Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Chet · Mishná 5

"A medida da água descoberta"

שִׁעוּר הַמַּיִם הַמְגֻלִּין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continua o tema do perigo à vida: a medida da água descoberta que a torna proibida é o suficiente para que o veneno não se perca nela por diluição; Rabi Yosei distingue entre recipientes, onde qualquer quantidade é proibida, e o solo, onde a medida é de quarenta seá

A medida da água descoberta (necessária para que se torne proibida) é a que baste para que se perca nela o veneno (ou seja, se a quantidade de água for grande o suficiente para diluir e neutralizar o veneno de uma cobra, de modo que ele deixe de ser prejudicial, então a água permanece permitida, mesmo tendo ficado descoberta). Rabi Yosei diz: em recipientes, qualquer quantidade (mesmo uma grande quantidade de água guardada em um recipiente é proibida se descoberta, pois o veneno, concentrado no espaço fechado do recipiente, não se dilui o suficiente), mas no solo, quarenta seá (uma medida grande — cerca de trezentos e trinta litros — sendo que, abaixo dessa quantidade, mesmo no chão ou em uma poça, a água descoberta é proibida, mas acima dela, o volume é considerado suficiente para diluir o veneno e torná-lo inofensivo).

שִׁעוּר הַמַּיִם הַמְגֻלִּין, כְּדֵי שֶׁתֹּאבַד בָּהֶם הַמָּרָה. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, בְּכֵלִים, כָּל שֶׁהֵן, וּבַקַּרְקָעוֹת, אַרְבָּעִים סְאָה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná continua o tema do perigo à vida da mishná anterior, precisando a medida que determina quando o veneno se dilui a ponto de deixar de representar risco.

Devarim (Deuteronômio) 4:9
רַק הִשָּׁמֶר לְךָ וּשְׁמֹר נַפְשְׁךָ מְאֹד.
"Somente guarda-te, e guarda muito a tua alma" (Devarim 4:9) — a mesma base do dever de evitar perigo à vida que fundamenta a proibição geral do descobrimento (mishná anterior) fundamenta também a precisão de sua medida: uma vez que o objetivo da proibição é evitar o risco real de envenenamento, e não impor uma restrição absoluta e simbólica, a halachá busca definir com precisão o ponto em que o risco efetivamente desaparece — quando há água suficiente para diluir totalmente o veneno depositado por um réptil, a preocupação original deixa de se aplicar, e a água volta a ser permitida.

Por que Rabi Yosei distingue entre recipientes e o solo, e o que representa a medida de quarenta seá? A opinião anônima (tanna kama) desta mishná estabelece um critério qualitativo e funcional: a água é proibida enquanto houver risco real de que o veneno nela permaneça ativo, e permitida assim que sua quantidade for suficiente para diluí-lo a ponto de neutralizá-lo — sem fixar um número exato, deixando a avaliação a critério da situação concreta. Rabi Yosei, por sua vez, propõe uma distinção mais categórica: em um recipiente fechado, o espaço reduzido faz com que o veneno se concentre proporcionalmente mais, de modo que mesmo uma quantidade considerável de água ali guardada não dilui o suficiente — por isso, "qualquer quantidade" em recipiente é proibida se descoberta. Já no solo — em poças, cisternas, ou reservatórios abertos — o espaço maior permite uma diluição mais eficaz, e Rabi Yosei fixa a medida em quarenta seá (a mesma medida usada para um mikvê válido em outras leis de pureza, sugerindo que se trata de uma quantidade halachicamente reconhecida como "corpo de água" substancial): abaixo dela, a água permanece proibida se descoberta; acima dela, presume-se diluição suficiente para neutralizar o veneno.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta medida em Hilchot Rotzeach uShmirat Nefesh, adotando a opinião anônima (tanna kama) e não a de Rabi Yosei.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Rotzeach uShmirat Nefesh 11:12
שִׁעוּר הַמַּיִם שֶׁיֵּאָסְרוּ אִם נִתְגַּלּוּ, כְּדֵי שֶׁיִּהְיֶה הַסַּם נִכָּר בָּהֶן וּמַזִּיק. אֲבָל אִם הָיוּ הַמַּיִם מְרֻבִּין כְּדֵי שֶׁתֹּאבַד בָּהֶן הַמָּרָה, הֲרֵי אֵלּוּ מֻתָּרִין בֵּין בְּכֵלִים בֵּין בְּקַרְקָעוֹת. וְכֵן הַדִּין בִּשְׁאָר הַמַּשְׁקִין.
"A medida da água que se torna proibida, se foi descoberta, é o suficiente para que o veneno seja perceptível nela e prejudicial. Mas se a água era abundante o suficiente para que se perdesse nela o veneno, eis que esta é permitida, tanto em recipientes quanto no solo. E o mesmo vale para os demais líquidos." O Rambam, notavelmente, não adota a distinção de Rabi Yosei entre recipientes e solo, aplicando o mesmo critério qualitativo (diluição suficiente) em ambos os casos — confirmando explicitamente, ao final desta mesma passagem em seu Perush HaMishná, que a halachá não segue Rabi Yosei.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 8:5
מרה הוא הארס שמקיאין מפיהם הנחשים בעלי הארס ואומר בכאן כי כשהמים הם רבים כדי שתאבד בהם המרה שלא נחוש לגלוים ואם הם כ"כ מועטים שאם נפל בהם הארס שיהיו ממיתין נחוש לגלויים ואומר ר' יוסי כשהן בכלים אפילו יהיו רבים עד מאד שהם אסורים אם נתגלו וכשהם בקרקע עד ארבעים סאה ואם הם יותר מארבעים סאה לא נחוש לגלויין וממה שאתה צריך לדעת שאנו נחוש בגלוי ביום כמו בלילה ואין הלכה כרבי יוסי.

"Mará" é o veneno que os répteis portadores de veneno vomitam de sua boca. E diz-se aqui que, quando a água é abundante o suficiente para que se perca nela o veneno, não temos preocupação com seu descobrimento; e se é tão escassa que, se o veneno caísse nela, continuaria mortal, temos preocupação com seu descobrimento.

E diz Rabi Yosei: quando estão em recipientes, mesmo que sejam muito abundantes, são proibidas se foram descobertas; e quando estão no solo, até quarenta seá (são proibidas se descobertas), e se são mais de quarenta seá, não temos preocupação com seu descobrimento.

E do que precisas saber: que temos a mesma preocupação com o descobrimento de dia como de noite. E a halachá não é como Rabi Yosei.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 8:5
שִׁעוּר הַמַּיִם. לִהְיוֹת אֲסוּרִים מִשּׁוּם גִּלּוּי: כְּדֵי שֶׁתֹּאבַד בָּהֶן מָרָה. אִם הָיוּ מְרֻבִּים כָּל כָּךְ עַד שֶׁאֶרֶס הַנָּחָשׁ יִפָּסֵד וְיֹאבַד בָּהֶן אֵין בָּהֶן מִשּׁוּם גִּלּוּי. וְיוֹדְעִין הָיוּ כַּמָּה אֶרֶס הַנָּחָשׁ מַטִּיל בְּפַעַם אַחַת: מָרָה. הָאֶרֶס שֶׁהַנָּחָשׁ מַטִּיל קָרוּי מָרָה: בְּכֵלִים כָּל שֶׁהֵן. אֲפִלּוּ מְרֻבִּין כָּל שֶׁהֵן יֵשׁ בָּהֶן מִשּׁוּם גִּלּוּי כְּשֶׁהַמַּיִם בַּכֵּלִים: וּבַקַּרְקָעוֹת עַד אַרְבָּעִים סְאָה. יֵשׁ בָּהֶם מִשּׁוּם גִּלּוּי, טְפֵי מֵהָכִי אֵין בָּהֶן מִשּׁוּם גִּלּוּי, שֶׁהָאֶרֶס מִתְבַּטֵּל בָּהֶם. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי. וּמַעְיָן הַמּוֹשֵׁךְ אֲפִלּוּ כָּל שֶׁהוּא אֵין בּוֹ מִשּׁוּם גִּלּוּי. וּמַיִם מְגֻלִּים כְּשֵׁם שֶׁאָסוּר לִשְׁתּוֹתָן כָּךְ אָסוּר לְהַשְׁקוֹתָן לִבְהֶמְתּוֹ, וְלִרְחֹץ בָּהֶן פָּנָיו יָדָיו וְרַגְלָיו, וּלְגַבֵּל בָּהֶן אֶת הַטִּיט, וּלְהִשְׁתַּמֵּשׁ בָּהֶן בְּשׁוּם תַּשְׁמִישׁ.

"A medida da água": para se tornarem proibidas por causa do descobrimento.

"O suficiente para que se perca nela o veneno": se eram tão abundantes que o veneno da cobra se desfaria e se perderia nelas, não há nelas preocupação com o descobrimento. E sabiam quanto veneno a cobra deposita de uma só vez.

"Mará": o veneno que a cobra deposita é chamado mará.

"Em recipientes, qualquer quantidade": mesmo que sejam muito abundantes, há neles preocupação com o descobrimento, quando a água está em recipientes.

"E no solo, até quarenta seá": há preocupação com o descobrimento; mais que isso, não há preocupação, pois o veneno se anula nelas. E a halachá não é como Rabi Yosei. E uma fonte que corre, mesmo qualquer quantidade, não há nela preocupação com o descobrimento. E águas descobertas — assim como é proibido bebê-las, também é proibido dar de beber delas a seu animal, e lavar nelas o rosto, as mãos e os pés, e amassar nelas o barro, e usá-las para qualquer outro uso.

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.