Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Alef · Mishná 4 de 4 — fim do perek

Bet Shamai, Bet Hilel e o casamento entre as casas

בֵּית שַׁמַּאי מַתִּירִין הַצָּרוֹת לָאַחִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná encerra o Perek Alef revelando que toda a doutrina das mishnayot anteriores segue a opinião de Bet Hilel, expõe a disputa de fundo entre as duas escolas sobre a permissão das rivais, e fecha com a célebre nota de que, apesar do desacordo halachico profundo, Bet Shamai e Bet Hilel não deixaram de se casar entre si nem de compartilhar objetos puros.

Bet Shamai permite as rivais aos irmãos, e Bet Hilel proíbe. Se fizeram chalitzá, Bet Shamai as desqualifica do sacerdócio, e Bet Hilel as habilita. Se fizeram yibum, Bet Shamai as habilita, e Bet Hilel as desqualifica. Ainda que estes proíbam e aqueles permitam, estes desqualifiquem e aqueles habilitem, Bet Shamai não deixou de tomar mulheres de Bet Hilel, nem Bet Hilel de Bet Shamai. E quanto a todas as puridades e impurezas em que estes declaram puro e aqueles declaram impuro, não deixaram de preparar objetos puros uns com os outros.Toda a doutrina das três mishnayot anteriores — de que a rival de uma parente proibida está isenta da chalitzá e do yibum — pressupõe a leitura de Bet Hilel do verso "não tomarás uma mulher para rival de sua irmã"; Bet Shamai, que não aceita essa leitura estendida, permite que a rival seja tomada em yibum normalmente. A discordância se desdobra em consequências práticas graves: se, apesar disso, uma dessas rivais fez chalitzá, Bet Shamai considera a chalitzá plenamente válida — já que, a seu ver, ela era candidata legítima ao yibum — e por isso a desqualifica do casamento com um sacerdote, como qualquer mulher que passou por chalitzá; Bet Hilel, ao contrário, considera essa chalitzá sem efeito algum, pois a seus olhos ela nunca teve vínculo de yibum, e por isso a mantém apta ao sacerdócio. Inversamente, se ela foi tomada em yibum, Bet Shamai reconhece o casamento como pleno e válido; Bet Hilel o considera relação ilícita, que desqualifica a mulher para sempre do sacerdócio, como a uma mulher que teve relações proibidas. A mishná fecha com a nota mais famosa de todo o tratado: apesar dessa oposição halachica que chegaria a produzir, na prática, filhos considerados legítimos por uma escola e mamzerim pela outra, as duas casas nunca deixaram de se casar entre si nem de emprestar mutuamente seus utensílios puros — um modelo de convivência dentro do desacordo.

בֵּית שַׁמַּאי מַתִּירִין הַצָּרוֹת לָאַחִים, וּבֵית הִלֵּל אוֹסְרִים. חָלְצוּ, בֵּית שַׁמַּאי פּוֹסְלִין מִן הַכְּהֻנָּה, וּבֵית הִלֵּל מַכְשִׁירִים. נִתְיַבְּמוּ, בֵּית שַׁמַּאי מַכְשִׁירִים, וּבֵית הִלֵּל פּוֹסְלִין. אַף עַל פִּי שֶׁאֵלּוּ אוֹסְרִין וְאֵלּוּ מַתִּירִין, אֵלּוּ פּוֹסְלִין וְאֵלּוּ מַכְשִׁירִין, לֹא נִמְנְעוּ בֵּית שַׁמַּאי מִלִּשָּׂא נָשִׁים מִבֵּית הִלֵּל, וְלֹא בֵית הִלֵּל מִבֵּית שַׁמַּאי. כָּל הַטָּהֳרוֹת וְהַטֻּמְאוֹת שֶׁהָיוּ אֵלּוּ מְטַהֲרִין וְאֵלּוּ מְטַמְּאִין, לֹא נִמְנְעוּ עוֹשִׂין טָהֳרוֹת אֵלּוּ עַל גַּבֵּי אֵלּוּ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vaicrá (Levítico) 21:7
אִשָּׁה זֹנָה וַחֲלָלָה לֹא יִקָּחוּ וְאִשָּׁה גְּרוּשָׁה מֵאִישָׁהּ לֹא יִקָּחוּ כִּי קָדֹשׁ הוּא לֵאלֹהָיו
Mulher prostituída ou profanada não tomarão, nem mulher divorciada de seu marido tomarão, pois santo é para seu D-us.

Sobre este mesmo verso — que proíbe ao sacerdote casar-se com uma "zoná" (mulher que teve relação ilícita) — assenta-se toda a disputa da mishná. Bet Hilel considera que a rival tomada em yibum, sendo essa união ilícita por sua ótica, torna-se uma "zoná" e fica proibida ao sacerdócio; e considera que a chalitzá feita a ela, por não ter valor algum onde nunca houve vínculo de yibum, não a torna uma "chalutzá" (mulher que fez chalitzá) — outra categoria também restrita quanto ao sacerdócio nesse mesmo capítulo. Bet Shamai inverte exatamente essa leitura, por discordar, desde a raiz, se a rival está de fato sujeita ao vínculo de yibum.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam codifica, seguindo Bet Hilel, que a yevamá tomada por quem lhe é estranho — sem vínculo de yibum — torna-se zoná e fica proibida ao sacerdócio, a base halachica final da disputa desta mishná.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Issurei Biá 18:3
וְכֵן יְבָמָה שֶׁבָּא עָלֶיהָ זָר עֲשָׂאָהּ זוֹנָה. וְהָאַיְלוֹנִית מֻתֶּרֶת לְכֹהֵן וְאֵינָהּ זוֹנָה:

Rambam codifica a halachá final, seguindo Bet Hilel: a yevamá que teve relação com quem lhe é "estranho" — ou seja, alguém sem vínculo legítimo de yibum sobre ela — torna-se zoná e fica proibida ao sacerdócio, exatamente como a mishná descreve para a rival tomada em yibum sem que Bet Hilel reconheça vínculo algum entre eles. Rambam acrescenta, à parte, que a ailonit é uma exceção: mesmo tendo relação fora de um yibum válido, ela não se torna zoná e permanece permitida ao sacerdócio, pois sua condição a isenta por completo da categoria de yevamá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam explica a lógica de cada lado da disputa e por que nenhuma das casas temia a insinceridade da outra; Bartenura detalha o resultado prático de cada combinação de chalitzá e yibum; Rashi, na Guemará, situa os termos técnicos da disputa desde a abertura do tratado.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Yevamot 1:4
וּמַה שֶּׁחִיֵּיב שֶׁלֹּא נִמְנְעוּ אַחַת מֵהַכִּתּוֹת אֵלּוּ הָעִנְיָנִים הַנִּזְכָּרִים, לְפִי שֶׁלֹּא הָיוּ חוֹשְׁדִין אֵלּוּ מֵאֵלּוּ שֶׁיַּכְנִיסוּ עֲלֵיהֶן חֲשַׁשׁ בְּשׁוּם דָּבָר שֶׁסְּבָרָתוֹ לֶאֱסֹר, וְאַף עַל פִּי שֶׁהָאֲחֵרִים סְבָרָתָם לְהַתִּיר, אַחַר שֶׁהַסְּבָרָא הֱבִיאָתָם לְהַחְמִיר אוֹ לְהָקֵל.

Rambam explica o fundamento da nota final da mishná: Bet Shamai e Bet Hilel não deixaram de se casar entre si porque nenhuma das casas suspeitava que a outra escondesse, deliberadamente, um casamento proibido segundo sua própria opinião — cada escola confiava que a outra agia com sinceridade dentro de seu próprio raciocínio halachico, seja ele mais rigoroso ou mais permissivo. A discordância era genuína e transparente, não um estratagema para burlar a lei alheia, e por isso a convivência e o intercasamento entre as duas casas puderam continuar sem receio.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 1:4
לֹא נִמְנְעוּ. וְאַף עַל פִּי שֶׁבְּנֵי הַצָּרוֹת שֶׁנִּתְיַבְּמוּ כְּדִבְרֵי בֵּית שַׁמַּאי מַמְזֵרִים הֵם לְבֵית הִלֵּל, שֶׁהֲרֵי בְּאִסּוּר אֵשֶׁת אָח הֵם עֲלֵיהֶם וְאֵשֶׁת אָח בְּכָרֵת... אַף עַל פִּי כֵן לֹא נִמְנְעוּ בֵּית הִלֵּל מִלִּשָּׂא נָשִׁים מִבֵּית שַׁמַּאי, לְפִי שֶׁהָיוּ מוֹדִיעִים לָהֶם אוֹתָן הַבָּאוֹת מִן הַצָּרוֹת וּפוֹרְשִׁין מֵהֶן.

Bartenura detalha a gravidade real do desacordo: os filhos nascidos das rivais que Bet Shamai tomou em yibum são, para Bet Hilel, mamzerim — pois, a seu ver, essa relação é uma "esposa de irmão" proibida com pena de karet, e filhos de relações proibidas com essa pena são mamzerim. Mesmo assim, Bet Hilel não deixou de tomar mulheres de Bet Shamai, porque tinham o cuidado de informar publicamente quais mulheres descendiam dessas rivais, para que se afastassem delas ao escolher cônjuge — preservando, assim, tanto a convivência entre as casas quanto sua própria integridade halachica.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 13b
חָלְצוּ - הַצָּרוֹת מִן הָאַחִין. בֵּית שַׁמַּאי פּוֹסְלִין מִן הַכְּהֻנָּה - שֶׁחֲלִיצָתָהּ חֲלִיצָה. וּבֵית הִלֵּל מַכְשִׁירִין - לְפִי שֶׁחֲלִיצָתָן שֶׁלֹּא לְצֹרֶךְ הָיְתָה, וַהֲרֵי כְּחוֹלֶצֶת מִן הַנָּכְרִי. נִתְיַבְּמוּ - לָאַחִים. וּבֵית הִלֵּל פּוֹסְלִין - שֶׁנִּבְעֲלוּ לְאָסוּר לָהֶן, וְהַנִּבְעֶלֶת לְפָסוּל לָהּ עֲשָׂאָהּ זוֹנָה, וְהַזּוֹנָה אֲסוּרָה לִכְהֻנָּה.

Rashi define, termo a termo, o mecanismo de cada posição: se as rivais fizeram chalitzá dos irmãos, Bet Shamai as desqualifica do sacerdócio porque, a seu ver, essa chalitzá é plenamente válida — igual a qualquer outra chalitzá, que desqualifica a mulher do casamento com um cohen; Bet Hilel as habilita porque, não reconhecendo vínculo de yibum ali, considera essa chalitzá desnecessária, equivalente a uma chalitzá feita por um estranho sem qualquer efeito jurídico. Se, ao contrário, foram tomadas em yibum pelos irmãos, Bet Hilel as desqualifica porque, a seu ver, tiveram relação com alguém a quem lhes era proibido — e quem teve relação com quem lhe é proibida se torna zoná, e a zoná é proibida ao sacerdócio.