Seder Moed · Massechet Sucá · Perek Bet · Mishná 1 de 9

Quem dorme debaixo da cama na sucá

הַיָּשֵׁן תַּחַת הַמִּטָּה בַסֻּכָּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abre o Perek Bet: uma cama inteira, com dez palmos de altura, constitui por si mesma uma tenda que se interpõe entre quem dorme sob ela e a cobertura da sucá — por isso quem ali dorme não cumpre sua obrigação. Rabi Yehudá relata um costume que parecia contradizer essa regra.

Quem dorme debaixo da cama na sucá não cumpriu sua obrigação.Uma cama inteira tem, por si só, a altura suficiente para ser considerada uma tenda; assim, quem dorme sob ela dorme, na verdade, sob uma tenda dentro da sucá — essa tenda intermediária se interpõe entre ele e o sechach, de modo que ele não está, propriamente, sob o teto da sucá. E o essencial da mitzvá da sucá é comer, beber e dormir sob a cobertura mesma.

Disse Rabi Yehudá: costumávamos dormir debaixo da cama na presença dos anciãos, e eles não nos disseram nada.Rabi Yehudá relata um costume próprio, observado pelos sábios mais velhos sem que houvesse objeção — silêncio que, para ele, valida a prática, pois entende que uma tenda temporária, como a formada por uma cama, não anula o estatuto de tenda permanente que pertence à sucá.

הַיָּשֵׁן תַּחַת הַמִּטָּה בַסֻּכָּה, לֹא יָצָא יְדֵי חוֹבָתוֹ. אָמַר רַבִּי יְהוּדָה, נוֹהֲגִין הָיִינוּ, שֶׁהָיִינוּ יְשֵׁנִים תַּחַת הַמִּטָּה בִּפְנֵי הַזְּקֵנִים, וְלֹא אָמְרוּ לָנוּ דָבָר.
Rabi Shimon responde com o caso de Tavi, servo de Rabán Gamliel, que dormia debaixo da cama justamente porque, sendo servo, estava isento da sucá — e, por essa via indireta, confirma-se a regra que abre a mishná.

Disse Rabi Shimon: houve um caso com Tavi, servo de Rabán Gamliel, que dormia debaixo da cama, e Rabán Gamliel disse aos anciãos: vistes Tavi, meu servo? Ele é um sábio erudito e sabe que os servos estão isentos da sucá; por isso ele dorme debaixo da cama.Rabán Gamliel demonstra, ao comentar o comportamento de seu próprio servo — um homem versado na lei —, que a isenção que recai sobre os servos é o que permite a Tavi dormir fora da cobertura da sucá propriamente dita, já que, de todo modo, ele não está obrigado à mitzvá.

E, por nosso próprio caminho, aprendemos que quem dorme debaixo da cama não cumpriu sua obrigação.Rabi Shimon extrai do relato de Rabán Gamliel — dito de passagem, por mera conversa cotidiana, sem intenção de ensinar — a confirmação halachica de que dormir debaixo da cama não cumpre a mitzvá: se Tavi precisou recorrer à isenção dos servos para justificar seu costume, é sinal de que, para quem está obrigado, tal prática não basta.

אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן, מַעֲשֶׂה בְטָבִי עַבְדּוֹ שֶׁל רַבָּן גַּמְלִיאֵל שֶׁהָיָה יָשֵׁן תַּחַת הַמִּטָּה, וְאָמַר לָהֶן רַבָּן גַּמְלִיאֵל לַזְּקֵנִים, רְאִיתֶם טָבִי עַבְדִּי, שֶׁהוּא תַלְמִיד חָכָם וְיוֹדֵעַ שֶׁעֲבָדִים פְּטוּרִין מִן הַסֻּכָּה, לְפִיכָךְ יָשֵׁן הוּא תַּחַת הַמִּטָּה. וּלְפִי דַרְכֵּנוּ לָמַדְנוּ, שֶׁהַיָּשֵׁן תַּחַת הַמִּטָּה, לֹא יָצָא יְדֵי חוֹבָתוֹ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayicrá 23:42-43
בַּסֻּכֹּת תֵּשְׁבוּ שִׁבְעַת יָמִים... לְמַעַן יֵדְעוּ דֹרֹתֵיכֶם כִּי בַסֻּכּוֹת הוֹשַׁבְתִּי אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל.
Em sucot habitareis sete dias... para que saibam vossas gerações que em sucot fiz habitar os filhos de Israel.

A mishná que abre o Perek Bet retoma o princípio de que habitar na sucá significa viver sob a cobertura mesma, e não sob qualquer estrutura interposta entre a pessoa e o sechach. A Guemará explica que uma cama de dez palmos de altura tem, por si própria, o status de "tenda" — e uma tenda dentro de outra tenda separa quem está embaixo da cobertura principal. O caso de Tavi mostra, por caminho indireto, que a regra permanece válida mesmo para quem, como um servo, está isento da mitzvá: sua isenção é o que lhe permite dormir sob a cama sem que isso constitua transgressão, precisamente porque, para quem é obrigado, tal prática não cumpre a sucá.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam fixa a medida exata que faz da cama uma "tenda dentro da tenda", e decide contra Rabi Yehudá; Bartenura explica por que os servos, como as mulheres, estão isentos da sucá.

Rambam · Perush HaMishná, Sucá 2:1
וְצָרִיךְ שֶׁיִּהְיֶה גֹּבַהּ הַמִּטָּה י׳ טְפָחִים, שֶׁהוּא שִׁעוּר סֻכָּה, וּתְהֵא כְּסֻכָּה בְּתוֹךְ סֻכָּה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

E é necessário que a altura da cama seja de dez palmos — que é a medida mínima de uma sucá —, e assim ela é como uma sucá dentro de outra sucá. E a halachá não é como Rabi Yehudá.

Bartenura · Sucá 2:1
עֲבָדִים פְּטוּרִים מִן הַסֻּכָּה, דְּמִצְוַת עֲשֵׂה שֶׁהַזְּמַן גְּרָמָא נָשִׁים פְּטוּרוֹת, וְכָל מִצְוָה שֶׁהָאִשָּׁה חַיֶּבֶת בָּהּ עֶבֶד חַיָּב בָּהּ.

Os servos estão isentos da sucá, pois toda mitzvá positiva vinculada ao tempo isenta as mulheres, e toda mitzvá em que a mulher é obrigada, o servo também é obrigado — mas a sucá, sendo vinculada ao tempo, isenta ambos igualmente.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica o essencial da mitzvá — comer, beber e dormir sob a cobertura mesma —; Rashi, na Guemará, esclarece por que o silêncio dos anciãos validou o costume de Rabi Yehudá e por que o relato de Rabán Gamliel, mesmo informal, tem valor de ensino.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Sucá 2:1
הַיָּשֵׁן. לֹא יָצָא יְדֵי חוֹבָתוֹ. וּבִלְבַד שֶׁתְּהֵא הַמִּטָּה גְּבוֹהָה עֲשָׂרָה טְפָחִים, דְּאָז הִיא חֲשׁוּבָה אֹהֶל, וְנִמְצָא אֹהֶל מַפְסִיק בֵּינוֹ לְבֵין הַסֻּכָּה. וְעִקַּר מִצְוַת סֻכָּה אֲכִילָה שְׁתִיָּה שֵׁינָה. נוֹהֲגִים הָיִינוּ כוּ׳. דְּקָסָבַר לֹא אָתֵי אֹהֶל עֲרַאי וּמְבַטֵּל אֹהֶל קֶבַע. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

"Quem dorme" — não cumpriu sua obrigação, e isso desde que a cama tenha dez palmos de altura, pois só então ela é considerada uma tenda, e há uma tenda que se interpõe entre ele e a sucá. E o essencial da mitzvá da sucá é comer, beber e dormir.

"Costumávamos etc." — pois Rabi Yehudá entendia que uma tenda temporária não vem e anula uma tenda permanente. E a halachá não é como Rabi Yehudá.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Sucá 20b
מַתְנִי׳ הַיָּשֵׁן לֹא יָצָא — דְּאֹהֶל מַפְסִיק בֵּינוֹ לַסֻּכָּה, וְעִקַּר יְשִׁיבַת הַסֻּכָּה אֲכִילָה שְׁתִיָּה וּשְׁתִיָּה. מַעֲשֶׂה בְטָבִי עַבְדּוֹ — וַעֲבָדִים פְּטוּרִין מִן הַסֻּכָּה, דְּמִצְוַת עֲשֵׂה שֶׁהַזְּמַן גְּרָמָא נָשִׁים פְּטוּרוֹת, וְכָל שֶׁהָאִשָּׁה חַיֶּבֶת עֶבֶד נַמִּי חַיָּב. וּלְפִי דַרְכֵּנוּ לָמַדְנוּ — כְּלוֹמַר אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא אָמַר לָנוּ לְשֵׁם לִמּוּד, אֶלָּא לְשִׂיחַת חֻלִּין בְּעָלְמָא, שֶׁהָיָה מִשְׁתַּבֵּחַ בְּעַבְדּוֹ לִבְדִיחוּתָא בְּעָלְמָא, לָמַדְנוּ עַל פִּי דֶּרֶךְ בְּדִיחוּתוֹ שֶׁהַיָּשֵׁן תַּחַת הַמִּטָּה לֹא יָצָא יְדֵי חוֹבָתוֹ.

"Mishná: quem dorme não cumpriu" — pois uma tenda se interpõe entre ele e a sucá, e o essencial da permanência na sucá é comer, beber e dormir. "Houve um caso com Tavi, seu servo" — e os servos estão isentos da sucá, pois toda mitzvá positiva vinculada ao tempo isenta as mulheres, e toda mitzvá em que a mulher é obrigada, o servo também é obrigado.

"E por nosso próprio caminho aprendemos" — ou seja: ainda que Rabán Gamliel não tenha falado com intenção de ensinar, mas apenas por conversa cotidiana, gabando-se de seu servo em tom de brincadeira, aprendemos, por essa via de sua brincadeira, que quem dorme debaixo da cama não cumpre sua obrigação.