A troca do primogênito e do dízimo, e a cria delas, e a cria da cria delas até o fim do mundo — eis que estas são como primogênito e como dízimo, e serão comidas com seu defeito pelos donos. Qual é a diferença entre o primogênito e o dízimo e todos os demais consagrados? Que todos os demais consagrados se vendem no açougue, e se abatem no açougue, e se pesam pela libra — exceto o primogênito e o dízimo. E têm resgate, e suas trocas têm resgate — exceto o primogênito e o dízimo. E vêm de fora da terra — exceto o primogênito e o dízimo: se vierem sem defeito, serão oferecidos; e se tiverem defeito, serão comidos com seu defeito pelos donos. Disse Rabi Shimon: qual é a razão? Que o primogênito e o dízimo têm sustento em seu próprio lugar, mas todos os demais consagrados, ainda que lhes nasça defeito, permanecem em sua santidade.
— Encerrando o Perek Guimel, a última mishná trata da troca do bechor (primogênito do rebanho, dado ao sacerdote) e do maasser behemá (dízimo animal): sua troca, e todas as crias sucessivas, mantêm o mesmo estatuto do original — ao adquirirem defeito, são comidas pelos donos (o bechor pelo sacerdote, o maasser pelo israelita) sem necessidade de resgate. A mishná então lista uma série de diferenças práticas entre o bechor e o maasser, de um lado, e todos os demais consagrados, de outro: os demais, uma vez resgatados por terem defeito, tornam-se totalmente profanos e podem ser vendidos e abatidos como carne comum no açougue, pesados pela libra como qualquer mercadoria — privilégio negado ao bechor e ao maasser, cuja carne nunca perde por completo o toque de sua origem sagrada. Da mesma forma, os demais consagrados têm resgate formal, transferindo a santidade para o dinheiro; o bechor e o maasser não têm resgate algum. E os demais consagrados podem ser trazidos originalmente de fora da terra de Israel; o bechor e o maasser, não — mas se ainda assim vierem de lá, sendo perfeitos são oferecidos normalmente, e tendo defeito são comidos pelos donos, como de costume. Rabi Shimon explica a razão dessa última diferença: o bechor e o maasser têm “sustento em seu próprio lugar” — isto é, mesmo fora da terra, podem pastar até adquirir defeito e ser comidos ali mesmo, sem necessidade de trazê-los a Jerusalém; já os demais consagrados, mesmo com defeito, permanecem obrigatoriamente em sua santidade, exigindo resgate e nova oferenda com o valor recebido.
Rambam remete à sua explicação anterior, em Bechorot, sobre a razão pela qual bechor e maasser recebem tratamento único: a Torá emprega uma comparação (“e comerás perante o Eterno teu Deus o dízimo de teu grão... e os primogênitos de teu gado”) que liga o local de origem de ambos ao próprio dízimo de grãos, restringindo-os à terra de Israel — embora Rabi Ishmael, cuja opinião é rejeitada, permitisse ainda oferecer normalmente um bechor perfeito trazido de fora. Esclarece que a comparação central da mishná é entre bechor/maasser (quando adquirem defeito) e os demais animais consagrados desqualificados para o altar. Detalha a razão prática de Rabi Shimon para a ausência de resgate no bechor e no maasser: como podem ser plenamente aproveitados mesmo com defeito — comidos pelos respectivos donos — não há necessidade de transferir sua santidade para dinheiro; já os demais consagrados, se não forem resgatados, ficam completamente inutilizados, pois nem servem para o altar nem podem ser comidos sem que sua santidade seja antes transferida ao dinheiro do resgate.
Bartenura explica o significado de “açougue” (itlis) como o mercado comum onde se vende carne profana, e nota que bechor e maasser jamais podem ser vendidos ali, mesmo depois de resgatados por terem defeito — ao contrário de todos os demais consagrados. Justifica a ausência de resgate para bechor e maasser: como o proveito de sua venda vai para o sacerdote (bechor) ou para o próprio dono (maasser), não há razão para desvalorizar objetos sagrados permitindo que sejam formalmente resgatados como os demais. Sobre a vinda de fora da terra de Israel, remete a explicação para a Guemará mais adiante, mas confirma que, se ainda assim vierem perfeitos, são oferecidos normalmente. Detalha a razão final de Rabi Shimon: bechor e maasser têm “sustento em seu lugar”, ou seja, mesmo fora da terra de Israel, podem pastar até adquirir defeito e ser comidos ali mesmo pelos donos, dispensando o transporte até Jerusalém; já os demais consagrados, mesmo com defeito, permanecem em sua santidade e exigem resgate formal, elevação de seu valor, e nova oferenda com esse dinheiro. Conclui com a halachá final: bechor e maasser perfeitos trazidos de fora da terra não são oferecidos, com base no versículo que equipara, pela justaposição, o lugar de elevação do dízimo de grãos ao lugar de elevação do primogênito — e o dízimo animal, por sua vez, é equiparado ao dízimo de grãos.
Rashi confirma que a troca do bechor e do maasser recebem plenamente a santidade original, a ponto de nunca poderem ser vendidas no açougue comum, mesmo depois de resgatadas por defeito — diferente de todos os outros consagrados. Explica a razão da ausência de resgate citando as próprias expressões bíblicas: “não o resgatarás”, dita sobre o bechor, e “não se resgatará”, dita sobre o maasser — textos que vedam formalmente tirá-los de sua santidade por meio de resgate. Sobre a razão final de Rabi Shimon, explica com clareza a lógica prática: como bechor e maasser têm uma solução viável mesmo fora da terra de Israel — pastar até o defeito e ser comidos ali mesmo pelos donos — não há necessidade de trazê-los à força até Jerusalém; já os demais consagrados, mesmo defeituosos, permanecem obrigatoriamente santificados, e, uma vez que seu destino final é ser resgatados e ter seu valor levado ao altar por meio de uma nova oferenda, é preferível que os próprios animais, quando perfeitos, sejam trazidos e oferecidos diretamente.
Com esta mishná, encerra-se o Perek Guimel de Massechet Temurá — cinco mishnayot dedicadas ao princípio de que a cria e a troca de um consagrado, em regra, herdam o estatuto do animal de origem: a cria dos shelamim e o debate sobre se ela mesma pode ser oferecida (mishná 1), a cria da todá e a cria da troca da olá (mishná 2), os casos irregulares em que uma fêmea separada para olá ou para culpa gera um filhote que não pode ser oferecido diretamente, e a troca da própria oferenda de culpa (mishná 3), a explicação da diferença entre a oferenda de obrigação individual e a voluntária comunitária (mishná 4), e por fim a troca do bechor e do maasser, com as diferenças que os distinguem de todos os demais consagrados (mishná 5). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as cinco mishnayot deste perek se distribuem por Temurá 17b–21a, e cada uma reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya.
O tratado prossegue, em seu próximo capítulo (Perek Dalet), com as leis da cria e da troca da chatat (oferenda de pecado) — incluindo os casos em que o animal separado para chatat é substituído, perdido, ou encontrado depois que outro já foi oferecido em seu lugar — seguido pela santidade do corpo e a santidade do valor (Perek Hei), os animais proibidos ao altar por sua origem (Perek Vav), e as leis finais sobre o que se faz com animais que se tornaram proibidos (Perek Zayin).