Seder Moed · Massechet Taanit · Perek Bet · Mishná 9 de 10

Não decretar jejum na quinta-feira

אֵין גּוֹזְרִין תַּעֲנִית עַל הַצִּבּוּר בַּתְּחִלָּה בַּחֲמִישִׁי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná estabelece uma regra de calendário para o início da sequência de jejuns, motivada por uma preocupação puramente econômica: evitar que o mercado interprete mal a movimentação de compras e infle os preços.

Não se decreta jejum sobre a comunidade, no início, numa quinta-feira, para não inflar os preços.O primeiro jejum de qualquer nova série não pode cair numa quinta-feira, porque, se caísse, todos correriam às compras na sexta-feira seguinte tanto para depois do jejum quanto para o Shabat, e os comerciantes, vendo a movimentação incomum, poderiam supor erroneamente que uma fome generalizada havia chegado, e elevar os preços.

Mas os três primeiros jejuns são em segunda, quinta e segunda, e os três segundos são quinta, segunda e quinta.Em vez disso, a sequência fixa para as duas primeiras etapas de três jejuns alterna entre segundas e quintas-feiras, sempre começando e terminando de modo a nunca abrir a série inteira justamente numa quinta.

Rabi Yosei diz: assim como os primeiros não caem numa quinta, também não os segundos nem os últimos.Rabi Yosei estende a mesma preocupação a todas as etapas da escala, e não apenas à primeira: nenhuma delas, em nenhum momento, deve começar numa quinta-feira.

אֵין גּוֹזְרִין תַּעֲנִית עַל הַצִּבּוּר בַּתְּחִלָּה בַּחֲמִישִׁי, שֶׁלֹּא לְהַפְקִיעַ הַשְּׁעָרִים, אֶלָּא שָׁלשׁ תַּעֲנִיּוֹת הָרִאשׁוֹנוֹת שֵׁנִי וַחֲמִישִׁי וְשֵׁנִי, וְשָׁלשׁ שְׁנִיּוֹת חֲמִישִׁי שֵׁנִי וַחֲמִישִׁי. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, כְּשֵׁם שֶׁאֵין הָרִאשׁוֹנוֹת בַּחֲמִישִׁי, כָּךְ לֹא שְׁנִיּוֹת וְלֹא אַחֲרוֹנוֹת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Amós 8:5
לֵאמֹר, מָתַי יַעֲבֹר הַחֹדֶשׁ וְנַשְׁבִּירָה שֶּׁבֶר, וְהַשַּׁבָּת וְנִפְתְּחָה בָּר, לְהַקְטִין אֵיפָה וּלְהַגְדִּיל שֶׁקֶל וּלְעַוֵּת מֹאזְנֵי מִרְמָה.
Dizendo: quando passará o mês, para que vendamos grão, e o Shabat, para que abramos os celeiros de trigo, diminuindo a medida e aumentando o preço, e falseando balanças enganosas.

O profeta Amós denuncia comerciantes que exploram até mesmo os dias sagrados como pretexto para elevar preços e adulterar medidas — precisamente o tipo de comportamento oportunista que esta mishná busca prevenir de antemão. Onde Amós repreende a ganância que já ocorreu, a mishná constrói uma salvaguarda preventiva: sabendo que qualquer sinal de compra apressada e em grande quantidade — como aconteceria se o jejum caísse numa quinta, levando as famílias a comprar mantimentos em dobro na sexta seguinte — pode ser mal interpretado pelos comerciantes como indício de escassez, os sábios simplesmente removem a quinta-feira do calendário possível para o início de qualquer série de jejuns, evitando que a piedade religiosa da comunidade se transforme, ainda que involuntariamente, em oportunidade para a exploração que Amós tanto condena.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica o mecanismo social por trás da regra, e Bartenura detalha as duas leituras possíveis do receio de "inflar os preços".

Rambam · Perush HaMishná, Taanit 2:9
אין גוזרין תענית על הצבור בתחילה בחמישי כו': להפקיע השערים ליקר שערי המזונות, מפני שאומר דלת העם: לולי הצורך הגדול למטר לא היו מתענין קודם השבת. ואין הלכה כרבי יוסי.

"Não se decreta jejum sobre a comunidade, no início, numa quinta-feira etc." — para não inflar os preços dos gêneros alimentícios, pois o povo simples diria: "se não fosse a grande necessidade de chuva, não jejuariam justo antes do Shabat" — concluindo erroneamente que a situação é mais grave do que de fato é, e agindo com pânico no mercado. E a halachá não segue Rabi Yosei.

Bartenura · Taanit 2:9
שֶׁלֹּא לְהַפְקִיעַ אֶת הַשְּׁעָרִים. כְּשֶׁרוֹאִין בַּעֲלֵי חֲנֻיּוֹת שֶׁקּוֹנִין לְמוֹצָאֵי חֲמִישִׁי שְׁתֵּי סְעֻדּוֹת גְּדוֹלוֹת, אַחַת לְלֵיל הַתַּעֲנִית וְאַחַת לַשַּׁבָּת, יִהְיוּ סְבוּרִין שֶׁבָּא רָעָב לָעוֹלָם, וּמְיַקְּרִין וּמַפְקִיעִין הַשַּׁעַר. אֲבָל מִשֶּׁהִתְחִילוּ לְהִתְעַנּוֹת בַּשֵּׁנִי, יוֹדְעִים שֶׁאֵינוֹ אֶלָּא מִפְּנֵי הַתַּעֲנִית.

"Para não inflar os preços" — quando os donos de lojas veem que se compram, na saída da quinta-feira, duas grandes refeições de uma vez — uma para a noite seguinte ao jejum e outra para o Shabat —, poderiam supor que uma fome geral chegou ao mundo, e por isso encareceriam e inflariam o preço. Mas quando o jejum começa numa segunda-feira, os comerciantes sabem que a compra extra se deve apenas ao jejum em si, e não a uma escassez real.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi confirma a mesma leitura, focando no gatilho psicológico exato: a coincidência de duas grandes compras na mesma véspera de quinta-feira.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Taanit 15b — o receio concreto por trás da regra do calendário
שֶׁלֹּא לְהַפְקִיעַ אֶת הַשְּׁעָרִים – כְּשֶׁרוֹאִין בַּעֲלֵי חֲנֻיּוֹת שֶׁקּוֹנִין לְמוֹצָאֵי יוֹם חֲמִישִׁי שְׁתֵּי סְעֻדּוֹת גְּדוֹלוֹת, אַחַת לְלֵיל חֲמִישִׁי וְאַחַת לַשַּׁבָּת, סְבוּרִים שֶׁבָּא רָעָב לָעוֹלָם, וּמְיַקְּרִים וּמַפְקִיעִים הַשַּׁעַר. אֲבָל מִשֶּׁהִתְחִילוּ לְהִתְעַנּוֹת יוֹדְעִין שֶׁאֵינוֹ אֶלָּא מִפְּנֵי הַתַּעֲנִית.

"Para não inflar os preços" — quando os donos de lojas veem que na saída da quinta-feira se compram duas grandes refeições de uma vez — uma para encerrar o jejum e outra para o Shabat —, eles supõem que uma fome chegou ao mundo, e encarecem e inflam o preço dos gêneros. Mas uma vez que já se sabe, desde o início da sequência, que a comunidade está jejuando por decreto formal, os comerciantes compreendem que a compra dobrada se deve apenas ao jejum, e não a qualquer escassez real — Rashi enfatiza que é exatamente a coincidência acidental entre o fim do jejum e a véspera de Shabat na mesma noite que criaria a aparência enganosa de pânico alimentar, e é essa coincidência específica que a regra do calendário busca evitar.