A cria da chatat, e a troca da chatat, e a chatat cujos donos morreram — morrerão. A que passou seu ano, e a que se perdeu e foi achada com defeito: se depois que os donos se expiaram, morrerá, e não faz troca, não se aproveita dela, e não se comete apropriação indevida com ela. Se antes que os donos se expiassem, pastará até que adquira defeito, e será vendida, e trará com seu dinheiro outra, e faz troca, e se comete apropriação indevida com ela.
— Ao abrir o Perek Dalet, a mishná retoma as cinco categorias de chatat que, segundo a halachá recebida, ficam impróprias para o altar sem remédio e por isso são deixadas para morrer de fome, encerradas (como já visto em Temurá 2:2): a cria da chatat, a troca da chatat, e a chatat cujo dono morreu — estas três morrem sempre, incondicionalmente. Mas a mishná acrescenta duas categorias adicionais e as trata de modo distinto: a chatat cujo ano (contado do nascimento) já passou — tornando-a inválida para ser oferecida — e a chatat que se perdeu e, quando encontrada, já tinha adquirido defeito. Estas duas só morrem se forem encontradas depois que os donos já obtiveram expiação com outro animal; nesse caso, elas também não fazem troca — isto é, um animal comum trocado por elas não assume sua santidade — nem se aproveita delas, nem há responsabilidade por apropriação indevida caso alguém as use, pois sua santidade já se dissipou por completo. Mas se forem encontradas antes que os donos se expiassem, a lei é mais branda: pastam livremente até adquirirem defeito, são então vendidas, e o dinheiro da venda compra uma chatat substituta — e, ao contrário das que morrem, este próprio animal (o que pastou) continua apto a fazer troca e permanece sujeito às leis de apropriação indevida até ser vendido.
Rambam esclarece um problema de sintaxe da mishná: a cláusula “até que adquira defeito” refere-se tanto à que passou seu ano quanto à que se perdeu, e a expressão “que se perdeu” é compartilhada entre as duas leituras — a Guemará organiza o versículo lendo-o como “que passou seu ano e se perdeu” e também como “que se perdeu e foi achada com defeito”. Repete a explicação já dada sobre “não se aproveita e não se comete apropriação indevida”: é proibido, de saída, tirar proveito desse animal, mas quem o faz não fica obrigado a trazer oferenda de apropriação indevida. Detalha então as condições técnicas que fazem essa “perda” contar para o efeito de morte: o animal deve ter se perdido precisamente no momento da expiação (não no momento em que foi separado), deve ter se perdido de dia e não de noite, deve ter desaparecido tanto do dono quanto do pastor e de qualquer outra pessoa, de modo que ninguém o reconheça mesmo até o fim do mundo, e deve estar em lugar oculto, como dentro de uma caverna ou atrás de uma cerca. Faltando qualquer uma dessas condições, o animal não morre; antes, pasta até adquirir defeito, é vendido, seu dinheiro compra substituta, e ele próprio continua apto a fazer troca e sujeito à apropriação indevida. O mesmo vale se foi furtado ou roubado: pasta até adquirir defeito, pois — como dizem — “seguimos a regra: perdida, e não furtada; perdida, e não roubada”.
Bartenura explica que “que passou seu ano” significa que o animal não é mais válido para ser oferecido como chatat, pois a Torá exige que seja “em seu ano”; mas essa invalidez sozinha não basta para condená-lo à morte — ele pasta até adquirir defeito, até que se acumulem dois fatores negativos: ter passado o ano e se perdido, ou ter se perdido e sido achado com defeito. É assim que a Guemará resolve a redação da mishná, aplicando a cláusula “que se perdeu” às duas leituras simultaneamente. Explica “se depois que os donos se expiaram” como referindo-se à expiação com outro animal ocorrida após o achado deste; e confirma que, mesmo os Sábios que mais adiante neste capítulo discordam de Rabi e dizem que uma chatat só morre se achada depois da expiação, aqui concordam — justamente por haver dois fatores negativos acumulados. Já se houvesse apenas a perda, sem o segundo fator, o animal não morreria, mas pastaria, mesmo que a expiação com outro tivesse ocorrido depois. Sobre “não se aproveita”, esclarece tratar-se de proibição rabínica; e sobre “não se comete apropriação indevida”, explica que quem se beneficia dela fica isento da oferenda de apropriação indevida, pois, já que nem o corpo nem o valor deste animal serão oferecidos, sua santidade se esvai por completo. Por fim, explica que “faz troca” se aplica porque o dinheiro de sua venda ainda está destinado a ser oferecido — e todo objeto destinado a pastar até adquirir defeito, e então ser vendido para comprar uma oferenda, continua a fazer troca normalmente.
Rashi confirma que “que se perdeu e foi achada com defeito” se refere ao caso em que isso ocorre antes de os donos se expiarem com outro animal, enquanto “se depois que os donos se expiaram” se refere à expiação ocorrida depois desse achado. Explica que ela morre mesmo segundo os Sábios que, mais adiante neste capítulo, discordam de Rabi e sustentam que uma chatat só morre se for achada depois da expiação dos donos — aqui eles concordam, justamente porque há dois fatores negativos acumulados: perdeu-se e foi achada com defeito. E é por isso que a mishná especifica “com defeito”: pois, se estivesse perfeita, já que foi achada antes da expiação, mesmo que os donos depois se expiassem com outra, ela apenas pastaria.