Seder Moed · Massechet Rosh Hashaná · Perek Dalet · Mishná 1 de 9

Um em Iavne, e um em todo lugar com tribunal

יוֹם טוֹב שֶׁל רֹאשׁ הַשָּׁנָה שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Dalet, o último do tratado, a mishná trata do caso em que Rosh Hashaná cai em Shabat, registrando a instituição de Rabán Yochanan ben Zakai que ampliou o alcance da tocada do shofar depois da destruição do Templo, e a disputa sobre até onde essa instituição se estendia.

O dia festivo de Rosh Hashaná que cai em Shabat — no Templo tocavam, mas não na província.Quando Rosh Hashaná coincide com o Shabat, no Templo de Jerusalém o shofar era tocado normalmente, seguindo seu costume regular; mas em qualquer outro lugar do país, fora do recinto do Templo, o toque do shofar era suspenso nesse Shabat, por receio de que alguém carregasse o instrumento por engano através de domínio público.

Depois que o Templo foi destruído, instituiu Rabán Yochanan ben Zakai que tocassem em todo lugar em que houvesse tribunal.Após a destruição, Rabán Yochanan ben Zakai emitiu uma nova instituição, estendendo a permissão de tocar o shofar em Shabat — antes exclusiva do Templo — para qualquer localidade onde houvesse um tribunal estabelecido, preservando assim, na medida do possível, a grandeza da mitzvá mesmo sem o Templo.

Disse Rabi Elazar: Não instituiu Rabán Yochanan ben Zakai senão em Iavne somente. Disseram-lhe: Um é Iavne, e um é todo lugar em que houver tribunal.Rabi Elazar limita o alcance dessa instituição apenas à cidade de Iavne, sede do Sinédrio na época de Rabán Yochanan ben Zakai. Os demais Sábios discordam, afirmando que a instituição não se restringia a Iavne, mas se aplicava igualmente a qualquer lugar onde um tribunal estivesse estabelecido — sendo esta a opinião que prevalece na halachá.

יוֹם טוֹב שֶׁל רֹאשׁ הַשָּׁנָה שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת, בַּמִּקְדָּשׁ הָיוּ תוֹקְעִים, אֲבָל לֹא בַמְּדִינָה. מְשֶּׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, הִתְקִין רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי, שֶׁיְּהוּ תּוֹקְעִין בְּכָל מָקוֹם שֶׁיֶּשׁ בּוֹ בֵית דִּין. אָמַר רַבִּי אֶלְעָזָר, לֹא הִתְקִין רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי אֶלָּא בְיַבְנֶה בִּלְבָד. אָמְרוּ לוֹ, אֶחָד יַבְנֶה וְאֶחָד כָּל מָקוֹם שֶׁיֶּשׁ בּוֹ בֵית דִּין:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikrá 23:24
בַּחֹדֶשׁ הַשְּׁבִיעִי בְּאֶחָד לַחֹדֶשׁ, יִהְיֶה לָכֶם שַׁבָּתוֹן, זִכְרוֹן תְּרוּעָה, מִקְרָא קֹדֶשׁ.
No sétimo mês, no primeiro dia do mês, haverá para vós descanso solene, lembrança de terua, convocação sagrada.

Por Torá, tocar o shofar não constitui um trabalho proibido em Shabat, de modo que, em princípio, nada impediria sua tocada mesmo quando Rosh Hashaná cai nesse dia. A suspensão fora do Templo é uma decisão rabínica preventiva, por temor de que alguém, ao carregar o shofar para aprender a tocá-lo ou para levá-lo a um especialista, acabe transportando-o por quatro côvados em domínio público — violando, esse sim, uma proibição de Shabat por Torá. O Templo, e depois qualquer local com tribunal estabelecido, foi isento dessa preocupação porque ali a supervisão constante da corte tornava tal descuido improvável. É essa mesma lógica preventiva que rege a suspensão paralela do toque do lulav em Shabat, mencionada logo na mishná seguinte.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o motivo da proibição rabínica de tocar o shofar em Shabat fora do Templo, e a distinção entre a Jerusalém de outrora e Iavne — retomada na mishná seguinte.

Rambam · Perush HaMishná, Rosh Hashaná 4:1
כְּבָר בֵּאַרְנוּ פְּעָמִים כִּי מִקְדָּשׁ תִּקָּרֵא יְרוּשָׁלַיִם כֻּלָּהּ, וּמְדִינָה שְׁאָר הָעֲיָרוֹת שֶׁבְּכָל אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל. וְהַטַּעַם שֶׁבַּעֲבוּרוֹ נֶאֶסְרָה תְּקִיעַת שׁוֹפָר בְּשַׁבָּת, גְּזֵרָה שֶׁמָּא יִטְּלֶנּוּ בְּיָדוֹ וְיַעֲבִירֶנּוּ אַרְבַּע אַמּוֹת בִּרְשׁוּת הָרַבִּים, כְּמוֹ שֶׁבֵּאַרְנוּ בְּלוּלָב, לְפִי שֶׁתְּקִיעַת שׁוֹפָר אֵינָהּ מְלָאכָה.

Já explicamos diversas vezes que "Templo", nesse contexto, designa toda a cidade de Jerusalém, e "província" designa as demais cidades de toda a Terra de Israel. E o motivo pelo qual foi proibida a tocada do shofar em Shabat fora dali é um decreto preventivo: teme-se que alguém o segure na mão e o carregue por quatro côvados em domínio público — exatamente como explicamos a respeito do lulav — pois, em si mesma, a tocada do shofar não constitui trabalho proibido por Torá.

Bartenura · Rosh Hashaná 4:1
אֶלָּא בְיַבְנֶה. שֶׁהָיְתָה שָׁם סַנְהֶדְרִי גְּדוֹלָה בְּיָמָיו, וְכֵן בְּכָל מָקוֹם שֶׁגָּלְתָה סַנְהֶדְרִין, אֲבָל לֹא בְּבֵית דִּין שֶׁל עֶשְׂרִים וּשְׁלֹשָׁה.

"Senão em Iavne" — pois ali residia o Grande Sinédrio nos dias de Rabán Yochanan ben Zakai; e o mesmo vale para qualquer lugar para onde o Sinédrio viesse a se exilar posteriormente — mas não para um tribunal comum de vinte e três juízes, que não tinha a mesma autoridade para estender essa instituição.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi esclarece os termos "Templo" e "província" e localiza a base da disputa entre Rabi Elazar e os demais Sábios.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Rosh Hashaná 29b
מַתְנִי׳ יוֹם טוֹב שֶׁל רֹאשׁ הַשָּׁנָה שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת בַּמִּקְדָּשׁ הָיוּ תּוֹקְעִין — בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ לָהּ: אֲבָל לֹא בַמְּדִינָה — לֹא בִּירוּשָׁלַיִם וְלֹא בַּגְּבוּלִין: אֶלָּא בְּיַבְנֶה — שֶׁהָיְתָה שָׁם סַנְהֶדְרִי גְּדוֹלָה בְּיָמָיו, וְכֵן בְּכָל מָקוֹם שֶׁגָּלְתָה סַנְהֶדְרִין, אֲבָל לֹא בְּבֵית דִּין שֶׁל עֶשְׂרִים וּשְׁלֹשָׁה.

"Nossa mishná: o dia festivo de Rosh Hashaná que cai em Shabat, no Templo tocavam" — a Guemará explicará em detalhe o fundamento dessa distinção. "Mas não na província" — nem em Jerusalém propriamente, nem nas demais regiões do país, fora do próprio recinto do Templo. "Senão em Iavne" — pois ali residia o Grande Sinédrio nos dias de Rabán Yochanan ben Zakai, e o mesmo se aplica a qualquer lugar posterior para onde o Sinédrio viesse a se exilar — mas não a um tribunal comum de vinte e três juízes, que carecia da autoridade necessária.