Seder Nezikin · Massechet Shevuot · Perek Zayin · Mishná 5 de 8

O lojista e seu livro-caixa

וְהַחֶנְוָנִי עַל פִּנְקָסוֹ כֵּיצַד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quinto e último caso da lista aberta em 7:1: o lojista que jura com base em seu livro-caixa — não para cobrar diretamente do cliente por uma dívida registrada, mas num cenário mais específico, em que foi incumbido de entregar mercadoria a terceiros e surge dúvida sobre se a entrega ocorreu.

E o lojista sobre seu livro-caixa, como? Não que lhe diga: “Está escrito em meu livro-caixa que me deves duzentos zuz” — mas disse-lhe: “Dá a meu filho dois se’ah de trigo”, “dá a meu trabalhador um sela em moedas” — ele diz: “Já dei” — e eles dizem: “Não recebemos” — (ambos juram) — ele jura e recebe, e eles juram e recebem. Disse Ben Nanas: como podem estes chegar a um juramento em vão e aqueles chegar a um juramento em vão? Antes, ele recebe sem juramento, e eles recebem sem juramento.A mishná esclarece de imediato que o “juramento sobre o livro-caixa” não é o que se poderia supor à primeira vista — o lojista cobrando diretamente do cliente uma dívida anotada em seus registros, o que não bastaria como prova. O caso real é mais sutil: um pai (ou patrão) instrui o lojista a entregar mercadoria a seu filho ou trabalhador; o lojista afirma tê-lo feito, mas o filho ou trabalhador nega ter recebido. Como o pai já confirmou a ordem original, e o próprio filho/trabalhador confirma que a ordem existia, resta apenas a dúvida sobre a entrega em si — e, segundo a opinião anônima da mishná, tanto o lojista quanto o filho/trabalhador juram, cada um alegando sua própria versão, e ambos recebem: o lojista recebe do pai o valor da mercadoria, e o filho/trabalhador recebe dele a mercadoria (ou seu valor) que reivindica não ter recebido. Ben Nanas ataca essa solução com um argumento lógico incisivo: como pode a lei aceitar que ambos jurem, se logicamente apenas um dos dois pode estar dizendo a verdade — o outro estará necessariamente jurando em vão, profanando o Nome? Sua alternativa resolve o impasse eliminando o juramento de ambos os lados: cada um recebe sem jurar.

וְהַחֶנְוָנִי עַל פִּנְקָסוֹ כֵּיצַד, לֹא שֶׁיֹּאמַר לוֹ כָּתוּב עַל פִּנְקָסִי שֶׁאַתָּה חַיָּב לִי מָאתַיִם זוּז, אֶלָּא אָמַר לוֹ תֵּן לִבְנִי סָאתַיִם חִטִּין, תֵּן לְפוֹעֲלִי בְּסֶלַע מָעוֹת, הוּא אוֹמֵר נָתַתִּי וְהֵן אוֹמְרִים לֹא נָטַלְנוּ, (שְׁנֵיהֶן נִשְׁבָּעִים), הוּא נִשְׁבָּע וְנוֹטֵל וְהֵן נִשְׁבָּעִין וְנוֹטְלִין. אָמַר בֶּן נַנָּס, כֵּיצַד אֵלּוּ בָאִין לִידֵי שְׁבוּעַת שָׁוְא וְאֵלּוּ בָאִין לִידֵי שְׁבוּעַת שָׁוְא, אֶלָּא הוּא נוֹטֵל שֶׁלֹּא בִשְׁבוּעָה וְהֵן נוֹטְלִין שֶׁלֹּא בִשְׁבוּעָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Shevuot 7:5
והחנוני על פנקסו כיצד לא שיאמר לו כתוב כו': הטעם להטיל השבועה על החנוני מבואר לפי שהוא צוה לו שיתן וראוי שישבעו הפועלים או בנו במעמד החנוני שמא יתביישו קצתם מקצתם ואין הלכה כבן ננס:

Rambam explica a razão de se impor o juramento ao lojista: é evidente, pois foi o pai (ou patrão) quem lhe ordenou que desse a mercadoria. E convém que os trabalhadores, ou o filho, jurem na presença do próprio lojista, para que — caso um deles esteja mentindo — se envergonhem uns diante dos outros. E a halachá não segue Ben Nanas.