Seder Moed · Massechet Sucá · Perek Alef · Mishná 2 de 11

Quem faz sua sucá debaixo de uma árvore

הָעוֹשֶׂה סֻכָּתוֹ תַחַת הָאִילָן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Uma árvore frondosa já projeta sua própria sombra antes de qualquer sechach ser colocado sob ela; por isso, construir a sucá debaixo dela equivale a construí-la dentro de uma casa já coberta.

Quem faz sua sucá debaixo de uma árvore, é como se a tivesse feito dentro de casa.A folhagem da árvore já forma, por si mesma, uma cobertura que preexiste à construção da sucá — tal qual o teto de uma casa. Como o sechach precisa ser colocado com a finalidade específica de servir de cobertura da sucá, e não pode ser algo que já cobria o lugar de antemão, uma sucá erguida sob uma árvore é considerada como se estivesse dentro de uma casa: sua verdadeira cobertura não é o sechach que a pessoa colocou, mas a folhagem que já ali estava, e por isso é inválida.

הָעוֹשֶׂה סֻכָּתוֹ תַחַת הָאִילָן, כְּאִלּוּ עֲשָׂאָהּ בְּתוֹךְ הַבָּיִת:
Duas sucás empilhadas: a de cima, mais próxima do céu, é a que efetivamente cumpre a mitsvá; a de baixo tem sobre si dois tetos, e por isso é inválida — exceto se, segundo Rabi Yehuda, a de cima não for habitável.

Sucá sobre sucá, a de cima é válida, e a de baixo é inválida.Quando uma sucá é construída sobre o teto de outra sucá, apenas a superior — a que está diretamente sob o céu — é considerada válida, pois sua cobertura é de fato o único sechach entre ela e o céu aberto. A sucá inferior, por sua vez, tem sobre si dois tetos sobrepostos — o sechach da sucá de cima e o piso dessa mesma sucá —, e a Torá invalida a ideia de uma sucá construída sob outra sucá.

Rabi Yehuda diz: se não há moradia possível na de cima, a de baixo é válida.Rabi Yehuda introduz uma exceção: se o piso da sucá superior não é firme o suficiente para sustentar objetos como travesseiros e colchas — isto é, se ela não é realmente habitável —, então ela não é considerada um teto verdadeiro que desqualifique a sucá de baixo, e esta última é válida, pois na prática há apenas uma cobertura funcional, a de baixo.

סֻכָּה עַל גַּבֵּי סֻכָּה, הָעֶלְיוֹנָה כְשֵׁרָה, וְהַתַּחְתּוֹנָה פְּסוּלָה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אִם אֵין דִּיּוּרִין בָּעֶלְיוֹנָה, הַתַּחְתּוֹנָה כְּשֵׁרָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim 16:13
חַג הַסֻּכֹּת תַּעֲשֶׂה לְךָ שִׁבְעַת יָמִים, בְּאָסְפְּךָ מִגָּרְנְךָ וּמִיִּקְבֶךָ.
A festa das Sucot farás para ti, sete dias, quando ajuntares da tua eira e do teu lagar.

A expressão "farás para ti" é a base do princípio de que a sucá precisa ser um ato de construção genuíno, e não algo que resulta de uma cobertura que já existia antes. Debaixo de uma árvore, a sombra da folhagem já estava ali antes de qualquer intenção de fazer uma sucá; nada foi de fato "feito" com essa finalidade. É o mesmo princípio, aplicado de outro ângulo, que a mishná seguinte explicitará quanto a plantas ainda ligadas ao solo, e que a Guemará chama de regra geral: "farás" — e não a partir do que já estava feito.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam explica a condição exata em que se aplica a disputa entre Rabi Yehuda e os Sábios sobre a sucá inferior: apenas quando o teto da sucá de cima consegue sustentar peso com dificuldade, e apenas se o espaço entre os dois tetos é de dez palmos ou mais.

Rambam · Perush HaMishná, Sucá 1:2
רוֹצֶה בְּאָמְרוֹ דִּיּוּרִין, שֶׁלֹּא תְּהֵא רְאוּיָה לְדִירָה. וְהוּא, כִּי כְּשֶׁתִּהְיֶה הַתַּחְתּוֹנָה חַלָּשָׁה כָּל כָּךְ שֶׁאֵינָהּ יְכוֹלָה לִסְבֹּל בְּשׁוּם פָּנִים מַה שֶּׁפּוֹרְשִׁין עָלֶיהָ כָּרִים וּכְסָתוֹת, אֵין מַחְלֹקֶת כִּי הַתַּחְתּוֹנָה כְּשֵׁרָה, לְפִי שֶׁאָנוּ עַל גַּג הָעֶלְיוֹנָה נִסְמֹךְ. וְכָל זֶה בִּתְנַאי שֶׁיִּהְיֶה הֶחָלָל שֶׁבֵּין שְׁתֵּי הַגַּגּוֹת עֲשָׂרָה טְפָחִים אוֹ יוֹתֵר; אֲבָל פָּחוֹת מֵעֲשָׂרָה, תִּהְיֶה הַתַּחְתּוֹנָה כְּשֵׁרָה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

Ele quer dizer, ao falar em "moradia", que ela não seja apta para habitação. E isso ocorre quando a sucá de baixo é tão fraca que de forma alguma consegue sustentar o que se estende sobre ela — travesseiros e colchas —; nesse caso não há disputa, e a de baixo é válida, pois consideramos que nos apoiamos no teto da de cima. E tudo isso desde que o espaço entre os dois tetos seja de dez palmos ou mais; mas, se for menos de dez, a de baixo é válida de qualquer forma. E não se decide a halachá como Rabi Yehuda.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha os três níveis de firmeza do teto da sucá superior — totalmente incapaz, totalmente capaz, ou capaz apenas com dificuldade — e onde exatamente se situa a disputa entre o Tana Kama e Rabi Yehuda; Rashi, na Guemará, explica por que o versículo invalida especificamente uma sucá debaixo de outra sucá.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Sucá 1:2
אִם אֵין דִּיּוּרִין בָּעֶלְיוֹנָה. שֶׁאֵינָהּ רְאוּיָה לְדִירָה, כְּגוֹן שֶׁאֵין גַּג הַתַּחְתּוֹנָה יְכוֹלָה לִסְבֹּל כָּרִים וּכְסָתוֹת שֶׁל עֶלְיוֹנָה. וְלֹא נֶחְלְקוּ תַּנָּא קַמָּא וְרַבִּי יְהוּדָה כְּשֶׁאֵינָהּ יְכוֹלָה לִסְבֹּל כְּלָל, דִּבְהָא כֻּלֵּי עָלְמָא מוֹדוּ שֶׁהַתַּחְתּוֹנָה כְּשֵׁרָה. וְאִם הִיא בְּרִיאָה וִיכוֹלָה לְקַבֵּל, כֻּלֵּי עָלְמָא לֹא פְּלִיגֵי שֶׁהִיא פְּסוּלָה. כִּי פְּלִיגֵי כְּשֶׁיְּכוֹלָה לְקַבֵּל עַל יְדֵי הַדְּחָק.

"Se não há moradia possível na de cima" — isto é, se ela não é apta para habitação, como quando o teto da sucá de baixo não consegue sustentar os travesseiros e colchas da de cima. E o Tana Kama e Rabi Yehuda não discordam quando ela não consegue sustentar de forma alguma — nesse caso, todos concordam que a de baixo é válida, pois nos apoiamos no teto de cima como se fosse uma laje sólida. E se ela é firme e consegue sustentar plenamente, todos concordam que a de baixo é inválida, pois há de fato dois tetos. A disputa surge apenas quando ela consegue sustentar com dificuldade — quando o teto da de baixo balança e range sob o peso dos travesseiros e colchas de cima.

O Tana Kama entende que, mesmo nesse caso intermediário, já se considera "sucá sob sucá", e a de baixo é inválida; Rabi Yehuda entende que, como ela só sustenta com dificuldade, o teto de cima não é considerado um teto verdadeiro, e por isso não há aqui uma sucá sob outra sucá. E não se decide a halachá como Rabi Yehuda.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Sucá 9b
מַתְנִי' כְּאִלּוּ עֲשָׂאָהּ בְּתוֹךְ הַבַּיִת — וּפְסוּלָה, כִּדְתַנְיָא בַּבָּרַיְיתָא בַּגְּמָרָא. הַתַּחְתּוֹנָה פְּסוּלָה — דִּשְׁנֵי סְכָכִין יֵשׁ לָהּ, וּקְרָא פָּסִיל סֻכָּה תַּחַת סֻכָּה כִּדִלְקַמָּן. אִם אֵין דִּיּוּרִין — בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ לָהּ.

"Mishná: como se a tivesse feito dentro de casa" — e é inválida, como se ensina numa baraita na Guemará. "A de baixo é inválida" — pois ela tem dois tetos sobre si, e o versículo invalida uma sucá debaixo de outra sucá, como se explica adiante. "Se não há moradia" — a Guemará explica essa expressão.