Seder Moed · Massechet Sucá · Perek Bet · Mishná 6 de 9

As catorze refeições obrigatórias na sucá

רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר אַרְבַּע עֶשְׂרֵה סְעוּדוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Rabi Eliezer fixa um número obrigatório de refeições na sucá — catorze, duas por dia ao longo dos sete dias —; os Sábios discordam, dizendo que não há medida fixa alguma, com exceção da primeira noite.

Rabi Eliezer diz: catorze refeições é obrigado o homem a comer na sucá, uma de dia e uma de noite.Segundo Rabi Eliezer, a pessoa deve comer na sucá exatamente catorze refeições ao longo dos sete dias da festa — uma durante o dia e outra durante a noite de cada dia —, entendendo que o versículo "em sucot habitareis" exige um uso da sucá equivalente ao uso normal e diário de uma casa.

E os Sábios dizem: não há medida fixa para a coisa, exceto a noite do primeiro dia da festa apenas.Os Sábios discordam, entendendo que não existe um número obrigatório de refeições — a pessoa pode comer tanto ou tão pouco quanto quiser, contanto que tudo o que coma seja dentro da sucá —, com a única exceção da primeira noite da festa, quando há uma obrigação específica de comer ao menos uma refeição com pão na sucá.

רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, אַרְבַּע עֶשְׂרֵה סְעוּדוֹת חַיָּב אָדָם לֶאֱכֹל בַּסֻּכָּה, אַחַת בַּיּוֹם וְאַחַת בַּלָּיְלָה. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אֵין לַדָּבָר קִצְבָה, חוּץ מִלֵּילֵי יוֹם טוֹב רִאשׁוֹן שֶׁל חָג בִּלְבָד.
Rabi Eliezer acrescenta que quem perdeu a refeição obrigatória da primeira noite pode repor na última; os Sábios negam qualquer possibilidade de reposição, citando o versículo de Kohelet sobre o que está torto e não pode ser endireitado.

E ainda disse Rabi Eliezer: quem não comeu na noite do primeiro dia da festa, deve repor na noite do último dia da festa.Rabi Eliezer acrescenta que, se alguém deixou de cumprir a refeição obrigatória da primeira noite, ele pode — e deve — compensar essa falta comendo uma refeição equivalente na última noite da festa, tratando as duas noites como extremos que se equivalem para efeito dessa obrigação específica.

E os Sábios dizem: não há reposição para a coisa; sobre isso foi dito: "o que é torto não se pode endireitar, e o que falta não se pode contar."Os Sábios rejeitam completamente a possibilidade de reposição: a obrigação da primeira noite, uma vez perdida, não pode ser recuperada em nenhum outro momento — e citam o versículo de Kohelet como fundamento poético para a ideia de que uma oportunidade perdida em seu tempo próprio não se restitui depois.

וְעוֹד אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, מִי שֶׁלֹּא אָכַל לֵילֵי יוֹם טוֹב הָרִאשׁוֹן, יַשְׁלִים בְּלֵילֵי יוֹם טוֹב הָאַחֲרוֹן. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אֵין לַדָּבָר תַּשְׁלוּמִין, עַל זֶה נֶאֱמַר (קהלת א) מְעֻוָּת לֹא יוּכַל לִתְקֹן, וְחֶסְרוֹן לֹא יוּכַל לְהִמָּנוֹת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayicrá 23:42; Kohelet 1:15
בַּסֻּכֹּת תֵּשְׁבוּ שִׁבְעַת יָמִים... מְעֻוָּת לֹא יוּכַל לִתְקֹן, וְחֶסְרוֹן לֹא יוּכַל לְהִמָּנוֹת.
Em sucot habitareis sete dias... O que é torto não se pode endireitar, e o que falta não se pode contar.

A disputa sobre o número de refeições decorre de uma analogia entre "sete dias" da sucá e "sete dias" da matzá em Pêssach. Os Sábios comparam as duas festas: assim como comer matzá é obrigatório apenas na primeira noite de Pêssach, sendo as demais refeições facultativas, também na sucá apenas a primeira noite traz obrigação fixa. Rabi Eliezer, por sua vez, lê o mandamento de "habitar" na sucá de modo mais amplo, exigindo um padrão constante de uso ao longo de toda a semana — o que leva à contagem precisa de catorze refeições e à possibilidade de repor a que faltou.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam explica a analogia entre a sucá e a matzá de Pêssach, e que a halachá não segue Rabi Eliezer em nenhuma das duas opiniões; Bartenura detalha a mesma derivação por meio da regra dos "quinze de quinze".

Rambam · Perush HaMishná, Sucá 2:6
וַחֲכָמִים לָמְדִים חֲמִשָּׁה עָשָׂר בְּתִשְׁרֵי מֵחֲמִשָּׁה עָשָׂר בְּנִיסָן, כְּמוֹ שֶׁאֲכִילַת מַצָּה בִּלְבַד לַיְלָה רִאשׁוֹנָה מִצְוָה, וְאַחַר כָּךְ אִם רָצָה לֶאֱכֹל אוֹ לָצוּם אוֹ לֶאֱכֹל פֵּרוֹת הָרְשׁוּת בְּיָדוֹ, כְּמוֹ שֶׁבֵּאַרְנוּ בִּמְקוֹמוֹ, כְּמוֹ כֵן בַּסֻּכּוֹת. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר.

E os Sábios derivam o dia quinze de Tishrei do dia quinze de Nissan: assim como comer matzá é mitzvá apenas na primeira noite, e depois, se quiser comer, jejuar ou comer frutas, a escolha é livre, como explicamos em seu lugar — assim também em Sucot. E a halachá não é como Rabi Eliezer.

Bartenura · Sucá 2:6
חוּץ מִלֵּילֵי יוֹם טוֹב הָרִאשׁוֹן. דְּיָלְפִינַן חֲמִשָּׁה עָשָׂר חֲמִשָּׁה עָשָׂר מֵחַג הַמַּצּוֹת, מַה אֲכִילַת מַצָּה לַיְלָה הָרִאשׁוֹן חוֹבָה, מִכָּאן וָאֵילָךְ רְשׁוּת, אַף סֻכָּה כֵּן.

"Exceto a noite do primeiro Yom Tov" — pois derivamos "quinze" de "quinze" a partir da festa das matzot: assim como comer matzá na primeira noite é obrigação, e daí em diante é facultativo, também a sucá segue essa mesma regra.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica onde ocorre a reposição segundo Rabi Eliezer e por que a halachá rejeita ambas as suas opiniões; Rashi, na Guemará, situa a razão da disputa sobre o número de refeições.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Sucá 2:6
אַרְבַּע עֶשְׂרֵה סְעוּדוֹת. שְׁתֵּי סְעוּדוֹת בְּכָל יוֹם לְשִׁבְעָה הַיָּמִים. אֵין לַדָּבָר קִצְבָה. אִם רָצָה לֶאֱכֹל לֹא יֹאכַל חוּץ לַסֻּכָּה, רָצָה לְהִתְעַנּוֹת יִתְעַנֶּה וְאֵין נִזְקָקִין לוֹ. יַשְׁלִים בְּלֵילֵי יוֹם טוֹב הָאַחֲרוֹן. בְּלֵיל שְׁמִינִי עֲצֶרֶת. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר בִּשְׁתֵּיהֶן.

"Catorze refeições" — duas refeições por dia, ao longo dos sete dias. "Não há medida fixa" — se quiser comer, que não coma fora da sucá; se quiser jejuar, que jejue, e ninguém o obriga a comer. "Reponha na noite do último Yom Tov" — na noite de Shemini Atzeret. E a halachá não é como Rabi Eliezer em nenhuma das duas opiniões.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Sucá 27a
מַתְנִי׳ רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר אַרְבַּע עֶשְׂרֵה סְעוּדוֹת חַיָּב אָדָם לֶאֱכֹל בַּסֻּכָּה — מַאי טַעְמָא דְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר, מְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא, וְיָלְפִינַן לַהּ מִגְּזֵרָה שָׁוָה דְּ"שִׁבְעַת יָמִים" "שִׁבְעַת יָמִים" מֵחֲגִיגָה, שֶׁצְּרִיכִין סְעוּדָה בְּכָל יוֹם וָיוֹם.

"Mishná: Rabi Eliezer diz catorze refeições é obrigado o homem a comer na sucá" — qual é a razão de Rabi Eliezer? Explica-se na Guemará: deriva-se por uma analogia verbal de "sete dias" e "sete dias" da oferenda de Chagigá, que exige uma refeição a cada dia.