Cem (canteiros de um jardim ou horta, dispostos em fileiras separadas) para o jardim (um campo dividido em cem canteiros individuais), semeados de teruma, e um de chulin (noventa e nove canteiros semeados com sementes de teruma, e apenas um com sementes comuns, sem que se saiba qual dos cem é o de chulin) — todos são permitidos (mesmo que se colha de qualquer canteiro sem saber sua origem exata, pode-se comer livremente, como se fosse todo chulin), em espécie cuja semente se decompõe na terra (plantas cuja semente original se dissolve e desaparece completamente no solo ao germinar, deixando de existir fisicamente como entidade separada — nesses casos, a proporção esmagadoramente majoritária de canteiros de teruma "anula" a presença do único canteiro de chulin, tornando tudo permitido, por um princípio de bittul aplicado aqui de modo peculiar). Mas, em espécie cuja semente não se decompõe (plantas cuja semente permanece fisicamente intacta e identificável mesmo depois de plantada e de a planta ter crescido), mesmo cem canteiros de chulin e um de teruma, todos são proibidos (nesse caso, a proporção não importa: mesmo que apenas um único canteiro entre cem seja de teruma, e os noventa e nove restantes sejam de chulin comum, ainda assim todo o conjunto fica proibido, pois não há bittul — anulação — possível quando a semente original permanece fisicamente presente e identificável em cada planta individual).
Esta mishná desenvolve, num caso extremo, o princípio geral de que a semente que "se decompõe" na terra perde sua identidade física, tornando-se um novo produto — enquanto a semente que não se decompõe mantém sua identidade original, com implicações opostas para a regra do bittul (anulação por maioria).
Por que a lógica se inverte tão radicalmente entre os dois casos desta mishná — de "cem para permitir" a "cem que não bastam para permitir"? O ponto central desta mishná é revelar como o princípio da decomposição da semente transforma completamente a matemática do bittul. No caso comum, aplicado normalmente em outras áreas da halachá, uma proporção esmagadora de material permitido pode anular uma pequena quantidade de material proibido misturado (por exemplo, uma parte de teruma perdida entre cem partes de chulin). Mas aqui a mishná descreve uma situação geometricamente inversa: noventa e nove canteiros de teruma e apenas um de chulin, todos permitidos — porque, quando a semente se decompõe, cada canteiro individual já não guarda nenhum vestígio físico de sua origem como semente de teruma ou chulin; o que existe fisicamente na colheita final é apenas o produto do solo, sem qualquer traço da identidade original da semente, e por isso a regra de bittul pela maioria esmagadora resolve completamente a dúvida. Já no segundo caso, a inversão é ainda mais impressionante: mesmo com cem canteiros de chulin e apenas um de teruma — uma proporção que, em qualquer outro contexto de bittul, anularia facilmente o elemento minoritário — aqui todos os cem ficam proibidos, porque a semente que não se decompõe permanece fisicamente presente e identificável em cada planta individual, tornando impossível qualquer processo de anulação: não se trata de misturar substâncias indistinguíveis, mas de ter, objetivamente, uma planta específica (ainda que não se saiba qual) que continua sendo, fisicamente, a própria semente de teruma original.
O Rambam não dedica, em Hilchot Terumot, uma halachá isolada para este caso extremo dos cem canteiros — a matéria integra-se ao princípio geral já codificado sobre gidulei teruma e a distinção entre sementes que se decompõem e sementes que não se decompõem, tratada de modo mais compacto no Mishné Torá do que na Mishná.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
"Para o jardim": nome dado ao lugar semeado da terra. E diz aqui que, se houvesse, digamos, um canteiro da terra semeado com chulin e cem canteiros semeados com teruma, e não se soubesse qual canteiro é o semeado de chulin, todos são permitidos, quando se trata de coisa cuja semente se decompõe. Mas se é coisa cuja semente não se decompõe, todos são proibidos, e não os julgamos pela lei do medumá (mistura de teruma caída em chulin, que segue regras próprias de proporção), pois a teruma está separada fisicamente e não se misturou com o chulin (a diferença crucial: no medumá, há mistura física real de substâncias; aqui, há apenas incerteza sobre qual planta individual, fisicamente intacta e distinta, é a de origem teruma — por isso as regras de bittul do medumá não se aplicam da mesma forma).
"Cem para o jardim de teruma": um campo que foi semeado canteiro por canteiro, havendo nele cem canteiros de teruma e um de chulin, sem saber qual é o de chulin.
"Todos são permitidos": é uma leniência que os sábios concederam quanto aos crescimentos de teruma, pois um único canteiro de chulin permite muitos canteiros, em coisa cuja semente se decompõe (a leniência é notável: normalmente esperaríamos que a maioria de teruma tornasse tudo proibido por precaução, mas aqui a decomposição da semente inverte essa expectativa).
"Mas em coisa cuja semente não se decompõe": um único canteiro de teruma proíbe cem de chulin, porque a terra não se anula em relação de um para cem (a terra plantada, com a semente fisicamente intacta, não é sujeita ao mesmo cálculo proporcional que se aplicaria a grãos soltos e misturados).