Seder Kodashim · Massechet Temurá · Perek Hei · Mishná 3 de 6

A cria e a mãe: qual designação prevalece

הָאוֹמֵר וְלָדָהּ שֶׁל זוֹ עוֹלָה וְהִיא שְׁלָמִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quem consagra a cria de uma fêmea prenhe como oferenda de elevação e a mãe como sacrifício de paz, e o caso inverso; a disputa entre Rabi Meir e Rabi Yossi sobre a ordem das designações e sobre o valor da reconsideração dentro do tempo de uma fala

Aquele que diz: “A cria desta é oferenda de elevação, e ela é sacrifício de paz” — suas palavras permanecem. “Ela é sacrifício de paz, e sua cria é oferenda de elevação” — eis que esta é cria de sacrifício de paz; palavras de Rabi Meir. Disse Rabi Yossi: se para isso teve intenção desde o início, visto que é impossível pronunciar dois nomes ao mesmo tempo, suas palavras permanecem. Mas se, depois de dizer “esta é sacrifício de paz”, reconsiderou e disse “sua cria é oferenda de elevação”, eis que esta é cria de sacrifício de paz.

— Esta mishná trata de quem consagra uma fêmea já prenhe, tratando a mãe e a cria como duas designações distintas na mesma fala. Se o dono nomeia primeiro a cria — “a cria desta é oferenda de elevação” — e só depois nomeia a mãe — “e ela é sacrifício de paz” —, ambas as designações são válidas, pois a santidade da cria foi declarada primeiro e de modo independente, antes que a santidade da mãe pudesse arrastá-la consigo. Mas se ele inverte a ordem — primeiro consagra a mãe como sacrifício de paz, e só depois, na mesma fala, declara a cria como oferenda de elevação —, para Rabi Meir a cria segue a mãe: uma vez que a mãe foi consagrada primeiro como sacrifício de paz, isso já inclui tudo o que nela há, inclusive o feto, e a segunda declaração não consegue mais desviá-lo, permanecendo a cria como sacrifício de paz. Rabi Yossi distingue dois casos dentro dessa mesma frase invertida: se, desde o início, a intenção do dono já era dar duas designações diferentes — e ele apenas não pôde pronunciar as duas de uma só vez, pois a boca fala uma coisa de cada vez —, então ambas as designações valem, exatamente como na ordem direta. Mas se, ao contrário, ele primeiro consagrou a mãe com a intenção completa e definitiva de que fosse sacrifício de paz, e só depois, ao reconsiderar, quis mudar o destino da cria, essa reconsideração não tem efeito, e a cria permanece sacrifício de paz, seguindo a mãe. A halachá segue Rabi Yossi.

הָאוֹמֵר, וְלָדָהּ שֶׁל זוֹ עוֹלָה וְהִיא שְׁלָמִים, דְּבָרָיו קַיָּמִים. הִיא שְׁלָמִים וּוְלָדָהּ עוֹלָה, הֲרֵי זוֹ וְלַד שְׁלָמִים, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי, אִם לְכֵן נִתְכַּוֵּן מִתְּחִלָּה, הוֹאִיל וְאִי אֶפְשָׁר לִקְרוֹת שְׁנֵי שֵׁמוֹת כְּאַחַת, דְּבָרָיו קַיָּמִים. וְאִם מִשֶּׁאָמַר הֲרֵי זוֹ שְׁלָמִים, נִמְלַךְ וְאָמַר וְלָדָהּ עוֹלָה, הֲרֵי זוֹ וְלַד שְׁלָמִים:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Temurá 5:3
הָאוֹמֵר וְלָדָהּ שֶׁל זוֹ עוֹלָה וְהִיא שְׁלָמִים דְּבָרָיו כו': פֵּרוּשׁ נִמְלַךְ שֶׁנִּתְיָעֵץ. וְאָמַר רַבִּי יוֹסֵי שֶׁהוֹאִיל וְאָמַר הֲרֵי זוֹ שְׁלָמִים וְלֹא הָיְתָה כַּוָּנָתוֹ יוֹתֵר מִזֶּה, שֶׁאָמַר אַחַר כָּךְ חָזַר אָמַר וְלָדָהּ עוֹלָה, וְאַף עַל פִּי שֶׁהוּא תּוֹךְ כְּדֵי דִבּוּר אֵין סוֹמְכִין אֶלָּא עַל דִּבּוּר רִאשׁוֹן, לְפִי שֶׁהָעִקָּר בְּיָדֵינוּ תּוֹךְ כְּדֵי דִבּוּר כְּדִבּוּר דָּמֵי, זוּלָתִי בְּמַקְדִּישׁ וּמֵימֵר וּמְגַדֵּף וְעוֹבֵד עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים וּמְקַדֵּשׁ וּמְגָרֵשׁ. וְאֵלּוּ הַשִּׁשָּׁה דְּבָרִים הוֹצִיאוּ אוֹתָן בְּגוּף הַגְּמָרָא, אֲבָל מַקְדִּישׁ וּמֵימֵר הֲרֵי הוּא כְּמוֹ שֶׁנִּתְבָּאֵר בַּמָּקוֹם הַזֶּה, וּבְסוֹף נְדָרִים הוֹצִיאוּ מְגַדֵּף וְעוֹבֵד עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים וּמְגָרֵשׁ וּמְקַדֵּשׁ. וְזֶה הָעִנְיָן, שֶׁהַדְּבָרִים הָאֵלֶּה לֹא תוֹעִיל בָּהֶם חֲזָרָה וְתוֹסֶפֶת תְּנַאי וַאֲפִלּוּ תּוֹךְ כְּדֵי דִבּוּר, אֲבָל מַקְדִּישׁ וּמֵימֵר הֲרֵי הוּא כְּמוֹ שֶׁבֵּאַר בְּכָאן. וְכֵן אִם אָמַר לְאִשָּׁה הֲרֵי אַתְּ מְקֻדֶּשֶׁת אוֹ הֲרֵי זֶה גִטֵּךְ וְנָתַן לָהּ גִּטָּהּ אוֹ קִדּוּשֶׁיהָ, וְחָזַר וְאָמַר תּוֹךְ כְּדֵי דִבּוּר לִגְמֹר הָעִנְיָן לֹא יִהְיוּ הַקִּדּוּשִׁין אוֹ הַגֵּט אֶלָּא עַל מְנָת כֵּן, אֵין מוֹעִיל וְאֵין שׁוֹמְעִין לוֹ. וְכֵן אִם אָמַר בַּעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים אֵלִי אַתָּה, נִתְחַיֵּב בְּמִיתָה, כְּמוֹ שֶׁבֵּאַרְנוּ בַּשְּׁבִיעִי מִסַּנְהֶדְרִין, כְּשֶׁאָמְרוּ זִכְרוֹנָם לִבְרָכָה וְהַמְקַבְּלוֹ עָלָיו בֶּאֱלוֹהַּ, וְאַחַר כָּךְ חָזַר תּוֹךְ כְּדֵי דִבּוּר וְאָמַר אֵינוֹ אֱלוֹהַּ, אֵין זֶה מוֹעִיל לוֹ. וְכֵן הַמְגַדֵּף. וּמִי שֶׁעָלָה בְּדַעְתּוֹ שֶׁהַמַּתְפִּיס לַעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים חַיָּב בְּדִבּוּר בִּלְבַד, וְשֶׁהוּא עִנְיַן מַה שֶּׁאָמַר וַעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים, הֲרֵי זֶה טָעוּת גָּדוֹל, לְפִי שֶׁעִקָּר בְּיָדֵינוּ אֵין הֶקְדֵּשׁ לַעֲבוֹדַת כּוֹכָבִים, כְּמוֹ שֶׁיִּתְבָּאֵר בַּפֶּרֶק שֶׁאַחֲרֵי זֶה. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי:

Rambam explica que “reconsiderou” significa quem se aconselhou consigo mesmo e mudou de ideia. E disse Rabi Yossi que, já que o dono disse “eis que esta é sacrifício de paz” e não teve, além disso, outra intenção, e depois voltou atrás e disse “sua cria é oferenda de elevação” — ainda que isso tenha sido dentro do tempo de uma fala, apoiamo-nos apenas na primeira fala, pois o princípio estabelecido é que o que é dito dentro do tempo de uma fala é como a própria fala, exceto em quem consagra, em quem faz voto, em quem blasfema, em quem serve ídolos, em quem consagra uma mulher e em quem divorcia. E essas seis coisas foram deduzidas na própria Guemará; mas “quem consagra” e “quem faz voto” são como se esclareceu neste lugar, e no fim de Nedarim deduziram-se “quem blasfema”, “quem serve ídolos”, “quem divorcia” e “quem consagra [uma mulher]”. E o sentido é que, nessas coisas, não vale a retratação nem o acréscimo de condição, mesmo dentro do tempo de uma fala. Do mesmo modo, se disse a uma mulher “eis que estás consagrada [a mim]” ou “eis este é teu documento de divórcio” e lhe deu o documento ou a consagrou, e depois, dentro do tempo de uma fala, voltou e disse, para completar o assunto, que a consagração ou o divórcio valeriam apenas sob tal condição — isso não vale, e não se ouve dele. E, do mesmo modo, quem diz a um ídolo “tu és meu deus” torna-se culpado de morte, como explicamos no sétimo capítulo de Sanhedrin: quando alguém o aceita sobre si como divindade, e depois, dentro do tempo de uma fala, volta atrás e diz “não é divindade”, isso não lhe vale — e do mesmo modo quem blasfema. Rambam adverte, por fim, que é grande erro supor que quem se compromete verbalmente a algo destinado a um ídolo se torna obrigado só pela fala, pois o princípio estabelecido é que não há consagração para ídolo. A halachá segue Rabi Yossi.

Bartenura · Temurá 5:3
הָאוֹמֵר. עַל וְלָדָהּ שֶׁל בְּהֵמָה מְעֻבֶּרֶת: וְלָדָהּ שֶׁל זוֹ עוֹלָה וְהִיא שְׁלָמִים דְּבָרָיו קַיָּמִין. שֶׁהֲרֵי קְדֻשַּׁת הַוָּלָד קָדְמָה. אֲבָל אָמַר הִיא שְׁלָמִים בְּרֵישָׁא, לָהּ וּלְכָל דְּאִית בָּהּ אַקְדְּשַׁהּ, וְהָוֵי כְּמַקְדִּישׁ שְׁתֵּי בְּהֵמוֹת לִשְׁלָמִים, וְכִי הָדַר וְאָמַר וְלָדָהּ עוֹלָה, הָוֵי הַוָּלָד שְׁלָמִים. וְהָכָא לֹא שַׁיָּךְ לְמֵימַר בַּהֲוָיָתָן וּבִמְעֵי אִמָּן, דְּכִי אָמְרִינַן בַּהֲוָיָתָן וְלֹא בִמְעֵי אִמָּן, הָנֵי מִלֵּי בְּהִקְדִּישָׁהּ וּלְבַסּוֹף נִתְעַבְּרָה, דְּאִיהוּ לֹא אַתְפְּסֵיהּ לָעֻבָּר שׁוּם קְדֻשָּׁה, אֶלָּא מִקְּדֻשַּׁת אִמֵּיהּ קָא קַדִּישׁ. אֲבָל בְּמַקְדִּישׁ מְעֻבֶּרֶת, חֲשִׁיב עֻבָּר לְקַבּוֹלֵי קְדֻשָּׁה. וְרַבִּי מֵאִיר אִית לֵיהּ תְּפֹס לָשׁוֹן רִאשׁוֹן: אִם לְכָךְ נִתְכַּוֵּן מִתְּחִלָּה. כְּשֶׁאָמַר הִיא שְׁלָמִים לֹא נִתְכַּוֵּן לִוְלָדָהּ: הוֹאִיל וְאִי אֶפְשָׁר לִקְרוֹת שְׁנֵי שֵׁמוֹת כְּאַחַת. שֶׁאֵין הַפֶּה יָכוֹל לְדַבֵּר שְׁנֵי דְּבָרִים כְּאַחַת: דְּבָרָיו קַיָּמִין. דְּאַף בִּגְמַר דְּבָרָיו אָדָם נִתְפָּס: נִמְלַךְ וְאָמַר וְלָדָהּ עוֹלָה. אַף עַל פִּי שֶׁחָזַר בּוֹ תּוֹךְ כְּדֵי דִבּוּר וְאָמַר וְלָדָהּ עוֹלָה, לֹא אָמַר כְּלוּם, הוֹאִיל וּבְשָׁעָה שֶׁהִקְדִּישׁ אִמּוֹ לִשְׁלָמִים לֹא נִתְכַּוֵּן שֶׁיִּהְיֶה הַוָּלָד עוֹלָה. מִשּׁוּם דְּקַיְמָא לָן כָּל תּוֹךְ כְּדֵי דִבּוּר כְּדִבּוּר דָּמֵי, חוּץ מִמַּקְדִּישׁ וּמֵימֵר וּמְגַדֵּף וְעוֹבֵד עֲבוֹדָה זָרָה וּמְקַדֵּשׁ וּמְגָרֵשׁ, דְּהָנָךְ שִׁשָּׁה אֵין הַחֲזָרָה מוֹעֶלֶת בָּהֶן אַף עַל פִּי שֶׁחָזַר בּוֹ תּוֹךְ כְּדֵי דִבּוּר. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי:

Bartenura explica que “aquele que diz” refere-se à cria de um animal prenhe. Sobre “a cria desta é oferenda de elevação, e ela é sacrifício de paz, suas palavras permanecem”: porque a santidade da cria veio primeiro. Mas se disse “ela é sacrifício de paz” primeiro, consagrou-a a ela e a tudo o que nela há, sendo como quem consagra dois animais para sacrifício de paz; e quando depois volta e diz “sua cria é oferenda de elevação”, a cria permanece sacrifício de paz. E aqui não cabe o princípio de que as crias dos consagrados se consagram “no momento em que nascem” e não “no ventre da mãe”, pois esse princípio vale apenas quando o dono consagrou a mãe e só depois ela engravidou — caso em que ele não impôs nenhuma santidade sobre o feto, e é apenas pela santidade da mãe que ele se consagra. Mas em quem consagra a mãe já prenhe, o feto é considerado apto a receber santidade própria desde então. E Rabi Meir sustenta o princípio de que se apega à primeira fala. Sobre “se para isso teve intenção desde o início”: quando disse “ela é sacrifício de paz”, não teve intenção quanto à sua cria. Sobre “visto que é impossível pronunciar dois nomes ao mesmo tempo”: pois a boca não pode falar duas coisas ao mesmo tempo. Sobre “suas palavras permanecem”: pois mesmo pela conclusão de suas palavras a pessoa se vincula. Sobre “reconsiderou e disse: sua cria é oferenda de elevação”: ainda que tenha se retratado dentro do tempo de uma fala, não disse nada de eficaz, pois no momento em que consagrou sua mãe para sacrifício de paz não teve intenção de que a cria fosse oferenda de elevação — pois estabelecemos que tudo o que é dito dentro do tempo de uma fala é como a própria fala, exceto nessas seis coisas, nas quais a retratação não vale. E a halachá segue Rabi Yossi.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Temurá 25a, sobre a Guemará desta mishná
מתני' האומר — עַל וְלָדָהּ שֶׁל בְּהֵמָה מְעֻבֶּרֶת: ולדה עולה והיא שלמים דבריו קיימין — שֶׁהֲרֵי קְדֻשַּׁת הַוָּלָד קָדְמָה. אֲבָל אִם אָמַר הִיא שְׁלָמִים בְּרֵישָׁא, לְהָאֵם וּלְכָל דְּאִית בָּהּ אַקְדִּישׁ, וְחָשִׁיב וְלָד לַמַּקְדִּישׁ בְּאַנְפֵי נַפְשֵׁיהּ, וְהָוֵי כְּמַקְדִּישׁ שְׁתֵּי בְּהֵמוֹת לִשְׁלָמִים, וְכִי הָדַר אָמַר וְלָדָהּ עוֹלָה הָוֵי הַוָּלָד שְׁלָמִים: הוֹאִיל וְאִי אֶפְשָׁר לִקְרוֹת ב' שֵׁמוֹת כְּאַחַד — שֶׁאֵין הַפֶּה יָכוֹל לְדַבֵּר שְׁנֵי דְּבָרִים כְּאַחַת: דְּבָרָיו קַיָּמִין — דְּאַף בִּגְמַר דְּבָרָיו אָדָם נִתְפָּס, הוֹאִיל וּמִתְּחִלָּה כְּשֶׁאָמַר הִיא שְׁלָמִים לֹא נִתְכַּוֵּן לִוְלָדָהּ:

Rashi esclarece o cenário: trata-se de quem fala sobre a cria de um animal prenhe. Se disse primeiro que a cria é oferenda de elevação e depois que a mãe é sacrifício de paz, suas palavras permanecem, pois a santidade da cria veio primeiro. Mas se disse “ela é sacrifício de paz” primeiro, consagrou a ela e a tudo o que nela há, e a cria é considerada, para quem a consagra, como um ser à parte já incluído nessa primeira consagração — sendo como quem consagra dois animais para sacrifício de paz; e quando depois volta e diz “sua cria é oferenda de elevação”, a cria permanece sacrifício de paz. Rashi explica ainda a razão da distinção de Rabi Yossi: “visto que é impossível pronunciar dois nomes ao mesmo tempo” significa que a boca não pode falar duas coisas simultaneamente, de modo que, quando a intenção dupla já existia desde o início, a segunda fala apenas completa a primeira; e “suas palavras permanecem” porque mesmo na conclusão de suas próprias palavras a pessoa já está vinculada — mas isso só quando, desde o começo, ao dizer “ela é sacrifício de paz”, ele já não tinha a intenção de incluir a cria.