Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Hei · Mishná 3

Com que os animais não saem: amarras e cordas na mão

וּבַמָּה אֵינָהּ יוֹצְאָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Início da parte negativa: com que o animal não sai — o camelo não sai com correia sob a cauda, nem amarrado, nem com as patas dobradas; não se amarram vários camelos juntos para puxá-los em fileira; mas é permitido segurar as cordas soltas na mão, desde que não as entrelace

E com que o animal não sai? Não sai o camelo com a correia presa sob a cauda, para segurar a sela — pois teme-se que caia e o dono venha a carregá-la, nem com as patas dianteiras amarradas, nem com as patas dianteira e traseira dobradas e atadas uma à outra, e assim também todos os demais animais. Não se amarra um camelo a outro para puxá-los em fileira, mas é permitido segurar as cordas soltas na mão e puxá-las, contanto que não as entrelace umas nas outras, formando um só nó, o que pareceria estar levando-as ao mercado.

וּבַמָּה אֵינָהּ יוֹצְאָה. לֹא יֵצֵא גָמָל בִּמְטוּטֶלֶת, לֹא עָקוּד וְלֹא רָגוּל, וְכֵן שְׁאָר כָּל הַבְּהֵמוֹת. לֹא יִקְשֹׁר גְּמַלִּים זֶה בָזֶה וְיִמְשֹׁךְ. אֲבָל מַכְנִיס חֲבָלִים לְתוֹךְ יָדוֹ וְיִמְשֹׁךְ, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִכְרֹךְ:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A partir desta Mishná, o Perek Hei muda de foco: em vez de listar o que é permitido, passa a listar o que é proibido — casos em que o objeto no animal deixa de ser adorno ou proteção e se torna carga, ou em que a aparência do ato lembra uma atividade proibida (levar animais ao mercado para vender).

Devarim (Deuteronômio) 5:14
וְיוֹם הַשְּׁבִיעִי שַׁבָּת לַה׳ אֱלֹהֶיךָ, לֹא תַעֲשֶׂה כָל מְלָאכָה אַתָּה וּבִנְךָ וּבִתֶּךָ וְעַבְדְּךָ וַאֲמָתְךָ וְשׁוֹרְךָ וַחֲמֹרְךָ וְכָל בְּהֶמְתֶּךָ וְגֵרְךָ אֲשֶׁר בִּשְׁעָרֶיךָ, לְמַעַן יָנוּחַ עַבְדְּךָ וַאֲמָתְךָ כָּמוֹךָ
"E o sétimo dia é Shabat para Hashem, teu Deus: não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu boi, nem teu burro, nem nenhum dos teus animais, nem teu convertido que está em tuas portas, para que descanse teu servo e tua serva como tu."

Por que esta Mishná gira em torno deste versículo. Devarim especifica "teu boi... teu burro... e todo o teu animal", reforçando que o repouso animal se estende a todo tipo de behemá e não apenas a um caso genérico. A proibição de amarrar vários camelos em fileira, mesmo sem carregar nada de fato, ilustra um segundo nível dessa proteção: não basta que o animal não esteja fisicamente carregando algo proibido — o próprio ato não pode ter a aparência de uma atividade de trabalho, como conduzir uma caravana comercial ao mercado. Já a permissão de segurar as cordas soltas na mão, desde que não entrelaçadas, mostra que os Sábios buscaram um equilíbrio: permitir o manejo prático e necessário dos animais sem abrir a porta para o que pareceria, aos olhos de quem vê, uma transação de trabalho no Shabat.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam — a proibição da correia sob a cauda e das patas amarradas, e a regra de segurar cordas soltas sem entrelaçá-las.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 20:15
אֵין הַגָּמָל יוֹצֵא בִּמְטוּטֶלֶת שֶׁמָּא תִּפֹּל וְיָבִיאֶנָּה. וְלֹא יֵצֵא עָקוּד יָדַיִם וְלֹא רָגוּל שֶׁמָּא יִצְטָרֵךְ לְהַתִּירוֹ בְּשַׁבָּת. וְכֵן כָּל כַּיּוֹצֵא בָּזֶה מִשְּׁאָר הַבְּהֵמוֹת.
O camelo não sai com a correia sob a cauda, temendo-se que caia e ele venha a trazê-la de volta com a mão. E não sai com as mãos (patas dianteiras) amarradas, nem com as patas dobradas, temendo-se que precise soltá-lo no Shabat e venha a carregar a amarra. E assim também todos os demais animais semelhantes a este.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 20:15
לֹא יִקְשֹׁר אָדָם גְּמַלִּים זֶה בָּזֶה וְיִמְשֹׁךְ בְּשַׁבָּת, גְּזֵרָה שֶׁמָּא יַעֲשֶׂה כֵּן בְּחֻלּוֹ שֶׁל מוֹעֵד. אֲבָל מַכְנִיס חֲבָלִים לְתוֹךְ יָדוֹ וּמוֹשֵׁךְ בָּהֶם כַּמָּה גְּמַלִּים, וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִכְרֹךְ הַחֲבָלִים זֶה בָּזֶה.
Ninguém deve amarrar camelos um ao outro e puxá-los em fileira no Shabat, como decreto preventivo, receando-se que venha a fazer o mesmo no meio dos dias intermediários das festas (chol hamoed). Mas é permitido meter as cordas dentro da mão e puxar por elas vários camelos, contanto que não entrelace as cordas umas nas outras.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre metutelet, akud e ragul, e o motivo pelo qual entrelaçar as cordas é proibido — uma razão ligada não ao Shabat, mas à proibição de misturas (kilayim).

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 5:3
מטוטלת חתיכת בגד קשורה בזנב הבהמה לסימן או לסגולה לשום דבר. ועקוד קשור היד והרגל יחד. ורגול הוא שיכפפו היד על הזרוע ויקשרו אותו... ולא יקשור גמלים זה בזה וימשוך ואפי' היו קשורין מערב שבת כדי שלא יראה כמי שמוליכין למקום שוק הבהמות... וזה המאמר שאמר ובלבד שלא יכרוך אינו תלוי בשבת בלבד אלא בשבת ובשאר ימים כי הטעם משום כלאים... ומה שהתיר בשאר חבלים בשבת בתנאי שלא יהיו ראשי החבלים תלויין ויוצאין מתחת ידו לארץ טפח או יותר כדי שלא יראה כמי שנושא חבלים תלוים מידו.

Metutelet é um pedaço de pano amarrado na cauda do animal, como sinal ou para alguma outra finalidade. E akud é a pata dianteira amarrada junto com a traseira. E ragul é quando se dobra a pata dianteira sobre o antebraço do animal e se amarra.

"Não se amarra um camelo a outro para puxá-los" — mesmo que estivessem amarrados desde a véspera de Shabat — para que não pareça estar conduzindo-os ao mercado de venda de animais como se fosse dia de comércio. E o que se disse "contanto que não entrelace" não se refere apenas ao Shabat, mas ao Shabat e aos demais dias, pois o motivo é por causa de kilayim (mistura proibida de espécies em tecidos) — pois quando as cordas com que se conduz o animal são em parte de lã e em parte de linho, é proibido entrelaçá-las e amarrá-las juntas.

E o que se permitiu quanto às demais cordas no Shabat é sob a condição de que as pontas das cordas não fiquem penduradas e saindo de baixo da mão em direção ao chão por um palmo ou mais, para que não pareça estar carregando cordas penduradas na mão.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 5:3
מטוטלת – חתיכת בגד קשורה בזנבו לסימן או לדבר אחר: עקוד – קושרין ידיהם ורגליהם בשלשלאות כדי שלא יברחו: רגול – כופף ידו על זרועו וקושרה: לא יקשור גמלים זה בזה וימשוך – אחד וכולן הולכות כדי שלא יראה כמוליכן לשוק למוכרן: אבל מכניס הוא חבלים בתוך ידו – שלא יהיו ראשי החבלים תלויין ויוצאין מתחת ידיו לארץ טפח או יותר כדי שלא יראה כנושא חבלים תלוים בידו: ובלבד שלא יכרוך – אינו מדבר בענין שבת כאן אלא בענין כלאים.

"Metutelet": pedaço de pano amarrado na sua cauda como sinal ou para outra finalidade. "Akud": amarram suas mãos e pés com correntes para que não fujam. "Ragul": dobra sua mão sobre seu antebraço e a amarra.

"Não se amarra um camelo a outro para puxá-los": um só, e todos vão atrás dele, para que não pareça estar conduzindo-os ao mercado para vendê-los. "Mas mete as cordas dentro da mão": desde que as pontas das cordas não fiquem penduradas e saindo por baixo de suas mãos ao chão por um palmo ou mais, para que não pareça estar carregando cordas penduradas na mão.

"Contanto que não entrelace": este trecho não fala aqui do assunto do Shabat, mas do assunto de kilayim (misturas proibidas).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 54a
מתני' מטולטלת – י"מ פושל"א (רתמת זנב) שתחת זנבו וי"מ מרדעת והאחרון נראה בעיני דאי רצועה שתחת הזנב קשורה ומחוברת לסרגא ואיך תפול וטעמא דמתני' משום שמא תפול ומייתי לה הוא: לא עקוד ולא רגול – מפרש בגמ': ולא יקשור גמלים זו לזו וימשוך – האחד כדמפרש בגמרא: ובלבד שלא יכרוך – החבלים בכרך אחד ובגמרא מפרש טעמא.

"Nossa Mishná: 'Metutelet'" — Rashi apresenta duas interpretações: alguns explicam tratar-se da correia de retenção que passa sob a cauda (presa à sela), e outros explicam tratar-se da própria manta. E a última opinião parece correta aos seus olhos, pois, se fosse a correia sob a cauda, amarrada e ligada à sela, como cairia? Sendo que o motivo da Mishná é justamente o receio de que caia e o dono venha a trazê-la de volta carregando.

"Nem akud nem ragul" — os termos são explicados na Guemará com mais detalhe. "Não se amarra um camelo a outro para puxá-los" — um só se amarra à frente, e os demais seguem atrás, como se explica na Guemará.

"Contanto que não entrelace" — as cordas em um único enlace; e na Guemará se explica o motivo — tratando-se, como esclarece o Rambam, da proibição de misturar lã e linho.