E ainda esta outra vantagem tinha Jerusalém sobre Iavne: que toda cidade que a via e a ouvia, e era próxima e podia vir, tocavam. — Em tempos antigos, quando o Templo ainda estava de pé, Jerusalém tinha uma vantagem que Iavne, mesmo depois de se tornar sede do Sinédrio, jamais possuiu: qualquer cidade vizinha que atendesse a quatro condições simultâneas — poder ver Jerusalém, poder ouvir o som do shofar tocado ali, estar geograficamente próxima, e ter seus habitantes capazes de efetivamente chegar até lá — também tocava o shofar em Shabat, como se fosse parte da própria Jerusalém.
E em Iavne não tocavam senão no tribunal somente. — Em contraste, na Iavne posterior à destruição do Templo, esse privilégio de extensão às cidades vizinhas não existia: o shofar só era tocado dentro do próprio recinto onde o tribunal estava reunido, e em nenhum outro lugar ao redor.
O privilégio exclusivo de Jerusalém como "a cidade do grande Rei" explica por que sua santidade especial se irradiava, na prática, para as localidades vizinhas capazes de ver, ouvir e alcançá-la — algo que nenhuma outra sede do Sinédrio, mesmo depois da destruição, jamais recuperou por completo. A distinção entre a Jerusalém pré-destruição e a Iavne posterior reflete uma verdade histórica e teológica mais ampla, presente ao longo de todo este perek: as instituições de Rabán Yochanan ben Zakai preservaram, na medida do possível, práticas do Templo destruído — mas sempre com o reconhecimento implícito de que se tratava de uma continuidade parcial, não de uma restauração plena. É esse mesmo espírito de "em memória do Templo" que anima a mishná seguinte, sobre a tomada do lulav durante todos os sete dias de Sucot.
Bartenura reconstrói o sentido implícito da mishná e especifica cada uma das quatro condições exigidas para que uma cidade vizinha pudesse tocar o shofar.
"Toda cidade que vê" — Jerusalém; excluindo-se a cidade situada num vale profundo, pois ainda que fosse geograficamente próxima, não se tocava ali, já que dali não se conseguia ver a cidade. "E ouve" — excluindo-se a cidade situada no topo de um monte, que embora pudesse ver Jerusalém de longe, ficava fora do alcance sonoro do shofar. "E é próxima" — excluindo-se a cidade situada além do techum, o limite de caminhada permitido em Shabat. "E pode vir" — excluindo-se a cidade separada de Jerusalém por um rio, que impedia fisicamente o acesso mesmo estando dentro da distância adequada.
A expressão "e ainda" indica que se trata de um segundo detalhe distinto do mencionado na mishná anterior: em Jerusalém, todo o povo tocava o shofar durante todo o tempo em que o tribunal estivesse sentado em sessão no Templo; já em Iavne, não se tocava senão no próprio recinto do tribunal — um privilégio mais restrito, refletindo a diferença de status entre as duas sedes.
Rashi resume o sentido da vantagem de Jerusalém, remetendo à Guemará para a explicação detalhada de cada condição.
"E ainda esta outra vantagem tinha Jerusalém" — enquanto ela estava de pé, em toda sua construção original, ela tinha vantagem sobre Iavne quanto à tocada do shofar em Shabat. "Que toda cidade que via" — Jerusalém. "E ouvia e podia vir" etc. — a Guemará explica em detalhe qual é exatamente o novo ensinamento introduzido pela palavra "e ainda", que liga esta mishná à anterior como uma continuação do mesmo tema.