Seder Moed · Massechet Sucá · Perek Bet · Mishná 5 de 9

O caso de Rabán Yochanan ben Zakai e Rabi Tzadok

מַעֲשֶׂה וְהֵבִיאוּ לוֹ לְרַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי לִטְעוֹם אֶת הַתַּבְשִׁיל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Ilustrando a mishná anterior, dois relatos: no primeiro, trouxeram um pouco de comida a dois grandes sábios fora da sucá, e os presentes, por rigor além do exigido pela lei, mandaram que fossem subir com ela até a sucá.

Houve um caso em que trouxeram a Rabán Yochanan ben Zakai um pouco de comida para provar, e a Rabán Gamliel duas tâmaras e um balde de água, e disseram: subam-nos à sucá.Em uma ocasião, trouxeram a Rabán Yochanan ben Zakai uma pequena porção de guisado apenas para prová-la, e a Rabán Gamliel duas tâmaras e um balde de água — quantidades pequenas, do tipo que a mishná anterior classificaria como "achilat arai", permitida fora da sucá. Ainda assim, os presentes disseram: subam-nos à sucá — exigindo, por rigor voluntário, que mesmo essa pequena porção fosse consumida dentro dela.

מַעֲשֶׂה וְהֵבִיאוּ לוֹ לְרַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי לִטְעוֹם אֶת הַתַּבְשִׁיל, וּלְרַבָּן גַּמְלִיאֵל שְׁתֵּי כוֹתָבוֹת וּדְלִי שֶׁל מַיִם, וְאָמְרוּ, הַעֲלוּם לַסֻּכָּה.
No segundo relato, Rabi Tzadok segue o caminho inverso: recebendo uma porção ainda menor que um ovo — quantidade que nem sequer exige bênção posterior —, ele mesmo levou-a para fora da sucá, sem se preocupar em subir com ela.

E, quando deram a Rabi Tzadok comida menor que um ovo, ele a pegou num guardanapo e a comeu fora da sucá, e não fez a bênção posterior sobre ela.Rabi Tzadok, ao receber uma porção ainda menor — inferior ao volume de um ovo, medida abaixo da qual nem sequer se recita a bênção posterior à refeição —, não se preocupou em levá-la à sucá; ele a envolveu num guardanapo, comeu-a do lado de fora, e dispensou a bênção, precisamente porque a quantidade era pequena demais para constituir sequer uma refeição que a exigisse.

וּכְשֶׁנָּתְנוּ לוֹ לְרַבִּי צָדוֹק אֹכֶל פָּחוֹת מִכַּבֵּיצָה, נְטָלוֹ בַמַּפָּה וַאֲכָלוֹ חוּץ לַסֻּכָּה, וְלֹא בֵרַךְ אַחֲרָיו:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayicrá 23:42-43
בַּסֻּכֹּת תֵּשְׁבוּ שִׁבְעַת יָמִים... לְמַעַן יֵדְעוּ דֹרֹתֵיכֶם כִּי בַסֻּכּוֹת הוֹשַׁבְתִּי אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל.
Em sucot habitareis sete dias... para que saibam vossas gerações que em sucot fiz habitar os filhos de Israel.

Os dois relatos desta mishná ilustram, em direções opostas, a mesma lei da mishná anterior sobre a "achilat arai" fora da sucá. No caso de Rabán Yochanan ben Zakai e Rabán Gamliel, os presentes exigem — não por exigência estrita da lei, mas por rigor pessoal — que até mesmo uma pequena porção seja levada à sucá, ensinando que quem se exige mais do que a lei exige é digno de louvor. No caso de Rabi Tzadok, o próprio sábio ilustra o limite oposto: a comida era tão pequena que não constituía sequer uma refeição, e por isso ele nem se preocupou em subir com ela nem recitou a bênção posterior, reservada às refeições de tamanho mínimo estabelecido.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam explica o valor exemplar do rigor voluntário e a medida de "achilat arai"; Bartenura detalha a razão pela qual Rabi Tzadok usou um guardanapo, ligada às leis de lavagem das mãos.

Rambam · Perush HaMishná, Sucá 2:5
וַאֲכִילַת עֲרַאי הוּא שֶׁיֹּאכַל אָדָם שִׁעוּר מוּעָט, לֹא יַחְשֹׁב עָלָיו לִסְעֻדָּה, אֲבָל אֲכָלוֹ לִדְחוֹת תַּאֲוָתוֹ עַד שֶׁיִּגְמֹר סְעֻדָּתוֹ אַחַר כָּךְ. וְזֶה הַמַּעֲשֶׂה הֱבִיאוּהוּ לְלַמֶּדְךָ כִּי הַמְדַקְדֵּק עַל עַצְמוֹ וְאֵינוֹ אוֹכֵל וְשׁוֹתֶה דָּבָר חוּץ לַסֻּכָּה, הֲרֵי זֶה מְשֻׁבָּח, אַף עַל פִּי שֶׁאֵין בּוֹ חִיּוּב.

E "achilat arai" é quando a pessoa come uma quantidade pequena, sem a intenção de que seja uma refeição, mas apenas para aplacar o desejo até terminar sua refeição de fato depois. E este relato foi trazido para te ensinar que quem se exige a si mesmo, e não come nem bebe nada fora da sucá, é digno de louvor, ainda que não haja obrigação nisso.

Bartenura · Sucá 2:5
אֹכֶל פָּחוֹת מִכַּבֵּיצָה, נְטָלוֹ בַמַּפָּה. מִשּׁוּם נְטִילַת יָדַיִם, וּמִשּׁוּם בָּרוֹכֵי נָטַל פָּחוֹת מִכַּבֵּיצָה. דְּאִלּוּ מִשּׁוּם סֻכָּה הָא אָמְרִינַן אוֹכְלִים אֲכִילַת עֲרַאי חוּץ לַסֻּכָּה וַאֲפִלּוּ יוֹתֵר מִכַּבֵּיצָה.

"Comida menor que um ovo, ele a pegou num guardanapo" — para não precisar lavar as mãos, e para não precisar fazer a bênção posterior, ele pegou uma porção menor que um ovo; pois, quanto à sucá em si, já dissemos que se pode comer achilat arai fora dela mesmo em quantidade maior que um ovo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica o valor de quem se exige além do estritamente obrigatório; Rashi, na Guemará, discute se o relato vem para ensinar rigor ou para descrever a prática comum dos sábios.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Sucá 2:5
וְאָמְרוּ הַעֲלוּם לַסֻּכָּה. וְלֹא מִן הַדִּין, אֶלָּא שֶׁהֶחְמִירוּ עַל עַצְמָן. וְשָׁמְעִינַן מִינַּהּ שֶׁהַמַּחְמִיר עַל עַצְמוֹ שֶׁלֹּא לֶאֱכֹל אֲפִלּוּ אֲכִילַת עֲרַאי חוּץ לַסֻּכָּה, הֲרֵי זֶה מְשֻׁבָּח.

"E disseram: subam-nos à sucá" — e não por exigência estrita da lei, mas porque foram rigorosos consigo mesmos. E aprendemos daí que quem é rigoroso consigo mesmo, a ponto de não comer nem mesmo achilat arai fora da sucá, é digno de louvor.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Sucá 26b
מַתְנִי׳ אַגַּב אוֹרְחָא דְּעֵסֶק בַּאֲכִילָה בַּסֻּכָּה, הַאי מַתְנִיתִין קָא מְפָרְשָׁה מַעֲשֶׂה: מַעֲשֶׂה וְהֵבִיאוּ לוֹ לְרַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי לִטְעוֹם אֶת הַתַּבְשִׁיל.

"Mishná" — de passagem, já que a mishná anterior tratava do assunto de comer na sucá, esta mishná relata o caso: "houve um caso em que trouxeram a Rabán Yochanan ben Zakai um pouco de comida para provar" — ensinando, por meio do relato, o valor de quem se exige além do estritamente obrigatório.