Seder Nezikin · Massechet Shevuot · Perek Guimel · Mishná 2 de 11

Pão de trigo, cevada e espelta: uma proibição ou várias

פַּת חִטִּין וּפַת שְׂעֹרִין וּפַת כֻּסְּמִין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuando o tema do juramento de expressão verbal, a mishná mostra que a forma exata da fala — mencionar cada item separadamente ou agrupá-los — determina se a transgressão múltipla gera uma só culpa ou várias.

Juramento de que não comerei — e comeu pão de trigo, e pão de cevada, e pão de espelta — não é culpado senão uma vez. Juramento de que não comerei pão de trigo, e pão de cevada, e pão de espelta — e comeu — é culpado por cada um e cada um.A diferença entre as duas cláusulas está inteiramente na formulação da fala. Na primeira, a pessoa jura de modo genérico — "não comerei" — sem especificar quais alimentos; ainda que depois coma três tipos diferentes de pão, todos caem sob a mesma proibição única, e uma única violação basta para consumir o juramento inteiro, de modo que comer os três tipos gera apenas uma culpa. Na segunda cláusula, porém, a pessoa enumera explicitamente cada tipo de pão — "não comerei pão de trigo, e pão de cevada, e pão de espelta" — repetindo a palavra "pão" antes de cada grão. Essa repetição não é estilística: ela revela a intenção de tratar cada tipo de pão como objeto de um juramento distinto e independente, como se a pessoa tivesse jurado três vezes separadamente. Por isso, quem come os três incorre em três culpas, uma para cada juramento embutido na fala repetida.

שְׁבוּעָה שֶׁלֹּא אֹכַל, וְאָכַל פַּת חִטִּין וּפַת שְׂעֹרִין וּפַת כֻּסְּמִין, אֵינוֹ חַיָּב אֶלָּא אַחַת. שְׁבוּעָה שֶׁלֹּא אֹכַל פַּת חִטִּין וּפַת שְׂעֹרִין וּפַת כֻּסְּמִין, וְאָכַל, חַיָּב עַל כָּל אַחַת וְאֶחָת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Shevuot 3:2
שבועה שלא אוכל ואכל פת חטין ופת שעורין כו׳: לפי שכפל פת שהיה יכול לומר שלא אוכל פת חטין וכן של שעורים וכן של כוסמין ובכפלו גלי אדעתיה שחייב עצמו שבועה על כל אחת ואחת מהן:

Rambam explica que a pessoa poderia ter dito apenas "pão de trigo, de cevada e de espelta" sem repetir a palavra "pão" a cada menção. Ao repeti-la deliberadamente, ela revelou sua própria intenção — que cada tipo de pão fosse objeto de uma obrigação juramentada distinta e independente.

Bartenura · Shevuot 3:2
חַיָּב עַל כָּל אַחַת וְאֶחָת. מִדְּקָאָמַר פַּת וּפַת עַל כָּל מִין וָמִין, שְׁמַע מִנַּהּ לְחַלֵּק. דְּאִי לֶאֱסֹר עָלָיו מִינִים הַלָּלוּ וְתוּ לֹא, הֲוָה לֵיהּ לְמֵימַר פַּת חִטִּים וְכֵן שֶׁל שְׂעֹרִים וְכֵן שֶׁל כֻּסְּמִין.

Bartenura chega à mesma conclusão de Rambam por caminho paralelo: do fato de a mishná repetir a palavra "pão" para cada espécie de grão, aprende-se que a intenção da fala foi dividir (lechalek) a proibição em juramentos separados — pois, se a intenção fosse apenas proibir esses tipos em bloco, sem dividi-los, bastaria dizer "pão de trigo, e de cevada, e de espelta", sem repetir a palavra "pão".

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · · רש״י
Shevuot 23b, s.v. ודלמא ע״י תערובת
וּדְלָמָא עַל יְדֵי תַּעֲרֹבֶת — אִי אָמַר הָכִי הֲוָה מַשְׁמַע שֶׁלֹּא יֹאכַל פַּת שֶׁיֵּשׁ בָּהּ כָּל הַמִּינִים הַלָּלוּ בְּעִרְבּוּבְיָא, אֲבָל שֶׁל כָּל מִין וּמִין בִּפְנֵי עַצְמוֹ יֹאכַל.

Rashi esclarece por que a mishná precisa insistir na repetição da palavra "pão" antes de cada tipo de grão: sem essa repetição, poder-se-ia entender que o juramento genérico visava apenas um pão feito da mistura de todos os grãos numa só massa, deixando livre o pão de cada tipo separado. É a repetição de "pão" — pão de trigo, pão de cevada, pão de espelta — que exclui essa leitura e estabelece a divisão em três proibições distintas.