Seder Kodashim · Massechet Temurá · Perek Alef · Mishná 3 de 6

Não se trocam membros nem fetos por animal inteiro

אֵין מְמִירִין אֵבָרִים בְּעֻבָּרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Não se troca membro de animal comum por feto consagrado, nem feto por membro, nem membros e fetos por animal inteiro consagrado, nem o inverso; Rabi Yossi permite trocar membro por animal inteiro, e traz prova da consagração inicial — onde declarar a perna consagra o animal todo

Não se trocam membros por fetos, nem fetos por membros, nem membros e fetos por animais inteiros, nem inteiros por eles. Rabi Yossi diz: trocam-se membros por inteiros, mas não inteiros por membros. Disse Rabi Yossi: E não é que, quanto aos consagrados, aquele que diz “a perna desta seja oferta de subida”, o animal todo é oferta de subida? Também quando disser “a perna desta em lugar daquela”, o animal todo será a troca em lugar dela.

— A mishná trata de trocas parciais: se alguém declara que um membro de um animal comum substitui um feto consagrado — ou seja, um feto que estava no ventre de uma fêmea consagrada — a santidade da troca não recai sobre esse membro, pois a proibição da Torá fala em “animal por animal”, um animal inteiro. O mesmo vale ao inverso, e vale igualmente quando se tenta trocar um membro ou um feto por um animal consagrado inteiro, ou um animal inteiro por um membro ou feto consagrado — para os Sábios, nenhuma dessas combinações produz temurá válida. Rabi Yossi discorda parcialmente: para ele, se alguém declara que um membro de um animal comum substitui um animal consagrado inteiro, a santidade da troca se espalha a partir desse membro para todo o animal comum, tornando-o, por inteiro, a troca válida — mas o inverso não funciona, pois um único membro do animal consagrado não tem força para consagrar por troca um animal inteiro. Sua prova vem da própria lei da consagração inicial: assim como quem declara “a perna desta seja oferta de subida” consagra o animal inteiro (pois a santidade de uma parte se propaga ao todo), o mesmo princípio deve valer para a troca.

אֵין מְמִירִין אֵבָרִים בְּעֻבָּרִים וְלֹא עֻבָּרִים בְּאֵבָרִים, וְלֹא אֵבָרִים וְעֻבָּרִים בִּשְׁלֵמִים וְלֹא שְׁלֵמִים בָּהֶן. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, מְמִירִים אֵבָרִין בִּשְׁלֵמִים וְלֹא שְׁלֵמִים בְּאֵבָרִין. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי, וַהֲלֹא בְמֻקְדָּשִׁין, הָאוֹמֵר רַגְלָהּ שֶׁל זוֹ עוֹלָה, כֻּלָּהּ עוֹלָה, אַף כְּשֶׁיֹּאמַר רַגְלָהּ שֶׁל זוֹ תַּחַת זוֹ, תְּהֵא כֻלָּהּ תְּמוּרָה תַּחְתֶּיהָ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Temurá 1:3
אין ממירין אברים בעוברים ולא עוברים באברים כו': דע שהמקדיש עובר הרי הוא מוקדש, ואפילו קדשי מזבח, ואין הלכה כר' יוסי בענין התמורה:

Rambam nota, de passagem, um pressuposto essencial por trás de toda a mishná: quem consagra especificamente um feto, ele fica consagrado como oferta de altar, tal qual o animal já nascido — e é justamente por os fetos e os membros terem esse status de objetos de consagração próprios que a mishná discute se podem ou não ser objeto de troca. A halachá não segue Rabi Yossi; prevalece a opinião dos Sábios, de que nem membros nem fetos, em qualquer direção, efetuam temurá com um animal inteiro.

Bartenura · Temurá 1:3
אֵבָרִים בְּעֻבָּרִים. אֵבָרִים דְּחֻלִּין בְּעֻבָּרִים דְּקֹדֶשׁ. שֶׁאִם אָמַר תְּהֵא רֶגֶל בְּהֵמָה זוֹ תְּמוּרַת עֻבַּר קֹדֶשׁ שֶׁבִּמְעֵי בְּהֵמָה זוֹ, אֵין הַקְּדֻשָּׁה חָלָה עַל הָאֵבָר: וְלֹא עֻבָּרִים בְּאֵבָרִים. שֶׁאִם אָמַר הֲרֵי עֻבָּר שֶׁבְּבֶהֱמַת חֻלִּין זוֹ תְּמוּרַת רֶגֶל שֶׁל בֶּהֱמַת קֹדֶשׁ זוֹ, אֵין הָעֻבָּר קָדוֹשׁ… מְמִירִים אֵבָרִים בִּשְׁלֵמִים. אָמַר הֲרֵי רֶגֶל בֶּהֱמַת חֻלִּין זוֹ תְּמוּרַת בֶּהֱמַת קֹדֶשׁ זוֹ, חָלָה תְּמוּרָה עַל הָאֵבָר וּפָשְׁטָה לָהּ בְּכָל הַבְּהֵמָה וְהַוְיָא תְּמוּרָה כֻּלָּהּ וּקְרֵבָה: וְלֹא שְׁלֵמִים בָּהֶן. דְּאֵין כֹּחַ בְּאֵבָר אֶחָד שֶׁל בֶּהֱמַת קֹדֶשׁ לַעֲשׂוֹת תְּמוּרָה… וַהֲלָכָה כְּתַנָּא קַמָּא:

Bartenura exemplifica cada cláusula com fórmulas concretas: quem declara que a perna de um animal comum é a troca de um feto consagrado no ventre de outra fêmea — a santidade não recai sobre a perna; e quem declara que o feto de um animal comum é a troca de uma perna de animal consagrado — o feto não fica consagrado. Já na opinião de Rabi Yossi, quando alguém declara que a perna de um animal comum é a troca de um animal consagrado inteiro, a santidade se propaga da perna para todo o animal comum, tornando-o, por inteiro, uma troca válida e apta a ser oferecida; mas o inverso não vale, pois um único membro do animal consagrado não tem força suficiente para efetuar a troca de um animal inteiro. A halachá segue o primeiro taná (os Sábios), não Rabi Yossi.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Temurá 10a, sobre a Guemará desta mishná
מתני' לא אברים — דחולין בעוברין דהקדש, שאם אמר תהא רגל בהמה זו תמורת עובר הקדש שבמעי בהמה זו, אין הקדושה חלה על האבר: ואין עוברין באברין — שאם אמר הרי עובר שבמעי בהמת חולין זו תמורת רגל בהמת קדש זו, אין העובר קודש: ולא אברין ועוברין — דחולין בשלימים דקדש: ולא שלימין — דחולין באברין ועוברין דקדש: ממירין אברין בשלימין — אמר הרי רגל בהמת חולין זו תמורה תחת בהמת קודש זו, חלה תמורה על האבר ופשטה לה בכל הבהמה והויא תמורה כולה וקרבה: ולא שלימין בהן — דאין כח באבר אחד של בהמת קדש לעשות תמורה: והלא במוקדשים — כלומר בתחילת ההקדש, כשאומר רגלה של זו עולה, כדמפרש טעמא לקמן בגמ':

Rashi ilustra cada frase da mishná com o exemplo correspondente, confirmando a leitura de Bartenura: a santidade da troca não recai sobre um membro isolado quando o objeto trocado é um feto consagrado, nem sobre um feto quando o objeto trocado é um membro; e nenhuma das duas combinações vale quando se tenta trocar com um animal consagrado inteiro. Já na opinião de Rabi Yossi, a declaração sobre a perna de um animal comum é suficiente para que a santidade da troca se espalhe por todo o animal, tornando-o apto à oferenda — mas não no sentido inverso, pois um só membro do animal consagrado carece de força para consagrar por troca um animal inteiro. Sobre a prova de Rabi Yossi, Rashi remete à explicação detalhada que a Guemará traz a seguir, a partir da lei já estabelecida de que a consagração de uma perna, no início, consagra o animal por inteiro.