Sobre estas clamam mesmo em Shabat: sobre a cidade que gentios ou um rio cercaram, e sobre o navio agitado no mar. — Quando uma cidade está sitiada por tropas inimigas, ou ameaçada de inundação por um rio que transbordou, ou quando um navio está em perigo de naufrágio em alto-mar, o perigo à vida é imediato o suficiente para justificar convocar ajuda por toque de shofar mesmo em Shabat, apesar da restrição normal de tocar instrumentos musicais nesse dia.
Rabi Yosei diz: para pedir socorro, mas não para clamar. Shimon HaTimni diz: mesmo sobre a peste. Mas os sábios não concordaram com ele. — Rabi Yosei restringe o toque de shofar em Shabat apenas à função de convocar ajuda prática e imediata — reunir pessoas para socorrer a cidade ou o navio — mas não à função litúrgica de clamor e súplica perante D'us, que ele reserva para dias comuns. Shimon HaTimni vai além e permitiria o toque também para a peste, mas a maioria dos sábios discordou dele, mantendo a peste fora da lista de calamidades que justificam quebrar o Shabat.
O salmo descreve com precisão a cena da mishná — marinheiros em perigo de naufrágio, agitados por ondas que o próprio texto atribui a um "vento tempestuoso" enviado por D'us, e que só encontram salvação ao clamar em sua angústia. É esse modelo bíblico de clamor em momento de perigo extremo no mar que fundamenta a permissão excepcional desta mishná de tocar o shofar mesmo em Shabat: assim como os marinheiros do salmo não esperam por um momento mais oportuno para clamar, a halachá reconhece que o perigo iminente à vida — seja no mar, seja numa cidade cercada por inimigos ou ameaçada de inundação — não pode aguardar o fim do dia sagrado. A disputa entre Rabi Yosei, Shimon HaTimni e os sábios gira precisamente em torno de quão longe se estende essa exceção ao repouso do Shabat.
Rambam decide a halachá contra Rabi Yosei e contra Shimon HaTimni, precisando o âmbito exato da permissão de clamar em Shabat.
"Sobre estas clamam em Shabat: sobre a cidade que gentios cercaram, etc." — Rabi Yosei diz que não se toca o shofar em Shabat senão para reunir o povo a fim de socorrer aquela região, mas não para clamar perante D'us nem para jejuar. E a halachá não segue Rabi Yosei em impedir o clamor em Shabat; antes, clamam e jejuam sobre essas calamidades em Shabat, mas sem toque de shofar. E também não segue Shimon HaTimni, que diz que se clama até sobre a peste — a halachá entre nós é que não se clama sobre a peste de modo algum, mas apenas se jejua por causa dela; e apenas aqueles sobre quem a peste caiu diretamente jejuam e clamam, como já foi ensinado.
Rashi explica a expressão "navio agitado" e situa a origem do nome de Shimon HaTimni.
"Clamam" — recitando a bênção de Aneinu nas dezoito bênçãos. "Agitada" — da mesma raiz que "bater na porta" (Berachot 28a) e da mesma raiz que "ovo batido" (Eduyot 2:4), como já explicado no capítulo anterior — a imagem de um navio sacudido pelas ondas como um ovo agitado numa tigela, prestes a se despedaçar. "Shimon HaTimni" — era natural da cidade de Timna, o que explica a origem de seu nome; sua posição isolada nesta disputa é rejeitada pela maioria dos sábios, que preferem restringir a peste ao regime de jejum silencioso já estabelecido nas mishnayot anteriores, sem a dimensão pública do toque de shofar.