Gafanhotos impuros que se conservaram (em salmoura) junto com gafanhotos puros, não invalidaram sua salmoura (diferentemente do peixe impuro tratado na mishná anterior, cuja presença em certa proporção proíbe toda a salmoura, os gafanhotos impuros, mesmo misturados a gafanhotos puros na mesma salmoura, não tornam essa salmoura proibida — em nenhuma proporção). Rabi Tzadok testemunhou sobre a salmoura de gafanhotos impuros que ela é pura (um testemunho ainda mais forte que a afirmação inicial da mishná — não apenas que a mistura com gafanhotos puros não invalida a salmoura, mas que a própria salmoura de gafanhotos impuros sozinha, sem qualquer mistura com puros, já é intrinsecamente pura e permitida, pois os gafanhotos, ao contrário dos peixes, não possuem sangue nem fluidos corporais significativos que possam transferir sua condição impura ao líquido em que são conservados).
O contraste com a mishná anterior (peixe impuro) revela uma distinção biológica fundamental que a halachá reconhece entre as diferentes categorias de criaturas proibidas pela Torá.
Por que gafanhotos impuros não contaminam sua salmoura, enquanto peixes impuros contaminam? A resposta é puramente biológica, não conceitual: a proibição de misturas na halachá alimentar sempre depende de uma transferência real de substância (sangue, suco, gordura) do item proibido para o meio em que está imerso. Peixes possuem sangue e fluidos corporais abundantes que se dissolvem naturalmente na água salgada da salmoura, criando uma mistura genuína entre a substância do peixe (puro ou impuro) e o líquido. Gafanhotos, por sua anatomia de insetos, praticamente não possuem sangue no sentido convencional — apenas uma leve umidade corporal residual, insuficiente para impregnar significativamente qualquer líquido ao seu redor. Por isso, mesmo quando um gafanhoto impuro é conservado lado a lado com gafanhotos puros na mesma salmoura, não há transferência substancial de sua condição impura ao líquido — e o testemunho de Rabi Tzadok reforça essa conclusão de modo ainda mais categórico, afirmando que a própria salmoura de gafanhotos impuros, isoladamente, já é pura por natureza.
O Rambam codifica esta halachá na mesma passagem de Hilchot Ma'achalot Assurot onde trata do caso paralelo do peixe impuro, confirmando o testemunho de Rabi Tzadok como lei aceita.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
Gafanhotos são das espécies de gafanhotos (o comentário identifica a categoria zoológica em questão). Não são dos seres vivos que têm sangue (diferentemente de peixes, mamíferos e aves, cuja fisiologia inclui um sistema sanguíneo substancial), e por isso (sua condição impura) não invalida sua salmoura, pois o que escorre deles não é sangue, mas apenas uma umidade mínima e insignificante (o Rambam explica a base biológica exata: não é que gafanhotos não tenham fluido algum, mas que a quantidade é tão ínfima que não chega a configurar uma transferência halachicamente relevante). E o testemunho de Rabi Tzadok é aceito (o Rambam confirma que a halachá segue integralmente a posição mais permissiva, testemunhada por uma autoridade confiável, sem reservas).
"Não invalidaram sua salmoura": pois os sábios foram leves quanto à salmoura de gafanhotos impuros, que ela não proíbe, porque eles não têm sangue, sendo apenas uma umidade sem importância (o Bartenura reafirma a mesma base biológica identificada pelo Rambam).
"Que é pura": não apenas que ela não proíbe sua mistura, mas ela própria é pura (o testemunho de Rabi Tzadok vai além da afirmação inicial da mishná — não é apenas que a salmoura de gafanhotos impuros misturada a gafanhotos puros permanece permitida, mas que mesmo a salmoura de gafanhotos impuros isolada, sem qualquer mistura, já é intrinsecamente pura por si mesma). E a halachá segue o testemunho de Rabi Tzadok (o Bartenura confirma que esta é a posição final e aceita, sem disputa remanescente).