Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Tet · Mishná 4

Untar-se é como beber, em Yom Kipur

מִנַּיִן לְסִיכָה שֶׁהִיא כַשְּׁתִיָּה בְיוֹם הַכִּפּוּרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O quarto ensinamento da série: a proibição de untar o corpo com óleo em Yom Kipur é equiparada à proibição de beber, apoiada apenas numa alusão poética de Tehilim, não numa prova bíblica formal

De onde se aprende que untar-seo corpo com óleoé como beber, em Yom Kipuristo é, proibido tal qual a bebida, embora sem a punição de caret que recai sobre quem come ou bebeainda que não haja prova cabal para o assunto, há uma alusão ao assunto, como está dito (Tehilim 109): "e penetrou como água em suas entranhas, e como óleo em seus ossos."

מִנַּיִן לְסִיכָה שֶׁהִיא כַשְּׁתִיָּה בְיוֹם הַכִּפּוּרִים, אַף עַל פִּי שֶׁאֵין רְאָיָה לַדָּבָר, זֵכֶר לַדָּבָר, שֶׁנֶּאֱמַר (תהלים קט) וַתָּבֹא כַמַּיִם בְּקִרְבּוֹ וְכַשֶּׁמֶן בְּעַצְמוֹתָיו:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A Mishná mesma adverte que este versículo não é uma prova formal, mas apenas uma alusão poética — o mesmo padrão retórico já visto na última mishná do Perek Chet, a respeito do caco de barro.

Tehilim (Salmos) 109:18
וַיִּלְבַּשׁ קְלָלָה כְּמַדּוֹ וַתָּבֹא כַמַּיִם בְּקִרְבּוֹ וְכַשֶּׁמֶן בְּעַצְמוֹתָיו
"E vestiu a maldição como sua veste, e ela penetrou como água em suas entranhas, e como óleo em seus ossos."

Por que este versículo é apenas uma alusão, e não uma prova. O salmo descreve a maldição de um inimigo penetrando profundamente seu corpo — "como água" e "como óleo" — colocando as duas imagens lado a lado, na mesma função de algo que se absorve internamente. A Guemará (Shabat 86a, ligada aqui pela cadeia de temas do capítulo) explica que a Mishná retoma explicitamente a expressão "ainda que não haja prova cabal para o assunto, há uma alusão ao assunto" — a mesma fórmula usada por Rabi Meir na última mishná do Perek Chet a respeito do caco de barro (8:7). Óleo e água são equiparados pelo poeta porque ambos penetram e se absorvem no corpo da mesma forma; dessa equiparação poética, os sábios extraem a analogia halachica de que untar o corpo com óleo produz, no organismo, um efeito comparável ao de beber água — e por isso é vedado em Yom Kipur, um dos cinco tipos de aflição (inuim) daquele dia.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica a proibição de untar-se em Yom Kipur, entre as cinco aflições do dia.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shevitat Asor 1:4-5
חֲמִשָּׁה דְּבָרִים אֲסוּרִים בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים: אֲסוּר בַּאֲכִילָה וּשְׁתִיָּה, וּבִרְחִיצָה, וּבְסִיכָה, וּבִנְעִילַת הַסַּנְדָּל, וּבְתַשְׁמִישׁ הַמִּטָּה... הַסִּיכָה בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים כִּשְׁתִיָּה, אָסוּר לָסוּךְ מִקְצָת גּוּפוֹ כִּמְעַט כָּל גּוּפוֹ.
Cinco coisas são proibidas em Yom Kipur: é proibido comer e beber, banhar-se, untar-se, calçar sandálias, e ter relações conjugais... A unção em Yom Kipur é como a bebida: é proibido untar até mesmo parte do corpo, quase como se untasse o corpo todo.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shevitat Asor 3:9
כָּל הָעֲבֵרוֹת שֶׁבַּתּוֹרָה, בֵּין עֲשֵׂה בֵּין לֹא תַעֲשֶׂה... חוּץ מֵאַרְבַּע עֲבֵרוֹת שֶׁאֵין בָּהֶן כָּרֵת אֶלָּא מַלְקוּת, וְהֵן: רְחִיצָה, וְסִיכָה, וּנְעִילַת הַסַּנְדָּל, וְתַשְׁמִישׁ הַמִּטָּה.
Todas as transgressões da Torá relativas a Yom Kipur cometidas intencionalmente são punidas com carét, exceto quatro transgressões que não têm carét, mas apenas açoites: banhar-se, untar-se, calçar sandálias e ter relações conjugais.

O detalhe legal central. A distinção sutil que a Mishná faz — "como beber", mas não idêntico a beber — é precisamente o ponto que o Rambam codifica: comer e beber em Yom Kipur, quando intencionais, são punidos com caret (extirpação), a pena mais grave prevista na Torá para transgressões sem testemunhas e advertência formal em tribunal. Já untar-se, banhar-se, calçar sandálias e ter relações conjugais — as outras quatro aflições — são proibidas, mas punidas apenas com açoites (malkot), uma pena de tribunal, indicando um grau de severidade bíblica menor. A Mishná capta exatamente essa nuance ao dizer que a unção é "como" a bebida — análoga em proibição, mas não idêntica em consequência.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores explicam por que a Mishná admite, de saída, que a prova não é conclusiva.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 9:4
אֵין רוֹצֶה בְּאָמְרוֹ כִּשְׁתִיָּה שֶׁיִּהְיֶה חַיָּב עָלֶיהָ כָּרֵת כְּמוֹ שֶׁהוּא חַיָּב עַל הַשְּׁתִיָּה, אֲבָל הַכַּוָּנָה שֶׁהוּא אָסוּר כְּמוֹ הַשְּׁתִיָּה, וְיִתְחַיֵּב עָלֶיהָ מַלְקוּת, כְּמוֹ שֶׁנְּבָאֵר בְּמַסֶּכֶת יוֹמָא.

Não se pretende, ao dizer "como beber", que se seja passível de caret por ela, como se é passível pela bebida; mas a intenção é que ela seja proibida como a bebida, e se seja passível por ela de açoites, como será explicado no tratado de Yoma.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 9:4
מִנַּיִן לְסִיכָה שֶׁהִיא כַשְּׁתִיָּה. לֹא כִּשְׁתִיָּה מַמָּשׁ לְחִיּוּבֵי עֲלַהּ כָּרֵת, אֶלָּא שֶׁהִיא אֲסוּרָה.

"De onde se aprende que untar-se é como beber" — não como beber de fato, a ponto de se ser passível de caret por ela, mas apenas que ela é proibida.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 86a — sobre o versículo de Tehilim citado na mishná anterior a este ponto do capítulo
כמים בקרבו וכשמן בעצמותיו - מקיש סיכה לשתיה:

"Como água em suas entranhas, e como óleo em seus ossos" — o versículo equipara a unção à bebida — colocando as duas imagens, água e óleo, na mesma frase e na mesma função poética de algo que penetra profundamente o corpo; dessa justaposição, e não de uma declaração explícita, a Guemará extrai a base para tratar a unção como halachicamente equivalente à bebida em Yom Kipur, ainda que apenas por alusão, e não por prova formal.