Seder Kodashim · Massechet Temurá · Perek Hei · Mishná 6 de 6

Em vez de uma chatat e de uma olá, sem especificar

הֲרֵי זוֹ תַחַת חַטָּאת וְתַחַת עוֹלָה, לֹא אָמַר כְּלוּם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Fecho do Perek Hei: dizer “em vez de uma chatat e em vez de uma oferenda de elevação”, sem especificar qual, não tem efeito algum — o consagrado visado pela temurá deve ser conhecido e determinado; e o caso do animal impuro ou defeituoso destinado ao valor de uma oferenda, e não a ele mesmo

Eis que este está em vez de chatat, e em vez de oferenda de elevação — não disse nada. “Em vez desta chatat, e em vez desta oferenda de elevação”; “em vez da chatat e em vez da oferenda de elevação que tenho em casa”, e de fato tinha — suas palavras permanecem. Se disse, sobre um animal impuro e sobre um animal com defeito: “eis que estes são oferenda de elevação” — não disse nada. “Eis que estes são para oferenda de elevação” — serão vendidos, e com seu dinheiro trará uma oferenda de elevação.

— Esta última mishná do Perek Hei estabelece o requisito final e mais básico para que a temurá se efetive: o animal consagrado visado deve ser conhecido e determinado no momento da troca. Dizer, de modo genérico, “em vez de uma chatat e em vez de uma oferenda de elevação” — sem apontar para nenhum animal específico nem ter nenhum em mente com clareza suficiente — não produz efeito algum, pois a Torá exige que exista um consagrado definido no momento em que se declara o substituto. Mas se o dono aponta para uma chatat e uma oferenda de elevação que estão fisicamente diante dele, ou mesmo se apenas se refere “à chatat e à oferenda de elevação que tenho em casa” — contanto que de fato as tivesse naquele momento —, isso já basta para tornar o consagrado suficientemente determinado, e suas palavras permanecem válidas. A segunda parte da mishná trata de um caso distinto: um animal de espécie impura, ou um animal com defeito permanente, que nunca poderão, em circunstância alguma, ser fisicamente oferecidos no altar. Se o dono diz sobre eles “eis que estes são oferenda de elevação” — como se pretendesse oferecê-los eles mesmos —, não disse nada, pois é impossível consagrar ao próprio corpo do altar algo que nunca poderá ser oferecido. Mas se ele diz “eis que estes são para oferenda de elevação” — isto é, destinados ao valor de uma oferenda de elevação, não a si mesmos —, essa consagração de valor é plenamente válida: os animais são vendidos, e com o dinheiro de sua venda se traz uma oferenda de elevação de fato.

הֲרֵי זוֹ תַחַת חַטָּאת, וְתַחַת עוֹלָה, לֹא אָמַר כְּלוּם. תַּחַת חַטָּאת זוֹ, וְתַחַת עוֹלָה זוֹ, תַּחַת חַטָּאת וְתַחַת עוֹלָה שֶׁיֶּשׁ לִי בְתוֹךְ הַבָּיִת, הָיָה לוֹ, דְּבָרָיו קַיָּמִין. אִם אָמַר עַל בְּהֵמָה טְמֵאָה, וְעַל בַּעֲלַת מוּם, הֲרֵי אֵלּוּ עוֹלָה, לֹא אָמַר כְּלוּם. הֲרֵי אֵלּוּ לְעוֹלָה, יִמָּכְרוּ וְיָבִיא בִדְמֵיהֶם עוֹלָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Temurá 5:6
הֲרֵי זוֹ תַחַת חַטָּאת וְתַחַת עוֹלָה לֹא אָמַר כו': מַה שֶּׁאָמַר תַּחַת חַטָּאת וְתַחַת עוֹלָה, רוֹצֶה לוֹמַר אוֹ תַחַת עוֹלָה. וְהַטַּעַם בָּזֶה מַה שֶּׁאָמַר רַחֲמָנָא: «לֹא יַחֲלִיפֶנּוּ וְלֹא יָמִיר אֹתוֹ» — עַד שֶׁיְּהֵא הַהֶקְדֵּשׁ יָדוּעַ וּמְיֻחָד, וְאָז עוֹשֶׂה תְמוּרָתוֹ:

Rambam explica que a expressão da mishná “em vez de chatat e em vez de oferenda de elevação” equivale a dizer “ou em vez de oferenda de elevação” — isto é, sem determinar qual das duas. E a razão de isso não ter efeito é o que disse o Misericordioso: “não o trocará e não o substituirá” — só se pode fazer a temurá quando o consagrado já é conhecido e determinado.

Bartenura · Temurá 5:6
תַּחַת חַטָּאת אוֹ תַחַת עוֹלָה. סָתַם וְלֹא אָמַר תַּחַת חַטָּאת זוֹ אוֹ עוֹלָה זוֹ: לֹא אָמַר כְּלוּם. דִּכְתִיב «לֹא יַחֲלִיפֶנּוּ וְלֹא יָמִיר אֹתוֹ», עַד שֶׁיִּהְיֶה הַהֶקְדֵּשׁ יָדוּעַ וּמְיֻחָד כְּשֶׁמֵּמִיר בּוֹ: תַּחַת חַטָּאת זוֹ. וְהָיְתָה חַטָּאת עוֹמֶדֶת לְפָנָיו: הֲרֵי אֵלּוּ לְעוֹלָה. מַשְׁמַע לִדְמֵי עוֹלָה. דְּאִי אִינְהוּ גּוּפַיְהוּ בָּעֵי לְאַקְרוֹבֵי, הֲוָה אָמַר הֲרֵי אֵלּוּ עוֹלָה:

Bartenura explica que “em vez de chatat ou em vez de oferenda de elevação” é dito de modo genérico, sem dizer “em vez desta chatat” ou “desta oferenda de elevação”. Sobre “não disse nada”: porque está escrito “não o trocará e não o substituirá” — até que o consagrado seja conhecido e determinado no momento em que se faz a troca por ele. Sobre “em vez desta chatat”: e havia uma chatat parada diante dele. Sobre “eis que estes são para oferenda de elevação”: entende-se que é para o valor de uma oferenda de elevação; pois, se a intenção fosse que eles mesmos fossem oferecidos, o dono teria dito “eis que estes são oferenda de elevação”.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Temurá 27b, sobre a Guemará desta mishná
מתני' זו תחת חטאת זו — שֶׁהָיְתָה חַטָּאת עוֹמֶדֶת לְפָנָיו: הרי אלו לעולה — מַשְׁמַע לִדְמֵי עוֹלָה, דְּאִי אִינְהוּ גּוּפַיְהוּ הוּא בָּעֵי לְאַקְרוֹבֵי, הֲוָה אָמַר הֲרֵי אֵלּוּ עוֹלָה: גמ' — מַתְנִיתִין דְּקָתָנֵי תַּחַת חַטָּאת תַּחַת עוֹלָה לֹא אָמַר כְּלוּם, דְּלָא כְּרַבִּי מֵאִיר. לָא בָּעֵינַן מוּמָא — לָא בָּעֵי לְרָעוֹת, דְּהָא מְסֹאָבִים וְקַיָּימִים:

Rashi esclarece que “em vez desta chatat” pressupõe que havia uma chatat parada diante do dono, apontada e identificável. Sobre “eis que estes são para oferenda de elevação”: entende-se que é para o valor de uma oferenda de elevação, pois, se a intenção do dono fosse que eles mesmos fossem oferecidos, ele teria dito “eis que estes são oferenda de elevação”. A Guemará observa que esta mishná, ao ensinar que a expressão genérica “em vez de chatat, em vez de oferenda de elevação” não tem efeito, não segue a opinião de Rabi Meir. E, quanto ao animal impuro e ao animal com defeito destinados ao valor de uma oferenda de elevação, não é necessário esperar que eles pastem até adquirir um defeito antes de vendê-los — pois já se encontram, desde o início, impuros e inaptos ao altar.

סוֹף פֶּרֶק חֲמִישִׁי דְּמַסֶּכֶת תְּמוּרָה

Com esta mishná, encerra-se o Perek Hei de Massechet Temurá — seis mishnayot dedicadas à linguagem exata da consagração e da temurá, e às condições sem as quais uma declaração verbal não produz efeito algum: a abertura, com o artifício lícito para desviar o bechor da santidade automática da primogenitura, consagrando a cria ainda no ventre a uma oferenda de elevação ou de paz (5:1); os casos de dois machos, duas fêmeas, e da cria de sexo indeterminado ou duplo, com a disputa de Rabban Shimon ben Gamliel sobre quando a santidade das crias dos consagrados recai sobre elas (5:2); a ordem entre a designação da mãe e da cria, e a disputa entre Rabi Meir e Rabi Yossi sobre o valor da reconsideração dentro do tempo de uma fala (5:3); o mesmo debate transposto para a linguagem da temurá, quando um único animal é declarado substituto de duas oferendas distintas numa só fala (5:4); as fórmulas verbais que efetivamente produzem uma temurá — “em vez desta”, “substituto desta”, “permuta desta” — em contraste com a linguagem de resgate, e o caso do consagrado defeituoso que sai para o âmbito comum (5:5); e por fim a exigência de que o consagrado visado pela temurá seja conhecido e determinado, e a diferença entre destinar um animal inapto para ser ele mesmo oferecido e destiná-lo apenas para seu valor (5:6). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as seis mishnayot deste perek se distribuem por Temurá 24b–27b, e cada uma reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya.

O tratado prossegue, em seu próximo capítulo (Perek Vav), com as leis dos animais inteiramente desqualificados para o altar — entre eles o rove e o nirva, o mukdê e o ne'evad — que, segundo a própria Guemará, tornam proibido qualquer valor que se misture com eles, por mínimo que seja.