Seder Nezikin · Massechet Shevuot · Perek Alef · Mishná 2 de 7

A oferenda ascendente-e-descendente e o esquecimento no meio

כֹּל שֶׁיֵּשׁ בָּהּ יְדִיעָה בַתְּחִלָּה וִידִיעָה בַסּוֹף
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa a detalhar, uma a uma, as quatro configurações de "consciência da impureza" anunciadas na mishná anterior — começando pela primeira e pela segunda.

Toda [impureza] em que há consciência no início e consciência no fim, com esquecimento no meio — eis que esta está sujeita à oferenda ascendente-e-descendente. Há nela consciência no início e não há nela consciência no fim: o bode que é feito por dentro e o Dia do Perdão suspendem, até que se lhe torne conhecido, e então ele trará a oferenda ascendente-e-descendente.A primeira configuração — a mais simples — é aquela em que a pessoa sabia, de início, que estava impura, depois esqueceu-se dessa impureza e, sem perceber, comeu carne sagrada ou entrou no Templo, e mais tarde voltou a se lembrar e tomou consciência de sua transgressão. Essa é a situação clássica prevista explicitamente pela Torá em Vayikrá 5, e obriga o transgressor a trazer a chamada "oferenda ascendente-e-descendente" (korban oleh veyored) — um sacrifício cujo tipo varia conforme a condição financeira do ofertante: um animal para o rico, duas aves para o pobre, e um décimo de efá de farinha para o mais pobre dos pobres. A segunda configuração é mais complexa: a pessoa tinha consciência de sua impureza no início, mas nunca chegou a recuperar essa consciência depois de cometer a transgressão — ou seja, ela nunca se tornou plenamente ciente de que pecou. Nesse caso, não há ainda obrigação de trazer sacrifício algum, pois o processo de expiação por meio da oferenda ascendente-e-descendente depende de uma consciência final que nunca ocorreu. Em vez disso, dois mecanismos coletivos e anuais entram em ação para "suspender" o castigo divino que, de outro modo, recairia sobre o transgressor inconsciente: o bode cujo sangue é levado ao Santo dos Santos no Dia do Perdão (Yom Kipur), e o próprio dia sagrado. Juntos, eles adiam a punição — mas não a apagam definitivamente — até que, algum dia, a pessoa finalmente descubra sua transgressão passada e então, sim, esteja obrigada a trazer a oferenda ascendente-e-descendente completa.

כֹּל שֶׁיֵּשׁ בָּהּ יְדִיעָה בַתְּחִלָּה וִידִיעָה בַסּוֹף וְהֶעְלֵם בֵּינְתַּיִם, הֲרֵי זֶה בְּעוֹלֶה וְיוֹרֵד. יֶשׁ בָּהּ יְדִיעָה בַתְּחִלָּה וְאֵין בָּהּ יְדִיעָה בַסּוֹף, שָׂעִיר שֶׁנַּעֲשֶׂה בִפְנִים וְיוֹם הַכִּפּוּרִים תּוֹלֶה, עַד שֶׁיִּוָּדַע לוֹ וְיָבִיא בְעוֹלֶה וְיוֹרֵד:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Shevuot 1:2
כָּל שֶׁיֵּשׁ בָּהּ יְדִיעָה בַתְּחִלָּה וִידִיעָה בַסּוֹף כוּ׳: וּמִמַּה שֶּׁאַתָּה צָרִיךְ לֵידַע, שֶׁעֹנֶשׁ טֻמְאַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו בְּמֵזִיד כָּרֵת, וּבְשׁוֹגֵג קָרְבָּן אָמְרָה רַחֲמָנָא, וְהֵבִיא אֶת אֲשָׁמוֹ לַה׳ וְגוֹ׳, וְאִם אִי אֶפְשָׁר לוֹ קָרְבָּן מִן הַצֹּאן — אֵין חַיָּב קָרְבָּן עַד שֶׁתִּהְיֶה לוֹ יְדִיעָה בַתְּחִלָּה וִידִיעָה בַסּוֹף וְהֶעְלֵם בֵּינְתַּיִם.

Rambam esclarece o pano de fundo legal desta mishná: a transgressão deliberada de entrar impuro no Templo ou comer alimentos sagrados em estado de impureza é punida com karet (extirpação espiritual); quando cometida por engano, a Torá impõe a obrigação de trazer sacrifício. Mas essa obrigação sacrificial, explica Rambam, só se ativa quando estão presentes as três condições exatas mencionadas na mishná: consciência no início, esquecimento durante o ato, e consciência renovada ao final — todas extraídas por dedução da linguagem precisa do versículo bíblico.

Bartenura · Shevuot 1:2
הֲרֵי זֶה בְּעוֹלֶה וְיוֹרֵד. עוֹלֶה לֶעָשִׁיר וְיוֹרֵד לֶעָנִי. עָשִׁיר מֵבִיא חַטַּאת בְּהֵמָה, וְעָנִי חַטַּאת הָעוֹף, וְדַל שֶׁבַּדַּלִּים עֲשִׂירִית הָאֵיפָה. שָׂעִיר הַנַּעֲשֶׂה בִפְנִים. שָׂעִיר שֶׁל יוֹם הַכִּפּוּרִים שֶׁמֵּבִיא מִדָּמוֹ לִפְנִים. תּוֹלֶה. לְהָגֵן עָלָיו מִן הַיִּסּוּרִין.

Bartenura explica o próprio nome da oferenda: ela "sobe" para o rico, que deve trazer um animal de rebanho, e "desce" para o pobre, que pode trazer aves — e para o mais pobre entre os pobres, basta um décimo de efá de farinha. Ele identifica o "bode feito por dentro" como o bode cujo sangue o Sumo Sacerdote leva ao interior do Santo dos Santos em Yom Kipur, e explica que sua função de "suspender" significa proteger provisoriamente o transgressor inconsciente dos sofrimentos que, de outro modo, o puniriam por sua transgressão ainda não descoberta.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Shevuot 2a, s.v. את שיש בה ידיעה
אֶת שֶׁיֵּשׁ בָּהּ יְדִיעָה — כּוּלֵּיהּ אַטֻּמְאָה קָאֵי, וּבַגְּמָרָא מְפָרֵשׁ אַמַּאי מְפָרֵשׁ מִלֵּי דְּטֻמְאָה בְּרֵישָׁא. יְדִיעָה בַתְּחִלָּה — שֶׁיָּדַע שֶׁנִּטְמָא. וִידִיעָה בַסּוֹף — מִשֶּׁאָכַל אֶת הַקֹּדֶשׁ בְּהֶעְלֵם אוֹ נִכְנַס לַמִּקְדָּשׁ וְיָצָא, וְנוֹדַע לוֹ שֶׁבְּטֻמְאָה אָכַל אוֹ בְּטֻמְאָה נִכְנַס. שָׂעִיר הַנַּעֲשֶׂה בִפְנִים — שְׁלֹשָׁה שְׂעִירִים נַעֲשִׂין לַצִּבּוּר בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים, אֶחָד מַתָּן דָּמוֹ לִפְנִים. תּוֹלֶה — לְהָגֵן עָלָיו מִן הַיִּסּוּרִין, שֶׁאַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ יוֹדֵעַ שֶׁחָטָא, יֵשׁ לוֹ לִדְאֹג, שֶׁכָּל הַשּׁוֹגְגִין צְרִיכִים כַּפָּרָה כְּשֶׁיֵּדְעוּ.

Rashi nota, primeiramente, que embora a mishná anterior tenha mencionado quatro temas diferentes (juramentos, impureza, shabat, chagas), é apenas o tema da impureza que a Guemará escolhe desenvolver aqui — os demais são remetidos a seus respectivos tratados. Ele define com precisão o que conta como "consciência no início" (saber que se está impuro) e "consciência no fim" (descobrir, depois do fato, que se comeu ou entrou impuro). Sobre a expressão "suspende", Rashi acrescenta uma observação teológica notável: mesmo sem saber que pecou, o transgressor tem motivo para inquietação, pois todo pecado cometido por engano exige eventual expiação assim que a pessoa vier a tomar consciência dele — o que implica que, de certo modo, já antes da consciência, a pessoa está sob algum grau de responsabilidade.