Seder Moed · Massechet Sucá · Perek Dalet · Mishná 2 de 10

Lulav sete dias, como assim?

לוּלָב שִׁבְעָה כֵּיצַד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa a detalhar, um a um, os itens enunciados na mishná anterior — começando pelo lulav, cujo número de dias, seis ou sete, depende exclusivamente de qual dia da semana cai o primeiro dia da festa.

O lulav, sete dias, como assim? O primeiro dia da festa que cai em Shabat: o lulav é tomado por sete dias; e no resto de todos os anos, seis.Como o preceito da tomada do lulav no primeiro dia da festa tem plena validade bíblica mesmo fora do Templo, ele suplanta o Shabat quando este cai justamente nesse primeiro dia — e assim, nesse ano, o lulav acaba sendo tomado nos sete dias da festa. Mas quando o primeiro dia da festa cai num dia de semana comum, e é outro dia da festa — um dos intermediários — que acaba caindo em Shabat, o lulav não é tomado nesse dia, pois, fora do primeiro dia, sua tomada é apenas de instituição rabínica e não suplanta o Shabat; resultando em apenas seis dias de tomada.

לוּלָב שִׁבְעָה כֵּיצַד, יוֹם טוֹב הָרִאשׁוֹן שֶׁל חָג שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת, לוּלָב שִׁבְעָה, וּשְׁאָר כָּל הַיָּמִים, שִׁשָּׁה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayicrá 23:40
וּלְקַחְתֶּם לָכֶם בַּיּוֹם הָרִאשׁוֹן פְּרִי עֵץ הָדָר, כַּפֹּת תְּמָרִים.
E tomareis para vós, no primeiro dia, fruto de árvore formosa, ramos de tamareiras.

A Guemará (Sucá 43a) explica que apenas "no primeiro dia" a Torá determina a tomada do lulav mesmo "fora dos limites" do Templo — enquanto para os demais dias da festa a alegria diante de D-us descrita no mesmo capítulo é entendida como referindo-se apenas ao Templo. Assim, o primeiro dia possui base bíblica plena mesmo longe de Jerusalém e, por isso, suplanta o Shabat quando cai nele; os demais dias, fora do Templo, dependem apenas da instituição rabínica de Rabán Yochanan ben Zakai, que não suplanta o Shabat — daí o número variável de seis ou sete dias.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam explica por que, embora a lei permitisse em teoria a tomada do lulav em Shabat mesmo nos demais dias, isso foi cautelarmente restringido; Bartenura acrescenta a razão prática do decreto de não tomar o lulav em Shabat.

Rambam · Perush HaMishná, Sucá 4:2
הַלּוּלָב נְטִילָתוֹ חוֹבָה מִן הַתּוֹרָה בַּיּוֹם הָרִאשׁוֹן בְּכָל הָעוֹלָם, וּנְטִילָתוֹ חוֹבָה כָּל שִׁבְעַת הַיָּמִים בַּמִּקְדָּשׁ בִּלְבַד. וּמַה שֶּׁחִיְּבוּ שֶׁלֹּא לִטֹּל הַלּוּלָב בַּזְּמַן הַזֶּה בְּשַׁבָּת שֶׁל יוֹם טוֹב רִאשׁוֹן, כְּדֵי שֶׁלֹּא נְחַדֵּשׁ דָּבָר, שֶׁאָנוּ לֹא הָיִינוּ נוֹטְלִין אוֹתוֹ בְּחוּצָה לָאָרֶץ בַּיּוֹם הָרִאשׁוֹן שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת, בִּזְמַן שֶׁבֵּית הַמִּקְדָּשׁ קַיָּם, לְפִי שֶׁלֹּא הָיִינוּ יוֹדְעִים בֶּאֱמֶת רֹאשׁ חֹדֶשׁ הַמְּכֻוָּן לִקְבִיעוּת בֵּית דִּין שֶׁל אֶרֶץ יִשְׂרָאֵל.

A tomada do lulav é obrigatória pela Torá no primeiro dia em todo o mundo, mas sua tomada é obrigatória durante todos os sete dias apenas no Templo. E o que se determinou, de não tomar o lulav em nossos dias em Shabat que cai no primeiro dia da festa, foi para que não introduzíssemos algo novo — pois não o tomávamos fora da Terra de Israel no primeiro dia que caía em Shabat, no tempo em que o Templo existia, porque não sabíamos com exatidão a lua nova fixada pelo tribunal da Terra de Israel.

Bartenura · Sucá 4:2
וְטַעֲמָא דִּגְזָרוּ שֶׁלֹּא לִטֹּל לוּלָב בְּשַׁבָּת, וַהֲרֵי אֵין בִּנְטִילָתוֹ שׁוּם מְלָאכָה אֶלָּא טִלְטוּל בְּעָלְמָא, גְּזֵרָה שֶׁמָּא יִטְּלֶנּוּ בְּיָדוֹ וְיֵלֵךְ אֵצֶל בָּקִי לִלְמֹד הַבְּרָכָה אוֹ סֵדֶר הַנִּעְנוּעִים וְיַעֲבִירֶנּוּ אַרְבַּע אַמּוֹת בִּרְשׁוּת הָרַבִּים, וְהַיְנוּ טַעֲמָא דְּשׁוֹפָר, וְהַיְנוּ טַעֲמָא דִּמְגִלָּה.

E a razão por que decretaram não tomar o lulav em Shabat — sendo que sua tomada não envolve nenhum trabalho, apenas mero manuseio — foi um decreto, para que não o tomasse na mão e fosse a alguém versado para aprender a bênção ou a ordem das agitações, e assim o carregasse quatro côvados no domínio público. E essa é também a razão do shofar, e essa é a razão da Meguilá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará, resume em poucas palavras a distinção central desta mishná: o que vale no Templo por transmissão sinaítica e o que vale fora dele por instituição dos profetas.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Sucá 44b
בַּמִּקְדָּשׁ — הֲלָכָה לְמֹשֶׁה מִסִּינַי. בִּגְבוּלִין — יְסוֹד נְבִיאִים.

"No Templo" — por halachá transmitida a Moshé no Sinai. "Fora dele" — por fundamento instituído pelos profetas.