De onde se aprende que untar-se — o corpo com óleo — é como beber, em Yom Kipur — isto é, proibido tal qual a bebida, embora sem a punição de caret que recai sobre quem come ou bebe — ainda que não haja prova cabal para o assunto, há uma alusão ao assunto, como está dito (Tehilim 109): "e penetrou como água em suas entranhas, e como óleo em seus ossos."
A Mishná mesma adverte que este versículo não é uma prova formal, mas apenas uma alusão poética — o mesmo padrão retórico já visto na última mishná do Perek Chet, a respeito do caco de barro.
Por que este versículo é apenas uma alusão, e não uma prova. O salmo descreve a maldição de um inimigo penetrando profundamente seu corpo — "como água" e "como óleo" — colocando as duas imagens lado a lado, na mesma função de algo que se absorve internamente. A Guemará (Shabat 86a, ligada aqui pela cadeia de temas do capítulo) explica que a Mishná retoma explicitamente a expressão "ainda que não haja prova cabal para o assunto, há uma alusão ao assunto" — a mesma fórmula usada por Rabi Meir na última mishná do Perek Chet a respeito do caco de barro (8:7). Óleo e água são equiparados pelo poeta porque ambos penetram e se absorvem no corpo da mesma forma; dessa equiparação poética, os sábios extraem a analogia halachica de que untar o corpo com óleo produz, no organismo, um efeito comparável ao de beber água — e por isso é vedado em Yom Kipur, um dos cinco tipos de aflição (inuim) daquele dia.
Como o Rambam codifica a proibição de untar-se em Yom Kipur, entre as cinco aflições do dia.
O detalhe legal central. A distinção sutil que a Mishná faz — "como beber", mas não idêntico a beber — é precisamente o ponto que o Rambam codifica: comer e beber em Yom Kipur, quando intencionais, são punidos com caret (extirpação), a pena mais grave prevista na Torá para transgressões sem testemunhas e advertência formal em tribunal. Já untar-se, banhar-se, calçar sandálias e ter relações conjugais — as outras quatro aflições — são proibidas, mas punidas apenas com açoites (malkot), uma pena de tribunal, indicando um grau de severidade bíblica menor. A Mishná capta exatamente essa nuance ao dizer que a unção é "como" a bebida — análoga em proibição, mas não idêntica em consequência.
Os comentadores explicam por que a Mishná admite, de saída, que a prova não é conclusiva.
Não se pretende, ao dizer "como beber", que se seja passível de caret por ela, como se é passível pela bebida; mas a intenção é que ela seja proibida como a bebida, e se seja passível por ela de açoites, como será explicado no tratado de Yoma.
"De onde se aprende que untar-se é como beber" — não como beber de fato, a ponto de se ser passível de caret por ela, mas apenas que ela é proibida.
"Como água em suas entranhas, e como óleo em seus ossos" — o versículo equipara a unção à bebida — colocando as duas imagens, água e óleo, na mesma frase e na mesma função poética de algo que penetra profundamente o corpo; dessa justaposição, e não de uma declaração explícita, a Guemará extrai a base para tratar a unção como halachicamente equivalente à bebida em Yom Kipur, ainda que apenas por alusão, e não por prova formal.