Seder Moed · Massechet Sucá · Perek Bet · Mishná 2 de 9

Quem apoia sua sucá nos pés da cama

הַסּוֹמֵךְ סֻכָּתוֹ בְּכַרְעֵי הַמִּטָּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Uma sucá cujo sechach se apoia nos pés de uma cama, e não em suportes próprios, é válida — desde que a cama sirva apenas de suporte, sem que ela mesma seja considerada parte estrutural da sucá; Rabi Yehudá discorda, exigindo autonomia estrutural completa.

Quem apoia sua sucá nos pés da cama, é válida.Quando o sechach de uma sucá está apoiado sobre os pés de uma cama, em vez de sobre postes ou paredes próprias, a sucá é ainda assim válida, pois basta que o material de cobertura esteja sustentado de algum modo — mesmo que o suporte seja um objeto móvel como uma cama.

Rabi Yehudá diz: se ela não consegue ficar de pé por si mesma, é inválida.Para Rabi Yehudá, que entende que a sucá deve ser uma habitação permanente, é necessário que a estrutura da sucá — paredes e cobertura — seja capaz de se sustentar independentemente da cama; se a sucá desaba assim que a cama é removida, falta-lhe a estabilidade própria de uma habitação, e ela é inválida.

הַסּוֹמֵךְ סֻכָּתוֹ בְּכַרְעֵי הַמִּטָּה, כְּשֵׁרָה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אִם אֵינָהּ יְכוֹלָה לַעֲמֹד בִּפְנֵי עַצְמָהּ, פְּסוּלָה.
Duas outras validações: a sucá desalinhada — cujos ramos de sechach sobem e descem irregularmente —, contanto que a sombra ainda predomine sobre o sol; e a sucá densa como o teto de uma casa, mesmo que as estrelas não sejam visíveis através dela.

Uma sucá desalinhada, cuja sombra é maior que o sol, é válida.Uma sucá cujo sechach não foi disposto de modo uniforme — com ramos que ora sobem, ora descem, deixando aberturas irregulares — permanece válida, contanto que, avaliando-a como se os ramos estivessem nivelados, a área de sombra ainda supere a área exposta ao sol.

A densa como uma casa, mesmo que as estrelas não sejam visíveis através dela, é válida.Uma sucá cujo sechach é tão espesso que nem sequer as estrelas se veem através dele continua válida — a densidade excessiva não é motivo de invalidação, pois o requisito é que a sombra predomine sobre o sol, e não que haja uma medida máxima de cobertura.

סֻכָּה הַמְדֻבְלֶלֶת, וְשֶׁצִּלָּתָהּ מְרֻבָּה מֵחַמָּתָהּ, כְּשֵׁרָה. הַמְעֻבָּה כְמִין בַּיִת, אַף עַל פִּי שֶׁאֵין הַכּוֹכָבִים נִרְאִים מִתּוֹכָהּ, כְּשֵׁרָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayicrá 23:42-43
בַּסֻּכֹּת תֵּשְׁבוּ שִׁבְעַת יָמִים... לְמַעַן יֵדְעוּ דֹרֹתֵיכֶם כִּי בַסֻּכּוֹת הוֹשַׁבְתִּי אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל.
Em sucot habitareis sete dias... para que saibam vossas gerações que em sucot fiz habitar os filhos de Israel.

A disputa entre o Tana Kama e Rabi Yehudá sobre a cama como suporte reflete, mais uma vez, a questão de fundo do perek: o que faz de uma estrutura uma "sucá" válida, um lugar em que "habitar" tem sentido pleno. O Tana Kama contenta-se com a existência de sombra suficiente, ainda que o suporte seja instável; Rabi Yehudá insiste que a estrutura deve poder se sustentar por si mesma, como convém a uma habitação. Já as duas últimas cláusulas tratam da qualidade do próprio sechach: a irregularidade da disposição dos ramos e sua espessura não invalidam a sucá, desde que a proporção essencial — mais sombra que sol — se mantenha.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam explica a lógica de Rabi Yehudá — a exigência de habitação permanente — e define precisamente o que é uma sucá medubelet; a halachá não segue Rabi Yehudá em nenhuma das duas disputas do perek.

Rambam · Perush HaMishná, Sucá 2:2
רַבִּי יְהוּדָה סָבַר סֻכָּה דִּירַת קֶבַע בָּעִינַן, וּכְבָר קָדַם לְךָ דַּעְתּוֹ, וּלְפִיכָךְ הוּא מַצְרִיךְ שֶׁתְּהֵא יְכוֹלָה לַעֲמֹד בִּפְנֵי עַצְמָהּ. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

Rabi Yehudá entende que a sucá deve ser uma habitação permanente — como já se conhece de sua opinião anterior —, e por isso ele exige que ela consiga ficar de pé por si mesma. E a halachá não é como Rabi Yehudá.

Rambam · Perush HaMishná, Sucá 2:2 (continuação)
הַמְדֻבְלֶלֶת הוּא שֶׁיִּהְיֶה גַּג שֶׁלָּהּ אֵינוֹ שָׁוֶה, אֶלָּא קָנֶה עוֹלֶה וְקָנֶה יוֹרֵד.

A sucá "desalinhada" é aquela cujo teto não é uniforme, mas tem um ramo que sobe e outro que desce — e mesmo assim, se ao nivelá-los mentalmente a sombra prevalecer, ela é válida.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha o critério de "ver como se estivesse nivelado" para a sucá desalinhada; Rashi, na Guemará, explica por que apoiar-se nos pés da cama não desqualifica a sucá e distingue as duas leituras tanaíticas sobre a medubelet.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Sucá 2:2
מְדֻבְלֶלֶת. שֶׁלֹּא הִשְׁכִּיב הַקָּנִים יַחַד זֶה אֵצֶל זֶה, אֶלָּא קָנֶה עוֹלֶה וְקָנֶה יוֹרֵד, וּמִתּוֹךְ כָּךְ חַמָּתָהּ מְרֻבָּה מִצִּלָּתָהּ, וְאַשְׁמְעִינַן מַתְנִיתִין דְּאָמְרִינַן רוֹאִים כְּאִלּוּ הָיוּ מֻשְׁכָּבִים בְּשָׁוֶה, וְאִם אָז צִלָּתָהּ מְרֻבָּה כְּשֵׁרָה.

"Desalinhada" — quando não se dispuseram os ramos lado a lado de modo uniforme, mas um sobe e outro desce, de forma que, à primeira vista, o sol prevalece sobre a sombra; e a mishná nos ensina que se avalia como se estivessem nivelados, e se então a sombra prevalecer, a sucá é válida.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Sucá 21b-22a
מַתְנִי׳ בְּכַרְעֵי הַמִּטָּה — מִטָּה שְׁלֵמָה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר כוּ׳ — טַעְמָא מְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא. מַתְנִי׳ סֻכָּה הַמְדֻבְלֶלֶת — לְקַמָּן מְפָרֵשׁ לָהּ בַּגְּמָרָא. הַמְעֻבָּה כְּמִין בַּיִת — שֶׁסִּכּוּכָהּ עָבֶה מְאֹד.

"Mishná: nos pés da cama" — refere-se a uma cama inteira, com pés. "Rabi Yehudá diz etc." — a razão é explicada na Guemará: ele entende que, por ser algo removível através da cama, falta-lhe a fixação própria de uma sucá permanente.

"Mishná: sucá desalinhada" — a Guemará adiante explica o termo. "Densa como uma casa" — cujo sechach é muito espesso, a ponto de nem as estrelas se verem através dele; ainda assim válida, pois não há medida máxima de espessura para o sechach.