Seder Moed · Massechet Rosh Hashaná · Perek Dalet · Mishná 2 de 9

A superioridade de Jerusalém sobre Iavne

וְעוֹד זֹאת הָיְתָה יְרוּשָׁלַיִם יְתֵרָה עַל יַבְנֶה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuando o tema da mishná anterior, esta mishná acrescenta um detalhe sobre o alcance geográfico da tocada do shofar em Shabat, contrastando o antigo privilégio de Jerusalém — que se estendia às cidades vizinhas — com a prática mais restrita adotada em Iavne.

E ainda esta outra vantagem tinha Jerusalém sobre Iavne: que toda cidade que a via e a ouvia, e era próxima e podia vir, tocavam.Em tempos antigos, quando o Templo ainda estava de pé, Jerusalém tinha uma vantagem que Iavne, mesmo depois de se tornar sede do Sinédrio, jamais possuiu: qualquer cidade vizinha que atendesse a quatro condições simultâneas — poder ver Jerusalém, poder ouvir o som do shofar tocado ali, estar geograficamente próxima, e ter seus habitantes capazes de efetivamente chegar até lá — também tocava o shofar em Shabat, como se fosse parte da própria Jerusalém.

E em Iavne não tocavam senão no tribunal somente.Em contraste, na Iavne posterior à destruição do Templo, esse privilégio de extensão às cidades vizinhas não existia: o shofar só era tocado dentro do próprio recinto onde o tribunal estava reunido, e em nenhum outro lugar ao redor.

וְעוֹד זֹאת הָיְתָה יְרוּשָׁלַיִם יְתֵרָה עַל יַבְנֶה, שֶׁכָּל עִיר שֶׁהִיא רוֹאָה וְשׁוֹמַעַת וּקְרוֹבָה וִיכוֹלָה לָבֹא, תּוֹקְעִין. וּבְיַבְנֶה לֹא הָיוּ תוֹקְעִין אֶלָּא בְּבֵית דִּין בִּלְבָד:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Tehilim 48:3
יְפֵה נוֹף מְשׂוֹשׂ כָּל הָאָרֶץ, הַר צִיּוֹן... קִרְיַת מֶלֶךְ רָב.
Bela em elevação, alegria de toda a terra, o monte de Tzion... a cidade do grande Rei.

O privilégio exclusivo de Jerusalém como "a cidade do grande Rei" explica por que sua santidade especial se irradiava, na prática, para as localidades vizinhas capazes de ver, ouvir e alcançá-la — algo que nenhuma outra sede do Sinédrio, mesmo depois da destruição, jamais recuperou por completo. A distinção entre a Jerusalém pré-destruição e a Iavne posterior reflete uma verdade histórica e teológica mais ampla, presente ao longo de todo este perek: as instituições de Rabán Yochanan ben Zakai preservaram, na medida do possível, práticas do Templo destruído — mas sempre com o reconhecimento implícito de que se tratava de uma continuidade parcial, não de uma restauração plena. É esse mesmo espírito de "em memória do Templo" que anima a mishná seguinte, sobre a tomada do lulav durante todos os sete dias de Sucot.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura reconstrói o sentido implícito da mishná e especifica cada uma das quatro condições exigidas para que uma cidade vizinha pudesse tocar o shofar.

Bartenura · Rosh Hashaná 4:2
כָּל עִיר שֶׁהִיא רוֹאָה. יְרוּשָׁלַיִם, פְּרָט לַיּוֹשֶׁבֶת בַּנַּחַל, שֶׁאַף עַל פִּי שֶׁהָיְתָה קְרוֹבָה לֹא הָיוּ תּוֹקְעִין בָּהּ. וְשׁוֹמַעַת. פְּרָט לַיּוֹשֶׁבֶת בְּרֹאשׁ הָהָר. וּקְרוֹבָה. פְּרָט לַיּוֹשֶׁבֶת חוּץ לַתְּחוּם. וִיכוֹלָה לָבֹא. פְּרָט לַמַּפְסִיק לָהּ נָהָר.

"Toda cidade que vê" — Jerusalém; excluindo-se a cidade situada num vale profundo, pois ainda que fosse geograficamente próxima, não se tocava ali, já que dali não se conseguia ver a cidade. "E ouve" — excluindo-se a cidade situada no topo de um monte, que embora pudesse ver Jerusalém de longe, ficava fora do alcance sonoro do shofar. "E é próxima" — excluindo-se a cidade situada além do techum, o limite de caminhada permitido em Shabat. "E pode vir" — excluindo-se a cidade separada de Jerusalém por um rio, que impedia fisicamente o acesso mesmo estando dentro da distância adequada.

Rambam · Perush HaMishná, Rosh Hashaná 4:2
אָמְרוּ "וְעוֹד" יוֹרֶה כִּי הָיָה שָׁם מַעֲשֶׂה שֵׁנִי מִלְּבַד זֶה שֶׁזָּכַר, וְהוּא כִּי בִּירוּשָׁלַיִם הָיוּ תּוֹקְעִין כָּל הָעָם כָּל זְמַן שֶׁבֵּית דִּין יוֹשְׁבִין בַּמִּקְדָּשׁ, וּבְיַבְנֶה לֹא הָיוּ תּוֹקְעִין אֶלָּא בְּבֵית דִּין בִּלְבַד.

A expressão "e ainda" indica que se trata de um segundo detalhe distinto do mencionado na mishná anterior: em Jerusalém, todo o povo tocava o shofar durante todo o tempo em que o tribunal estivesse sentado em sessão no Templo; já em Iavne, não se tocava senão no próprio recinto do tribunal — um privilégio mais restrito, refletindo a diferença de status entre as duas sedes.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi resume o sentido da vantagem de Jerusalém, remetendo à Guemará para a explicação detalhada de cada condição.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Rosh Hashaná 29b-30a
וְעוֹד זֹאת הָיְתָה יְרוּשָׁלַיִם — בְּעוֹדָהּ בְּבִנְיָנָהּ, יְתֵרָה בִּתְקִיעַת שַׁבָּת עַל יַבְנֶה: שֶׁכָּל עִיר שֶׁרוֹאָה — אֶת יְרוּשָׁלַיִם: וְשׁוֹמַעַת וִיכוֹלָה לָבֹא כוּ׳ — מְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא מַאי תָּנָא דְּקָאָמַר "וְעוֹד".

"E ainda esta outra vantagem tinha Jerusalém" — enquanto ela estava de pé, em toda sua construção original, ela tinha vantagem sobre Iavne quanto à tocada do shofar em Shabat. "Que toda cidade que via" — Jerusalém. "E ouvia e podia vir" etc. — a Guemará explica em detalhe qual é exatamente o novo ensinamento introduzido pela palavra "e ainda", que liga esta mishná à anterior como uma continuação do mesmo tema.