Seder Moed · Massechet Taanit · Perek Guimel · Mishná 7 de 9

Clamando em Shabat: cidade cercada, rio e navio no mar

עַל אֵלּוּ מַתְרִיעִין בְּשַׁבָּת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa a tratar de calamidades cujo perigo iminente à vida justifica quebrar a santidade do Shabat com o clamor por toque de shofar, e registra uma disputa em três posições sobre o alcance exato dessa permissão.

Sobre estas clamam mesmo em Shabat: sobre a cidade que gentios ou um rio cercaram, e sobre o navio agitado no mar.Quando uma cidade está sitiada por tropas inimigas, ou ameaçada de inundação por um rio que transbordou, ou quando um navio está em perigo de naufrágio em alto-mar, o perigo à vida é imediato o suficiente para justificar convocar ajuda por toque de shofar mesmo em Shabat, apesar da restrição normal de tocar instrumentos musicais nesse dia.

Rabi Yosei diz: para pedir socorro, mas não para clamar. Shimon HaTimni diz: mesmo sobre a peste. Mas os sábios não concordaram com ele.Rabi Yosei restringe o toque de shofar em Shabat apenas à função de convocar ajuda prática e imediata — reunir pessoas para socorrer a cidade ou o navio — mas não à função litúrgica de clamor e súplica perante D'us, que ele reserva para dias comuns. Shimon HaTimni vai além e permitiria o toque também para a peste, mas a maioria dos sábios discordou dele, mantendo a peste fora da lista de calamidades que justificam quebrar o Shabat.

עַל אֵלּוּ מַתְרִיעִין בְּשַׁבָּת, עַל עִיר שֶׁהִקִּיפוּהָ גוֹיִם אוֹ נָהָר, וְעַל הַסְּפִינָה הַמִּטָּרֶפֶת בַּיָּם. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, לְעֶזְרָה וְלֹא לִצְעָקָה. שִׁמְעוֹן הַתִּמְנִי אוֹמֵר, אַף עַל הַדֶּבֶר, וְלֹא הוֹדוּ לוֹ חֲכָמִים:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Tehilim 107:23-28
יוֹרְדֵי הַיָּם בָּאֳנִיּוֹת, עֹשֵׂי מְלָאכָה בְּמַיִם רַבִּים... וַיֹּאמֶר וַיַּעֲמֵד רוּחַ סְעָרָה, וַתְּרוֹמֵם גַּלָּיו... וַיִּצְעֲקוּ אֶל ה' בַּצַּר לָהֶם, וּמִמְּצוּקֹתֵיהֶם יוֹצִיאֵם.
Os que descem ao mar em navios, os que fazem trabalho em grandes águas... Ele falou, e fez levantar um vento tempestuoso, que elevou suas ondas... e clamaram ao Eterno em sua angústia, e Ele os tirou de suas aflições.

O salmo descreve com precisão a cena da mishná — marinheiros em perigo de naufrágio, agitados por ondas que o próprio texto atribui a um "vento tempestuoso" enviado por D'us, e que só encontram salvação ao clamar em sua angústia. É esse modelo bíblico de clamor em momento de perigo extremo no mar que fundamenta a permissão excepcional desta mishná de tocar o shofar mesmo em Shabat: assim como os marinheiros do salmo não esperam por um momento mais oportuno para clamar, a halachá reconhece que o perigo iminente à vida — seja no mar, seja numa cidade cercada por inimigos ou ameaçada de inundação — não pode aguardar o fim do dia sagrado. A disputa entre Rabi Yosei, Shimon HaTimni e os sábios gira precisamente em torno de quão longe se estende essa exceção ao repouso do Shabat.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam decide a halachá contra Rabi Yosei e contra Shimon HaTimni, precisando o âmbito exato da permissão de clamar em Shabat.

Rambam · Perush HaMishná, Taanit 3:7
על אלו מתריעין בשבת על עיר שהקיפוה נכרים כו': רבי יוסי אומר שאין תוקעין שופר בשבת אלא כדי שיתקבצו העם להושיע אותה מדינה אבל לצעוק לשם ולהתענות לא. ואין הלכה כרבי יוסי למנוע מהם הצעקה בשבת אלא שצועקים ומתענין עליהם בשבת בלא תקיעה. ולא כר' שמעון התימני שאומר מתריעין על הדבר אבל הדין אצלנו אין מתריעין על הדבר כל עיקר אבל מתענין עליו בלבד ואותן שנפל בהם הדבר הם בלבד מתענין ומתריעין כמו שקדם:

"Sobre estas clamam em Shabat: sobre a cidade que gentios cercaram, etc." — Rabi Yosei diz que não se toca o shofar em Shabat senão para reunir o povo a fim de socorrer aquela região, mas não para clamar perante D'us nem para jejuar. E a halachá não segue Rabi Yosei em impedir o clamor em Shabat; antes, clamam e jejuam sobre essas calamidades em Shabat, mas sem toque de shofar. E também não segue Shimon HaTimni, que diz que se clama até sobre a peste — a halachá entre nós é que não se clama sobre a peste de modo algum, mas apenas se jejua por causa dela; e apenas aqueles sobre quem a peste caiu diretamente jejuam e clamam, como já foi ensinado.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica a expressão "navio agitado" e situa a origem do nome de Shimon HaTimni.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Taanit 19a — o sentido de "navio agitado" e a identidade de Shimon HaTimni
מתריעין – בעננו: המטורפת – מלשון טרף אבבא (ברכות דף כח.) ומלשון ביצה טרופה (עדיות פ"ב מ"ד) כו' כדמפרש בפרק שלמעלה (דף יד.): שמעון התימני – מתמנה היה:

"Clamam" — recitando a bênção de Aneinu nas dezoito bênçãos. "Agitada" — da mesma raiz que "bater na porta" (Berachot 28a) e da mesma raiz que "ovo batido" (Eduyot 2:4), como já explicado no capítulo anterior — a imagem de um navio sacudido pelas ondas como um ovo agitado numa tigela, prestes a se despedaçar. "Shimon HaTimni" — era natural da cidade de Timna, o que explica a origem de seu nome; sua posição isolada nesta disputa é rejeitada pela maioria dos sábios, que preferem restringir a peste ao regime de jejum silencioso já estabelecido nas mishnayot anteriores, sem a dimensão pública do toque de shofar.