No início, aceitavam testemunho do mês o dia inteiro. Uma vez, as testemunhas se atrasaram em vir, e os levitas se confundiram no cântico. — Originalmente, o tribunal aceitava o testemunho de avistamento da lua nova durante todo o trigésimo dia a partir do início de Elul. Certa vez, porém, as testemunhas demoraram a chegar, e essa incerteza sobre se o dia era festivo ou comum fez com que os levitas, responsáveis pelo cântico que acompanhava a oferenda diária, não soubessem qual salmo entoar — e acabassem, no fim, não entoando cântico algum.
Instituíram que não aceitassem senão até a minchá. E se vieram testemunhas de minchá em diante, observavam aquele dia como sagrado e o dia seguinte como sagrado. — Para evitar que o incidente se repetisse, os Sábios restringiram o horário-limite de aceitação de testemunhas ao momento da oferenda vespertina de minchá. Se, apesar disso, as testemunhas chegassem depois desse horário, ainda assim o povo observava tanto aquele dia quanto o seguinte com santidade — o primeiro por precaução retroativa, o segundo porque os cálculos passavam a apontá-lo como o verdadeiro Rosh Hashaná.
Depois que o Templo foi destruído, instituiu Rabán Yochanan ben Zakai que voltassem a aceitar testemunho do mês o dia inteiro. — Como o motivo original da restrição — a incerteza dos levitas quanto ao cântico da oferenda diária — deixou de existir com a destruição do Templo, Rabán Yochanan ben Zakai revogou a limitação e restaurou a prática original de aceitar testemunhas durante todo o dia.
Disse Rabi Yehoshua ben Korcha: E ainda isto instituiu Rabán Yochanan ben Zakai — que, mesmo que o chefe do tribunal estivesse em qualquer outro lugar, as testemunhas não fossem senão ao local da reunião. — Rabi Yehoshua ben Korcha acrescenta um detalhe adicional a essa mesma instituição: mesmo que o presidente do Sinédrio se encontrasse pessoalmente em outro local, as testemunhas do novo mês deveriam se dirigir sempre ao local fixo onde o tribunal costumava se reunir — e não ao paradeiro pessoal do presidente — permitindo assim que o próprio Sinédrio santificasse o mês mesmo na ausência de seu chefe.
É esta a base da oferenda diária, o tamid, cujo horário vespertino — a chamada minchá, ao entardecer — se tornou o ponto de corte para o testemunho da lua nova, e cujo cântico levítico de acompanhamento é o coração do incidente narrado na mishná. A cada oferenda diária, sacrificada de manhã e ao entardecer, os levitas entoavam um salmo específico ao dia da semana — ou, em dias festivos, o salmo próprio da festa. Quando o status do dia permanecia incerto, por depender de um testemunho que ainda não havia chegado, os levitas ficavam paralisados entre duas possibilidades incompatíveis, e a solução prática acabou sendo o silêncio — uma falha que os Sábios trataram como grave o bastante para justificar uma mudança permanente no procedimento de aceitação de testemunhas, restaurada apenas quando a própria oferenda diária, e com ela o cântico levítico, deixou de existir com a destruição do Templo.
Bartenura detalha o mecanismo exato da confusão dos levitas e a lógica de se observar dois dias como sagrados, e Rambam explica a razão prática por trás da instituição de Rabi Yehoshua ben Korcha.
"E os levitas se confundiram no cântico" — referindo-se ao cântico que acompanhava a oferenda diária vespertina, e que, naquela ocasião, não foi entoado de forma alguma. Pois, quando chegou o horário da oferenda vespertina e as testemunhas ainda não haviam chegado, os levitas não souberam se deveriam recitar o cântico comum de um dia da semana ou o cântico especial do dia festivo — e, na dúvida, acabaram por não recitar cântico algum, deixando a oferenda sem seu acompanhamento litúrgico devido.
E "o local da reunião" é o lugar reconhecido como sede fixa do tribunal, para que houvesse um único local certo para onde as testemunhas se dirigissem, evitando que tivessem de procurar por diversos lugares incertos à procura do paradeiro momentâneo do presidente — uma solução prática que garantia eficiência e certeza ao processo de testemunho, independentemente de onde o chefe do tribunal se encontrasse pessoalmente naquele dia.
Rashi identifica o início desta mishná na Guemará e remete à discussão detalhada da instituição de Rabi Yehoshua ben Korcha sobre a autoridade do Sinédrio na ausência de seu presidente.
"Nossa mishná: no início, aceitavam testemunho do mês" etc. — e mais adiante: "nossa mishná: disse Rabi Yehoshua ben Korcha" etc. "Que mesmo que o chefe do tribunal estivesse em qualquer lugar" — pois, por vezes, ele se via obrigado a se afastar do local da reunião para outro lugar, e a essência da santificação do mês depende dele, como aprendemos no perek anterior — "o chefe do tribunal diz: santificado" — e isso se deriva dos versos bíblicos. "Não estariam" — as testemunhas do novo mês não precisariam segui-lo pessoalmente aonde quer que fosse. "Senão ao local da reunião" — da sessão habitual, elas iriam, e o próprio Sinédrio santificaria o mês mesmo sem a presença física de seu chefe.