Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Yud-Alef · Mishná 4

"Pecíolos de figos e figos secos"

עֻקְצֵי תְאֵנִים וּגְרוֹגָרוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Uma mishná breve que estabelece o princípio: partes de frutas de teruma habitualmente descartadas pelos donos de casa, mesmo sem valor de consumo direto, permanecem proibidas aos estranhos por sua conexão residual ao alimento original

Os pecíolos de figos (a pequena haste que prende o figo ao galho) e de figos secos (gerogarot), e os keliss (uma variedade específica de figo, segundo o Rambam), e as alfarrobas (as vagens da alfarrobeira, cuja polpa é doce mas cuja casca dura é normalmente descartada), sendo de teruma, são proibidos aos estranhos (mesmo que essas partes não sejam normalmente consumidas por si mesmas, e sejam habitualmente descartadas pelos donos de casa como resto, ainda assim conservam o status de teruma e permanecem proibidas a quem não é cohen, pois tecnicamente continuam anexadas ou originárias do fruto sagrado).

עֻקְצֵי תְאֵנִים וּגְרוֹגָרוֹת, וְהַכְּלִיסִים וְהֶחָרוּבִין שֶׁל תְּרוּמָה, אֲסוּרִים לְזָרִים:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná breve estende o princípio geral da proibição da teruma a estranhos (Vayikrá 22:10) até seus limites mais marginais — partes do fruto que, embora fisicamente comestíveis apenas em circunstâncias específicas, ou de valor culinário secundário, ainda carregam a santidade da porção sacerdotal.

Vayikrá (Levítico) 22:10
וְכָל זָר לֹא יֹאכַל קֹדֶשׁ, תּוֹשַׁב כֹּהֵן וְשָׂכִיר לֹא יֹאכַל קֹדֶשׁ.
"E nenhum estranho comerá coisa sagrada; o morador do cohen e o assalariado não comerão coisa sagrada" (Vayikrá 22:10) — o princípio bíblico que proíbe a teruma a quem não é cohen não distingue entre a parte principal e valiosa do fruto e suas partes marginais ou de consumo secundário. Enquanto a parte em questão — pecíolo, casca, ou vagem — mantiver alguma relação de comestibilidade (mesmo que reduzida ou incomum) com o fruto original de teruma, ela permanece sob a mesma proibição, pois a santidade da teruma não se limita à porção "principal" do alimento, mas se estende a tudo o que dele deriva e mantém potencial de uso alimentar.

Por que partes normalmente descartadas ainda são proibidas? A resposta está na distinção, desenvolvida com mais detalhe na mishná seguinte (11:5) e em Hilchot Terumot 11:10, entre o que é absolutamente sem valor alimentar (como cascas ou fragmentos totalmente secos e duros, que qualquer pessoa descartaria sem hesitação) e o que ainda retém algum uso comestível ocasional, ainda que menor — como o pecíolo do figo, que embora geralmente descartado, pode ser mastigado ou sugado por sua doçura residual, e as alfarrobas, cuja polpa interna é efetivamente comestível mesmo que a vagem externa seja dura. A mishná ensina que o critério não é "o que os donos de casa costumam fazer" (jogar fora), mas "o que ainda tem alguma aptidão real para consumo humano" — e por esse critério mais rigoroso, essas partes continuam proibidas aos estranhos, mesmo quando descartadas na prática cotidiana.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta lei em Hilchot Terumot, ampliando a lista de partes marginais de frutas abrangidas pelo mesmo princípio.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 11:10
עֻקְצֵי תְּאֵנִים וּגְרוֹגָרוֹת וְהַכְּלִיסִים וְהֶחָרוּבִין וּמֵעֵי אֲבַטִּיחַ וּקְלִפֵּי אֲבַטִּיחַ וְאֶתְרוֹג וּמְלָפְפוֹן אַף עַל פִּי שֶׁאֵין בָּהֶן אֹכֶל וּקְנִיבַת יָרָק שֶׁמַּשְׁלִיכִין בַּעֲלֵי בָּתִּים הֲרֵי אֵלּוּ אֲסוּרִים לְזָרִים. אֲבָל קְנִיבַת יָרָק שֶׁמְּקַנְּבִים הַגַּנָּנִין מֻתֶּרֶת לְזָרִים.
"Os pecíolos de figos e figos secos, e os keliss, e as alfarrobas, e as entranhas de melancia, e as cascas de melancia, cidra e pepino — ainda que não haja neles alimento — e o refugo de verdura que os donos de casa descartam, eis que estes são proibidos aos estranhos. Mas o refugo de verdura que os hortelões descartam é permitido aos estranhos" (o Rambam amplia consideravelmente a lista da mishná, incluindo entranhas e cascas de melancia, cidra e pepino, e introduz uma distinção crucial não explícita na mishná: o refugo descartado pelo consumidor doméstico permanece proibido — pois este ainda o julgava potencialmente comestível até o momento do descarte —, mas o refugo já descartado pelo produtor agrícola durante a colheita e o beneficiamento, antes mesmo de chegar à casa de alguém, nunca foi considerado alimento e por isso é permitido, não estando sujeito à proibição da teruma).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 11:4
עוקץ הוא העץ הקטן הדבק בבדי האילן ובעיקר הפרי וגרוגרות הם התאנים היבשים וכליסין מין ממיני התאנים:

"Pecíolo" é o pequeno galho preso aos ramos da árvore e à base do fruto (a haste que conecta o figo ao ramo, considerada parte anexa do fruto). E "gerogarot" são os figos secos. E "keliss" é uma espécie entre as espécies de figos (o Rambam identifica os keliss não como um produto distinto, mas como uma variedade específica da própria família dos figos, explicando por que a mishná os agrupa junto aos pecíolos e figos secos).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 11:4
עֻקְצֵי תְאֵנִים. שֶׁבָּהֶם תְּאֵנִים מְחֻבָּרִים לָאִילָן: הַכְּלִיסִין. רַמְבַּ"ם פֵּרֵשׁ שֶׁהֵם מִין מִמִּינֵי הַתְּאֵנִים:

"Pecíolos de figos": pelos quais os figos ficam presos à árvore (a haste de conexão, cuja proximidade física e funcional ao fruto justifica sua inclusão no status de teruma). "Os keliss": o Rambam explicou que são uma espécie entre as espécies de figos (seguindo a mesma identificação do Perush HaMishná).

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.