Seder Moed · Massechet Taanit · Perek Bet · Mishná 5 de 10

O episódio dos dias de Rabi Chalafta

מַעֲשֶׂה בִּימֵי רַבִּי חֲלַפְתָּא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná relata um episódio histórico em que a fórmula "aquele que respondeu... amém" foi trocada por toques de shofar diretamente inseridos no texto da bênção, e a reação dos sábios ao ouvirem sobre o costume.

Aconteceu, nos dias de Rabi Chalafta e Rabi Chananya ben Teradyon, que alguém passou diante da arca e terminou toda a bênção, e não responderam amém depois dele.Num certo jejum, o oficiante recitou a bênção inteira até o fim sem que a congregação respondesse "amém" — o que era o procedimento esperado.

"Toquem, filhos de Aharon, toquem": "Aquele que respondeu nosso pai Avraham no Monte Moriá, Ele vos responderá e ouvirá a voz de vosso clamor neste dia." "Façam o toque de teruá, filhos de Aharon, façam o toque de teruá": "Aquele que respondeu nossos pais junto ao Mar Vermelho, Ele vos responderá e ouvirá a voz de vosso clamor neste dia."Em vez do "amém" da congregação, o próprio chazan da sinagoga interrompia o oficiante entre cada frase, ordenando aos filhos de Aharon que tocassem o shofar — um toque longo (tekiá) na primeira, um toque tremido (teruá) na segunda — substituindo a resposta congregacional por esse sinal sonoro.

E quando o assunto chegou aos sábios, disseram: não costumávamos agir assim senão no Portão Leste e no Monte do Templo.Ao serem consultados, os sábios esclareceram que esse costume de tocar shofar entre as frases da bênção, em vez de responder amém, era próprio apenas do recinto do Templo — no Portão Leste do Har HaBáit — e não deveria ter sido aplicado fora dali, em Tzipori.

מַעֲשֶׂה בִימֵי רַבִּי חֲלַפְתָּא וְרַבִּי חֲנַנְיָה בֶן תְּרַדְיוֹן, שֶׁעָבַר אֶחָד לִפְנֵי הַתֵּבָה וְגָמַר אֶת הַבְּרָכָה כֻלָּהּ, וְלֹא עָנוּ אַחֲרָיו אָמֵן. תִּקְעוּ הַכֹּהֲנִים תְּקָעוּ. מִי שֶׁעָנָה אֶת אַבְרָהָם אָבִינוּ בְּהַר הַמּוֹרִיָּה הוּא יַעֲנֶה אֶתְכֶם וְיִשְׁמַע בְּקוֹל צַעֲקַתְכֶם הַיּוֹם הַזֶּה. הָרִיעוּ בְּנֵי אַהֲרֹן הָרִיעוּ. מִי שֶׁעָנָה אֶת אֲבוֹתֵינוּ עַל יַם סוּף, הוּא יַעֲנֶה אֶתְכֶם וְיִשְׁמַע בְּקוֹל צַעֲקַתְכֶם הַיּוֹם הַזֶּה. וּכְשֶׁבָּא דָבָר אֵצֶל חֲכָמִים, אָמְרוּ, לֹא הָיִינוּ נוֹהֲגִין כֵּן אֶלָּא בְשַׁעַר מִזְרָח וּבְהַר הַבָּיִת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Bamidbar 10:9
וְכִי תָבֹאוּ מִלְחָמָה בְּאַרְצְכֶם עַל הַצַּר הַצֹּרֵר אֶתְכֶם, וַהֲרֵעֹתֶם בַּחֲצֹצְרֹת, וְנִזְכַּרְתֶּם לִפְנֵי ה' אֱלֹהֵיכֶם וְנוֹשַׁעְתֶּם מֵאֹיְבֵיכֶם.
E quando fordes à guerra em vossa terra contra o adversário que vos aflige, tocareis as trombetas com toque de alarme, e sereis lembrados diante do Eterno vosso D'us, e sereis salvos de vossos inimigos.

O verso estabelece o princípio bíblico por trás de todo o uso do shofar em momento de aflição comunitária: o toque não é mero sinal acústico, mas o próprio mecanismo pelo qual "sereis lembrados diante do Eterno". É esse princípio que o oficiante do episódio relatado na mishná parece ter aplicado, substituindo o "amém" da congregação por toques reais de shofar entre as frases da bênção — como se buscasse invocar diretamente o mecanismo de Bamidbar 10:9 dentro da própria liturgia do jejum. Os sábios, ao serem consultados, não rejeitam o princípio, mas restringem sua aplicação prática: esse uso específico do shofar dentro da bênção, no lugar do amém, pertencia apenas ao cerimonial do Templo, no Portão Leste, e não deveria ter sido transposto para a sinagoga de Tzipori.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam identifica os dois portões leste mencionados pelos sábios, e Bartenura explica por que a resposta usual de amém foi ali substituída pelo Nome Divino por extenso.

Rambam · Perush HaMishná, Taanit 2:5
מעשה בימי ר' חלפתא ור' חנניא בן תרדיון כו': רוצה לומר שער המזרח של הר הבית ושער המזרח של עזרה. והלכה כחכמים.

"Aconteceu nos dias de Rabi Chalafta e Rabi Chananya ben Teradyon etc." — quer dizer: o Portão Leste do Monte do Templo e o Portão Leste da Azará (o pátio interno). E a halachá segue os sábios, isto é, que esse costume era exclusivo daqueles dois locais sagrados.

Bartenura · Taanit 2:5
וְלֹא עָנוּ אַחֲרָיו אָמֵן גָּרְסִינַן. לְפִי שֶׁבַּמִּקְדָּשׁ לֹא הָיוּ עוֹנִין אָמֵן אַחַר כָּל בְּרָכָה אֶלָּא בָּרוּךְ שֵׁם כְּבוֹד מַלְכוּתוֹ לְעוֹלָם וָעֶד. וְאֵלּוּ לֹא בַמִּקְדָּשׁ הָיוּ וְעָשׂוּ כְּדֶרֶךְ שֶׁעוֹשִׂים בַּמִּקְדָּשׁ.

Lemos "e não responderam depois dele amém" — pois no Templo não se respondia amém após cada bênção, mas sim "Bendito seja o Nome de Sua glória para sempre"; e estes, embora não estivessem no Templo, agiram do mesmo modo que se costumava agir ali, o que os sábios depois consideraram indevido fora daquele recinto.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi identifica Rabi Chalafta como pai de Rabi Yosei e localiza o episódio na cidade de Tzipori, esclarecendo quem de fato pronunciava a ordem de tocar o shofar.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Taanit 15b — Tzipori, o chazan e o sentido de "não costumávamos"
בִּימֵי רַבִּי חֲלַפְתָּא בְּצִפּוֹרִי – אָבִיו שֶׁל רַבִּי יוֹסֵי. ה"ג וְלֹא עָנוּ אַחֲרָיו אָמֵן תִּקְעוּ בְּנֵי אַהֲרֹן תִּקְעוּ – חַזַּן הַכְּנֶסֶת אוֹמֵר לָהֶן עַל כָּל בְּרָכָה וּבְרָכָה, וְהוּא הַשַּׁמָּשׁ וְלֹא שְׁלִיחַ צִבּוּר. לֹא הָיִינוּ נוֹהֲגִין – שֶׁלֹּא לַעֲנוֹת אָמֵן.

"Nos dias de Rabi Chalafta em Tzipori" — Rashi identifica este Rabi Chalafta como o pai de Rabi Yosei, e situa o episódio na cidade de Tzipori, na Galileia. A leitura correta do texto é: "e não responderam depois dele amém: toquem, filhos de Aharon, toquem" — quem pronuncia essa ordem, entre cada bênção, é o chazan da sinagoga, isto é, o assistente encarregado da liturgia, e não o próprio oficiante (shliach tzibur) que reza diante da arca — uma distinção de papéis que Rashi julga importante esclarecer. "Não costumávamos agir assim" — os sábios explicam que o costume que eles reconheciam como legítimo era precisamente o de não responder amém, substituindo-o pelo toque, mas apenas dentro do recinto sagrado do Templo.