Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Yud · Mishná 9

"Gafanhotos impuros que se conservaram"

חֲגָבִים טְמֵאִים שֶׁנִּכְבְּשׁוּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuação do tema de peixe impuro para gafanhotos: gafanhotos impuros conservados junto com gafanhotos puros não invalidam a salmoura resultante, com o testemunho de Rabi Tzadok confirmando que essa salmoura é inteiramente pura

Gafanhotos impuros que se conservaram (em salmoura) junto com gafanhotos puros, não invalidaram sua salmoura (diferentemente do peixe impuro tratado na mishná anterior, cuja presença em certa proporção proíbe toda a salmoura, os gafanhotos impuros, mesmo misturados a gafanhotos puros na mesma salmoura, não tornam essa salmoura proibida — em nenhuma proporção). Rabi Tzadok testemunhou sobre a salmoura de gafanhotos impuros que ela é pura (um testemunho ainda mais forte que a afirmação inicial da mishná — não apenas que a mistura com gafanhotos puros não invalida a salmoura, mas que a própria salmoura de gafanhotos impuros sozinha, sem qualquer mistura com puros, já é intrinsecamente pura e permitida, pois os gafanhotos, ao contrário dos peixes, não possuem sangue nem fluidos corporais significativos que possam transferir sua condição impura ao líquido em que são conservados).

חֲגָבִים טְמֵאִים שֶׁנִּכְבְּשׁוּ עִם חֲגָבִים טְהוֹרִים, לֹא פָסְלוּ אֶת צִירָם. הֵעִיד רַבִּי צָדוֹק עַל צִיר חֲגָבִים טְמֵאִים, שֶׁהוּא טָהוֹר:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

O contraste com a mishná anterior (peixe impuro) revela uma distinção biológica fundamental que a halachá reconhece entre as diferentes categorias de criaturas proibidas pela Torá.

Vayikrá (Levítico) 11:20-22
כֹּל שֶׁרֶץ הָעוֹף הַהֹלֵךְ עַל אַרְבַּע, שֶׁקֶץ הוּא לָכֶם. אַךְ אֶת זֶה תֹּאכְלוּ מִכֹּל שֶׁרֶץ הָעוֹף הַהֹלֵךְ עַל אַרְבַּע, אֲשֶׁר לוֹ כְרָעַיִם מִמַּעַל לְרַגְלָיו לְנַתֵּר בָּהֵן עַל הָאָרֶץ.
"Todo réptil alado que anda sobre quatro patas é abominação para vós; mas isto comereis de todo réptil alado que anda sobre quatro patas, que tem pernas sobre suas patas, para saltar com elas sobre a terra" (Vayikrá 11:20-22) — a Torá permite espécies específicas de gafanhotos (com sinais de pureza reconhecíveis pela tradição) e proíbe as demais. O ponto central desta mishná é que, diferentemente dos peixes impuros — cuja carne contém fluidos e sangue que se dissolvem prontamente na salmoura, transmitindo sua condição proibida ao líquido — os gafanhotos, sejam puros sejam impuros, não possuem quantidade significativa de sangue ou umidade corporal capaz de impregnar a salmoura de forma halachicamente relevante.

Por que gafanhotos impuros não contaminam sua salmoura, enquanto peixes impuros contaminam? A resposta é puramente biológica, não conceitual: a proibição de misturas na halachá alimentar sempre depende de uma transferência real de substância (sangue, suco, gordura) do item proibido para o meio em que está imerso. Peixes possuem sangue e fluidos corporais abundantes que se dissolvem naturalmente na água salgada da salmoura, criando uma mistura genuína entre a substância do peixe (puro ou impuro) e o líquido. Gafanhotos, por sua anatomia de insetos, praticamente não possuem sangue no sentido convencional — apenas uma leve umidade corporal residual, insuficiente para impregnar significativamente qualquer líquido ao seu redor. Por isso, mesmo quando um gafanhoto impuro é conservado lado a lado com gafanhotos puros na mesma salmoura, não há transferência substancial de sua condição impura ao líquido — e o testemunho de Rabi Tzadok reforça essa conclusão de modo ainda mais categórico, afirmando que a própria salmoura de gafanhotos impuros, isoladamente, já é pura por natureza.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta halachá na mesma passagem de Hilchot Ma'achalot Assurot onde trata do caso paralelo do peixe impuro, confirmando o testemunho de Rabi Tzadok como lei aceita.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Ma'achalot Assurot 3:22
אֲבָל צִיר חֲגָבִים טְמֵאִים מֻתָּר, מִפְּנֵי שֶׁאֵין בָּהֶם לַחְלוּחִית.
"Mas a salmoura de gafanhotos impuros é permitida, porque não há neles umidade" (o Rambam codifica exatamente a mesma razão biológica identificada pelos mefarshim para explicar a distinção com o peixe — a ausência de secreção líquida corporal significativa nos gafanhotos torna irrelevante, para efeitos de proibição, sua eventual presença na salmoura; esta é a mesma passagem que trata do caso do peixe impuro na mishná anterior, confirmando que o Rambam trata os dois casos como parte de um único princípio consolidado — a proibição de salmoura depende inteiramente da existência de fluido corporal transferível).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 10:9
חגבים הם ממיני החגבים, אינם מבעלי חיים שיש להם דם, ולפיכך אינו פוסל צירן, כי מה ששותת מהם אינו דם אלא לחלוחית מעט מזער. ועדות רבי צדוק מקובל.

Gafanhotos são das espécies de gafanhotos (o comentário identifica a categoria zoológica em questão). Não são dos seres vivos que têm sangue (diferentemente de peixes, mamíferos e aves, cuja fisiologia inclui um sistema sanguíneo substancial), e por isso (sua condição impura) não invalida sua salmoura, pois o que escorre deles não é sangue, mas apenas uma umidade mínima e insignificante (o Rambam explica a base biológica exata: não é que gafanhotos não tenham fluido algum, mas que a quantidade é tão ínfima que não chega a configurar uma transferência halachicamente relevante). E o testemunho de Rabi Tzadok é aceito (o Rambam confirma que a halachá segue integralmente a posição mais permissiva, testemunhada por uma autoridade confiável, sem reservas).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 10:9
לֹא פָסְלוּ אֶת צִירָן. דְּהֵקֵלּוּ בְּצִיר שֶׁל חֲגָבִים טְמֵאִים שֶׁאֵינוֹ אוֹסֵר, מִפְּנֵי שֶׁאֵין לָהֶם דָּם וְאֵינוֹ אֶלָּא לַחְלוּחִית בְּעַלְמָא: שֶׁהוּא טָהוֹר. לֹא מִבַּעְיָא דְּאֵינוֹ אוֹסֵר אֶת תַּעֲרֻבְתּוֹ, אֶלָּא הוּא עַצְמוֹ טָהוֹר. וַהֲלָכָה כְּעֵדוּתוֹ שֶׁל רַבִּי צָדוֹק.

"Não invalidaram sua salmoura": pois os sábios foram leves quanto à salmoura de gafanhotos impuros, que ela não proíbe, porque eles não têm sangue, sendo apenas uma umidade sem importância (o Bartenura reafirma a mesma base biológica identificada pelo Rambam).

"Que é pura": não apenas que ela não proíbe sua mistura, mas ela própria é pura (o testemunho de Rabi Tzadok vai além da afirmação inicial da mishná — não é apenas que a salmoura de gafanhotos impuros misturada a gafanhotos puros permanece permitida, mas que mesmo a salmoura de gafanhotos impuros isolada, sem qualquer mistura, já é intrinsecamente pura por si mesma). E a halachá segue o testemunho de Rabi Tzadok (o Bartenura confirma que esta é a posição final e aceita, sem disputa remanescente).

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.