Seder Moed · Massechet Rosh Hashaná · Perek Dalet · Mishná 4 de 9

Os levitas se confundiram no cântico

נִתְקַלְקְלוּ הַלְוִיִּם בַּשִּׁיר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná narra a evolução histórica das regras sobre o horário limite para aceitar testemunhas do novo mês — de um sistema aberto o dia inteiro, restringido depois de um incidente litúrgico com os levitas, e finalmente restaurado ao seu formato original por Rabán Yochanan ben Zakai, com um acréscimo de Rabi Yehoshua ben Korcha sobre o local exato onde as testemunhas deveriam se apresentar.

No início, aceitavam testemunho do mês o dia inteiro. Uma vez, as testemunhas se atrasaram em vir, e os levitas se confundiram no cântico.Originalmente, o tribunal aceitava o testemunho de avistamento da lua nova durante todo o trigésimo dia a partir do início de Elul. Certa vez, porém, as testemunhas demoraram a chegar, e essa incerteza sobre se o dia era festivo ou comum fez com que os levitas, responsáveis pelo cântico que acompanhava a oferenda diária, não soubessem qual salmo entoar — e acabassem, no fim, não entoando cântico algum.

Instituíram que não aceitassem senão até a minchá. E se vieram testemunhas de minchá em diante, observavam aquele dia como sagrado e o dia seguinte como sagrado.Para evitar que o incidente se repetisse, os Sábios restringiram o horário-limite de aceitação de testemunhas ao momento da oferenda vespertina de minchá. Se, apesar disso, as testemunhas chegassem depois desse horário, ainda assim o povo observava tanto aquele dia quanto o seguinte com santidade — o primeiro por precaução retroativa, o segundo porque os cálculos passavam a apontá-lo como o verdadeiro Rosh Hashaná.

Depois que o Templo foi destruído, instituiu Rabán Yochanan ben Zakai que voltassem a aceitar testemunho do mês o dia inteiro.Como o motivo original da restrição — a incerteza dos levitas quanto ao cântico da oferenda diária — deixou de existir com a destruição do Templo, Rabán Yochanan ben Zakai revogou a limitação e restaurou a prática original de aceitar testemunhas durante todo o dia.

Disse Rabi Yehoshua ben Korcha: E ainda isto instituiu Rabán Yochanan ben Zakai — que, mesmo que o chefe do tribunal estivesse em qualquer outro lugar, as testemunhas não fossem senão ao local da reunião.Rabi Yehoshua ben Korcha acrescenta um detalhe adicional a essa mesma instituição: mesmo que o presidente do Sinédrio se encontrasse pessoalmente em outro local, as testemunhas do novo mês deveriam se dirigir sempre ao local fixo onde o tribunal costumava se reunir — e não ao paradeiro pessoal do presidente — permitindo assim que o próprio Sinédrio santificasse o mês mesmo na ausência de seu chefe.

בָּרִאשׁוֹנָה הָיוּ מְקַבְּלִין עֵדוּת הַחֹדֶשׁ כָּל הַיּוֹם. פַּעַם אַחַת נִשְׁתַּהוּ הָעֵדִים מִלָּבֹא, וְנִתְקַלְקְלוּ הַלְוִיִּם בַּשִּׁיר. הִתְקִינוּ שֶׁלֹּא יְהוּ מְקַבְּלִין אֶלָּא עַד הַמִּנְחָה. וְאִם בָּאוּ עֵדִים מִן הַמִּנְחָה וּלְמַעְלָה, נוֹהֲגִין אוֹתוֹ הַיּוֹם קֹדֶשׁ וּלְמָחָר קֹדֶשׁ. מִשֶּׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ הִתְקִין רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי, שֶׁיְּהוּ מְקַבְּלִין עֵדוּת הַחֹדֶשׁ כָּל הַיּוֹם. אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה, וְעוֹד זֹאת הִתְקִין רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי, שֶׁאֲפִלּוּ רֹאשׁ בֵּית דִּין בְּכָל מָקוֹם, שֶׁלֹּא יְהוּ הָעֵדִים הוֹלְכִין אֶלָּא לִמְקוֹם הַוָּעַד:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Bamidbar 28:2
אֶת קָרְבָּנִי לַחְמִי לְאִשַּׁי... תִּשְׁמְרוּ לְהַקְרִיב לִי בְּמוֹעֲדוֹ.
Minha oferenda, meu pão para meus sacrifícios ígneos... cuidareis de trazer a Mim em seu tempo determinado.

É esta a base da oferenda diária, o tamid, cujo horário vespertino — a chamada minchá, ao entardecer — se tornou o ponto de corte para o testemunho da lua nova, e cujo cântico levítico de acompanhamento é o coração do incidente narrado na mishná. A cada oferenda diária, sacrificada de manhã e ao entardecer, os levitas entoavam um salmo específico ao dia da semana — ou, em dias festivos, o salmo próprio da festa. Quando o status do dia permanecia incerto, por depender de um testemunho que ainda não havia chegado, os levitas ficavam paralisados entre duas possibilidades incompatíveis, e a solução prática acabou sendo o silêncio — uma falha que os Sábios trataram como grave o bastante para justificar uma mudança permanente no procedimento de aceitação de testemunhas, restaurada apenas quando a própria oferenda diária, e com ela o cântico levítico, deixou de existir com a destruição do Templo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura detalha o mecanismo exato da confusão dos levitas e a lógica de se observar dois dias como sagrados, e Rambam explica a razão prática por trás da instituição de Rabi Yehoshua ben Korcha.

Bartenura · Rosh Hashaná 4:4
וְנִתְקַלְקְלוּ הַלְוִיִּם בַּשִּׁיר. שֶׁל תָּמִיד שֶׁל בֵּין הָעַרְבַּיִם, וְלֹא אָמְרוּ בּוֹ שִׁיר כְּלָל. וְאוֹתוֹ פַּעַם שֶׁהִגִּיעַ שְׁעַת הַקְרָבַת תָּמִיד שֶׁל בֵּין הָעַרְבַּיִם וַעֲדַיִן לֹא בָּאוּ עֵדִים, לֹא יָדְעוּ הַלְוִיִּם אִם יֹאמְרוּ שִׁיר שֶׁל חֹל אוֹ שִׁיר שֶׁל יוֹם טוֹב, וְלֹא אָמְרוּ שִׁיר כְּלָל.

"E os levitas se confundiram no cântico" — referindo-se ao cântico que acompanhava a oferenda diária vespertina, e que, naquela ocasião, não foi entoado de forma alguma. Pois, quando chegou o horário da oferenda vespertina e as testemunhas ainda não haviam chegado, os levitas não souberam se deveriam recitar o cântico comum de um dia da semana ou o cântico especial do dia festivo — e, na dúvida, acabaram por não recitar cântico algum, deixando a oferenda sem seu acompanhamento litúrgico devido.

Rambam · Perush HaMishná, Rosh Hashaná 4:4
וּמְקוֹם הַוָּעַד הוּא מָקוֹם הַיָּדוּעַ לְקִבּוּץ בֵּית דִּין, כְּדֵי שֶׁיִּהְיֶה מָקוֹם אֶחָד יָדוּעַ בִּלְבַד יֵלְכוּ שָׁם הָעֵדִים, וְלֹא יִצְטָרְכוּ לַחֲזֹר עַל מְקוֹמוֹת רַבִּים בְּלִי יְדוּעִים.

E "o local da reunião" é o lugar reconhecido como sede fixa do tribunal, para que houvesse um único local certo para onde as testemunhas se dirigissem, evitando que tivessem de procurar por diversos lugares incertos à procura do paradeiro momentâneo do presidente — uma solução prática que garantia eficiência e certeza ao processo de testemunho, independentemente de onde o chefe do tribunal se encontrasse pessoalmente naquele dia.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi identifica o início desta mishná na Guemará e remete à discussão detalhada da instituição de Rabi Yehoshua ben Korcha sobre a autoridade do Sinédrio na ausência de seu presidente.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Rosh Hashaná 30b-31b
מַתְנִי׳ בָּרִאשׁוֹנָה הָיוּ מְקַבְּלִין עֵדוּת הַחֹדֶשׁ כוּ׳: מַתְנִי׳ אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן קָרְחָה כוּ׳ שֶׁאֲפִלּוּ רֹאשׁ בֵּית דִּין בְּכָל מָקוֹם — שֶׁנִּצְרָךְ לִפְרֹשׁ מִמְּקוֹם הַוָּעַד לְמָקוֹם אַחֵר, שֶׁהֲרֵי עִקַּר הַחֹדֶשׁ תְּלוּיָה בּוֹ כִּדְתְנַן בְּפִרְקִין דִּלְעֵיל: רֹאשׁ בֵּית דִּין אוֹמֵר מְקֻדָּשׁ, וְיָלְפִינַן מִקְּרָאֵי: לֹא יְהוּ — צְרִיכִין עֵדֵי הַחֹדֶשׁ לְהַלֵּךְ אַחֲרָיו: אֶלָּא לִמְקוֹם הַוָּעַד — שֶׁל יְשִׁיבָה, יֵלְכוּ, וְסַנְהֶדְרִין יְקַדְּשׁוּהוּ בְּלֹא רֹאשׁ בֵּית דִּין.

"Nossa mishná: no início, aceitavam testemunho do mês" etc. — e mais adiante: "nossa mishná: disse Rabi Yehoshua ben Korcha" etc. "Que mesmo que o chefe do tribunal estivesse em qualquer lugar" — pois, por vezes, ele se via obrigado a se afastar do local da reunião para outro lugar, e a essência da santificação do mês depende dele, como aprendemos no perek anterior — "o chefe do tribunal diz: santificado" — e isso se deriva dos versos bíblicos. "Não estariam" — as testemunhas do novo mês não precisariam segui-lo pessoalmente aonde quer que fosse. "Senão ao local da reunião" — da sessão habitual, elas iriam, e o próprio Sinédrio santificaria o mês mesmo sem a presença física de seu chefe.