Sobre toda calamidade que não venha sobre a comunidade, clamam sobre elas, exceto sobre o excesso de chuva. — A mishná fecha a lista específica de calamidades das mishnayot anteriores com uma regra geral: qualquer aflição que ameace a comunidade justifica o clamor, com a única exceção do excesso de chuva — pois, embora chuva demais possa causar transtorno, ela continua sendo, em sua origem, sinal de bênção divina, e não se clama contra uma bênção.
Aconteceu que disseram a Choni HaMe'agel: reza para que caia chuva. Ele lhes disse: saí e trazei os fornos de Pêssach, para que não se dissolvam. Rezou, e não caiu chuva. — Numa seca severa, pediram a Choni — conhecido por suas orações respondidas — que rezasse por chuva. Ele, confiante de que a chuva chegaria em abundância, instruiu o povo a recolher os fornos de barro usados para assar o cordeiro pascal, guardados ao ar livre, antes que se desmanchassem sob a chuva torrencial que ele previa. Mas sua primeira oração não teve resposta alguma.
O que fez? Traçou um círculo e ficou dentro dele, e disse diante d'Ele: Mestre do Universo, Teus filhos voltaram seus rostos para mim, pois sou como um filho de Tua casa perante Ti. Juro por Teu grande nome que não me moverei daqui até que Tenhas piedade de Teus filhos. — Diante do silêncio divino, Choni recorreu a um gesto extraordinário: desenhou um círculo no chão, posicionou-se dentro dele como quem se coloca perante um tribunal, e declarou, com a intimidade de um membro da própria casa de D'us, que não sairia daquele lugar até que a chuva viesse — um juramento vinculante que ele mesmo assumiu, apostando sua própria integridade na resposta divina.
Começaram a cair gotas de chuva. Disse: não foi isso que pedi, mas chuva de cisternas, poços e cavernas. Começou a cair com fúria. Disse: não foi isso que pedi, mas chuva de vontade, bênção e generosidade. — A primeira resposta — um gotejar fraco — não satisfez Choni, que exigiu especificamente a chuva abundante capaz de encher as reservas de água subterrâneas mencionadas já na segunda mishná deste perek. A segunda resposta veio violenta demais, uma chuva destrutiva; Choni recusou também essa, exigindo desta vez chuva equilibrada — nem escassa, nem violenta — chuva que expressasse benevolência e generosidade, e não apenas cumprimento técnico do pedido.
Caíram em sua medida normal, até que Israel saiu de Jerusalém para o Monte do Templo por causa da chuva. Vieram e lhe disseram: assim como rezaste para que caísse, reza agora para que cesse. — A terceira resposta veio exatamente como pedido — chuva equilibrada e benfazeja — mas continuou caindo sem parar, a ponto de inundar as áreas residenciais de Jerusalém e forçar o povo a subir ao Monte do Templo, terreno mais alto, em busca de abrigo. Foi então que pediram a Choni que revertesse o próprio milagre que havia provocado.
Ele lhes disse: saí e vede se a Pedra dos Reclamantes já se apagou. Shimon ben Shetach lhe enviou: se não fosses Choni, eu decretaria sobre ti excomunhão. Mas o que posso te fazer, já que tu importunas o Lugar e Ele faz tua vontade, como um filho que importuna seu pai e este faz sua vontade? E sobre ti diz o versículo: "Alegre-se teu pai e tua mãe, e regozije-se aquela que te deu à luz." — Choni respondeu que a chuva só deveria cessar quando a inscrição da Pedra dos Reclamantes — onde se anunciavam objetos perdidos e achados — tivesse sido apagada pela água, sinal objetivo de que já havia chovido o suficiente. Shimon ben Shetach, à frente do Sinédrio, repreendeu Choni por seu tom exigente e quase insolente perante D'us, digno em princípio de excomunhão — mas reconheceu que a intimidade extraordinária de Choni com o Divino, comparável à de um filho mimado por seu pai, tornava impossível puni-lo, e encerrou aplicando-lhe o próprio versículo de Provérbios sobre o filho que traz alegria aos pais.
Shimon ben Shetach cita este versículo de Provérbios diretamente sobre Choni, encerrando a narrativa com a mesma imagem que abre o verso: o pai que se regozija com o filho justo e sábio. A escolha não é decorativa — é a chave interpretativa de toda a história. Ao chamar Choni de "filho de casa" que "importuna" o Pai como uma criança mimada importuna quem a ama, a mishná constrói deliberadamente uma teologia da intimidade: há um tipo de relação com D'us — reservada a pouquíssimos justos ao longo da história, dos quais Choni é o exemplo talmúdico por excelência — em que a ousadia de exigir, e não apenas pedir, é tolerada e até celebrada, precisamente porque nasce do amor filial e não da arrogância. O versículo transforma a repreensão quase severa de Shimon ben Shetach em elogio: o comportamento de Choni, por mais fora do comum que fosse, é exatamente o que traz alegria a um pai.
Rambam esclarece o sentido técnico da palavra "círculo"; Bartenura precisa a natureza do excesso de chuva que a mishná exclui do clamor comunitário.
"Sobre toda calamidade que não venha sobre a comunidade, clamam, etc." — "traçou um círculo" (ag ugá) tem o mesmo sentido de "círculo" (igul), ou seja, Choni desenhou uma linha circular fechada no chão à sua volta.
"Exceto sobre o excesso de chuva" — não se refere a uma chuva tão intensa que já esteja estragando as colheitas — sobre essa, de fato, se clamaria — mas ao caso em que já choveu o suficiente, de modo que a chuva adicional não é mais necessária e passa a ser apenas incômodo para as pessoas; ainda assim, por continuar sendo sinal de bênção em sua origem, não se clama contra ela.
Rashi explica a origem bíblica do gesto do círculo, remetendo à oração do profeta Habacuc, e a razão exata da repreensão de Shimon ben Shetach.
"Clamam" — recitando a bênção de Aneinu. "Que não venha" — a mishná usa uma expressão eufemística, evitando dizer diretamente "calamidade que virá". "Fornos de Pêssach" — que ficavam nos pátios e eram feitos de barro, e por isso os removiam para que não se dissolvessem sob a chuva. "Chuva de cisternas" — chuva copiosa o bastante para encher as cisternas. "Generosidade" — vontade e boa medida, sem excesso nem falta. "Pedra dos Reclamantes" — havia em Jerusalém uma pedra onde todo aquele que perdera um objeto anunciava sua perda, conforme explicado em Bava Metzia. "Traçou um círculo" — uma linha circular fechada, do mesmo sentido da palavra ugá, que é redonda — do mesmo modo que fez o profeta Habacuc, como se explica no targum de sua oração: "sobre minha guarda me colocarei" — Habacuc fez algo como uma prisão para si mesmo e nela se sentou, aguardando resposta divina; Choni repete esse gesto profético de auto-confinamento como forma extrema de súplica. "Se não fosses Choni" — mas és um homem grande. "Excomunhão" — pois excomungam por causa da honra do mestre, já que Choni "atirou palavras" contra D'us, dizendo "não foi isso que pedi" com um tom quase de reclamação. "Importuna" (mitchatê) — da raiz de chet, pecado, ou seja, "vai e peca" — a linguagem de Choni, tomada ao pé da letra, beirava a insolência perante o Divino, e é exatamente essa ousadia que Shimon ben Shetach reconhece como tolerável apenas num homem da estatura espiritual de Choni.