nosso propósito e à intenção geral do tratado — isto é, o comentário sobre este ensinamento se limita ao essencial para o tema central de Rosh Hashaná, sem se estender além do que a estrutura do tratado requer.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará, cita apenas o próprio texto do verso ao introduzir esta mishná, remetendo o leitor ao seu sentido já explicitado no corpo da mishná.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Rosh Hashaná 29a
מַתְנִי׳ וְהָיָה כַּאֲשֶׁר יָרִים משֶׁה יָדוֹ וְגוֹ׳.

"Nossa mishná: e era que, quando Moshé erguia sua mão" etc. — Rashi introduz simplesmente o início do verso citado pela mishná, sinalizando que seu comentário à Guemará se concentrará na discussão que os Sábios desenvolvem a partir dele, enquanto o sentido homilético já está exposto com clareza no próprio corpo da mishná.

Aqui se completa o Perek Guimel — oito mishnayot dedicadas ao shofar e sua tocada: o procedimento de santificação do mês quando o tribunal e todo Israel, ou somente o tribunal, ou três pessoas comuns viram a lua nova (3:1), a regra geral de que todos os chifres servem exceto o de vaca, e a objeção de Rabi Yosei (3:2), a descrição do shofar reto e revestido de ouro de Rosh Hashaná, ladeado por trombetas (3:3), o shofar curvo e revestido de prata das taanyot, com as trombetas ao centro (3:4), a equiparação de Yom Kipur do Iovel a Rosh Hashaná e a opinião discordante de Rabi Yehuda (3:5), as condições de validade do shofar rachado, remendado ou perfurado (3:6), o princípio da intenção do coração ilustrado pelo shofar tocado dentro de um poço ou ouvido perto de uma sinagoga (3:7), e os exemplos bíblicos das mãos de Moshé e da serpente de cobre, que fecham o tema da intenção com a regra de que só quem está obrigado numa mitzvá pode desobrigar o público dela (3:8). O tratado prossegue no Perek Dalet, o último de Massechet Rosh Hashaná, sobre as instituições de Rabán Yochanan ben Zakai e a ordem das tocadas e bênçãos.