Rabi Shimon ben Nanás diz: estende-se pele de cabrito — úmida, recém-tirada do animal — sobre a arca, a caixa e o armário — três tipos de móveis de madeira, do maior ao menor — que pegaram fogo — já atingidos pelas chamas — pois ela chamusca — a pele apenas queima superficialmente sem se incendiar por completo, protegendo assim a madeira por baixo dela, e isso não se considera apagar o fogo, mas apenas impedir que ele se espalhe. E faz-se anteparo com todos os utensílios — colocando-os enfileirados como barreira — cheios ou vazios — de água ou de qualquer outra coisa — para que o incêndio não passe — de um objeto a outro, de um cômodo a outro. Rabi Yosei proíbe com vasilhas de barro novas cheias de água — usar essas vasilhas especificamente como anteparo — porque não podem suportar o fogo, e elas racham e apagam o incêndio — pois vasilhas de barro novas, ainda não temperadas pelo uso, racham com o calor intenso e derramam a água, apagando as chamas de modo indireto — o que Rabi Yosei considera proibido mesmo sendo um efeito indireto (gerama).
Esta mishná apresenta uma nova categoria de ação: não mais o transporte de objetos, mas a proteção passiva dos bens contra o avanço do fogo. A disputa entre os sábios e Rabi Yosei gira em torno do conceito de gerama — causa indireta — aplicado ao apagamento das chamas.
Chamuscar não é apagar; anteparo não é extinguir. A Guemará (Shabat 120b) explica que a permissão de estender a pele de cabrito baseia-se na opinião de que o gerama de apagamento é permitido — isto é, uma ação cujo efeito indireto reduz o fogo, mas que em si mesma não é o ato de apagar, é tolerada em situação de perda iminente de bens. A pele não extingue o fogo; apenas absorve o calor superficialmente (מְחָרֵךְ, "chamusca") sem se consumir de imediato, protegendo o que está por baixo. Já Rabi Yosei, que proíbe as vasilhas novas cheias de água, entende que mesmo esse efeito indireto de apagamento — quando previsível e inevitável, como o estouro de uma vasilha nova ao calor — deve ser evitado, pois equivale, na prática, a apagar o fogo deliberadamente.
O Rambam não dedica halachá específica a este caso do anteparo — que trata de uma disputa entre tanaim sobre gerama de apagamento não decidida a favor de Rabi Yosei — mas reafirma, no contexto do salvamento de bens, o princípio geral de que se pode usar objetos, cheios ou vazios, para proteger a propriedade sem tocar diretamente no fogo.
Os comentadores explicam os três tipos de móveis mencionados, o significado de "chamuscar", e a razão da proibição de Rabi Yosei quanto às vasilhas novas.
"Rabi Shimon ben Nanás diz: estende-se pele de cabrito etc." — "arca" tem forma conhecida entre nós, sendo uma caixa pequena; e "caixa" também é conhecida. E "armário" é um depósito de madeira conhecido entre nós, chamado em árabe manxar.
E o que disseram "pois ela chamusca" ensina-te a utilidade de se estender a pele de cabrito: que ela chamusca e não se inflama, impedindo que o fogo alcance a madeira.
E Rabi Yosei entende que o gerama de apagamento é proibido, mesmo em hora de queda do fogo. E a halachá não segue Rabi Yosei.
"Arca" — feita como uma espécie de baú.
"Caixa" — pequena, dos cambistas.
"E armário" — armário em francês antigo, e em árabe manxar; e as três são de madeira.
"Pois ela chamusca" — e o fogo não se prende nela, e assim se salva o utensílio de madeira de ser queimado.
"Cheios" — de água.
"Que não podem suportar o fogo" — porque são novas; e Rabi Yosei entende que o gerama de apagamento é proibido mesmo em lugar de perda de bens. E a halachá não segue Rabi Yosei.
"Mishná: pele de cabrito" — úmida.
"Pois ela chamusca" — pelo fogo, e em francês antigo "retreint" (encolhe), e não se queima; e por isso protege a arca.
"Cheios" — de água.
"Que não podem suportar a força do fogo" — porque são novas.
Guemará: "isto é conforme Rabi Shimon" — que permite deter o incêndio com pele de cabrito.