Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Yud-Bet · Mishná 3 de 6

A ação obrigatória e a leitura opcional na chalitzá

חָלְצָה וְרָקְקָה, אֲבָל לֹא קָרְאָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná passa dos elementos físicos do calçado para os próprios atos do ritual — descalçar, cuspir e ler os versículos —, perguntando quais são estritamente obrigatórios e quais apenas acompanham o procedimento sem impedir sua validade caso omitidos.

Se ela fez a chalitzá e cuspiu, mas não leu, sua chalitzá é válida. Se ela leu e cuspiu, mas não fez a chalitzá, sua chalitzá é inválida. Se ela fez a chalitzá e leu, mas não cuspiu, Rabi Eliezer diz: sua chalitzá é inválida. Rabi Akiva diz: sua chalitzá é válida. Disse Rabi Eliezer: "assim se fará" (Devarim 25) — toda coisa que é ação, impede. Disse-lhe Rabi Akiva: dali mesmo há prova — "assim se fará ao homem" — toda coisa que é ação no próprio homem.A mishná estabelece que descalçar o sapato é o ato absolutamente indispensável — sem ele não há chalitzá alguma —, enquanto a leitura dos versículos é apenas recomendável, sua omissão não invalida o ato já feito. O cuspir fica no meio, e por isso é objeto de disputa: Rabi Eliezer o considera tão indispensável quanto o próprio descalçar, por ser também uma "ação"; Rabi Akiva restringe a palavra "ação" apenas ao que é feito diretamente no corpo do homem — o descalçar —, excluindo o cuspir, que é dirigido ao rosto dele, mas não realizado nele.

חָלְצָה וְרָקְקָה, אֲבָל לֹא קָרְאָה, חֲלִיצָתָהּ כְּשֵׁרָה. קָרְאָה וְרָקְקָה, אֲבָל לֹא חָלְצָה, חֲלִיצָתָהּ פְּסוּלָה. חָלְצָה וְקָרְאָה, אֲבָל לֹא רָקְקָה, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, חֲלִיצָתָהּ פְּסוּלָה. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, חֲלִיצָתָהּ כְּשֵׁרָה. אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, כָּכָה יֵעָשֶׂה (דברים כה), כָּל דָּבָר שֶׁהוּא מַעֲשֶׂה, מְעַכֵּב. אָמַר לוֹ רַבִּי עֲקִיבָא, מִשָּׁם רְאָיָה, כָּכָה יֵעָשֶׂה לָאִישׁ, כָּל דָּבָר שֶׁהוּא מַעֲשֶׂה בָאִישׁ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 25:9
וְעָנְתָה וְאָמְרָה כָּכָה יֵעָשֶׂה לָאִישׁ אֲשֶׁר לֹא־יִבְנֶה אֶת־בֵּית אָחִיו
E ela responderá e dirá: "Assim se fará ao homem que não construir a casa de seu irmão."

Toda a disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Akiva gira em torno da palavra exata onde se lê "assim se fará" — o termo que a Torá usa para indicar que algo é um ato indispensável ("maasé"), e não mera fala. Rabi Eliezer lê a expressão "ככה יעשה" (assim se fará) de forma ampla, incluindo tudo o que a mulher faz — descalçar e cuspir — como "ação" que impede a validade se omitida. Rabi Akiva contrapõe que a própria continuação do versículo, "ככה יעשה לאיש" (assim se fará ao homem), restringe a palavra "ação" apenas ao que é feito no corpo do homem — ou seja, o descalçar do sapato, que a mulher realiza fisicamente sobre o pé dele —, excluindo o cuspir, que é dirigido ao seu rosto mas não constitui um ato sobre o corpo dele.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam decide a halachá como Rabi Akiva, tornando o cuspir dispensável em retrospecto.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 12:3
חָלְצָה וְרָקְקָה אֲבָל לֹא קָרְאָה חֲלִיצָתָהּ כְּשֵׁרָה כוּ׳. הֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא

Rambam decreta de forma sucinta que a halachá segue Rabi Akiva: a chalitzá é válida mesmo sem o cuspir, contanto que o descalçar tenha sido realizado. Assim, entre os três elementos do ritual, apenas o descalçar do sapato é absolutamente indispensável; tanto a leitura dos versículos quanto o cuspir, embora recomendados e parte do procedimento completo, não invalidam retroativamente uma chalitzá já realizada sem eles.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica a leitura das duas metades do versículo; Rashi, na Guemará, detalha por que a leitura em si é considerada mera fala e não ação.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 12:3
חָלְצָה וְלֹא קָרְאָה חֲלִיצָתָהּ כְּשֵׁרָה — דְּכִי כָּתַב רַחֲמָנָא כָּכָה דְּמַשְׁמַע עִכּוּבָא, אַמַּעֲשֶׂה הוּא דִּכְתִיב כָּכָה יֵעָשֶׂה לָאִישׁ, וּקְרִיאָה דִּבּוּר בְּעָלְמָא הוּא. דָּבָר שֶׁהוּא מַעֲשֶׂה בָאִישׁ — כְּגוֹן חֲלִיצָה שֶׁהָאִשָּׁה עוֹשָׂה מַעֲשֶׂה בְּגוּפוֹ שֶׁל אִישׁ, לַאֲפוֹקֵי רְקִיקָה דְּלָאו מַעֲשֶׂה בְּגוּפוֹ שֶׁל אִישׁ הוּא

Bartenura explica que quando a Torá escreve "assim se fará", indicando algo indispensável, refere-se especificamente ao versículo "assim se fará ao homem" — e ali se trata de uma ação, enquanto a leitura em voz alta é apenas fala, não incluída na exigência. E explica a expressão "algo que é ação no homem": trata-se especificamente da chalitzá, em que a mulher realiza um ato físico sobre o corpo do homem — descalçando o sapato de seu pé —, excluindo assim a cuspida, que não constitui um ato realizado sobre o corpo dele mesmo sendo dirigida ao seu rosto.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 104a-104b
מַתְנִיתִין חֲלִיצָתָהּ כְּשֵׁרָה — דִּקְרִיאָה לֹא מְעַכְּבָא, דִּכְתִיב כָּכָה יֵעָשֶׂה, כָּל דָּבָר שֶׁהוּא מַעֲשֶׂה מְעַכֵּב, דְּכִי כְּתִיב כָּכָה דְּמַשְׁמַע עִכּוּבָא אַמַּעֲשֶׂה כְּתִיב, וּקְרִיָּיה דִּבּוּרָא בְּעָלְמָא הוּא. כָּל דָּבָר שֶׁמַּעֲשֶׂה — וּרְקִיקָה מַעֲשֶׂה הִיא. מַעֲשֶׂה בָאִישׁ — חֲלִיצָה שֶׁהָאִשָּׁה עוֹשָׂה מַעֲשֶׂה בְּגוּפוֹ שֶׁל אִישׁ, לַאֲפוֹקֵי רְקִיקָה דְּלָאו מַעֲשֶׂה בָאִישׁ הוּא

Rashi confirma o raciocínio da mishná: a leitura não impede a validade porque a Torá, ao escrever "assim se fará" numa expressão que sugere indispensabilidade, refere-se ao que é ação — e a leitura é apenas fala. Sobre a disputa quanto ao cuspir, Rashi resume a posição de Rabi Eliezer: cuspir também é uma ação física, e por isso deveria impedir a validade se omitido, tal como o descalçar. Rabi Akiva refina o critério: o versículo especifica "ação no homem" — no corpo dele mesmo —, e a chalitzá é exatamente isso, um ato que a mulher realiza sobre o corpo do cunhado ao descalçar seu sapato; já a cuspida, embora dirigida ao seu rosto, não é tecnicamente um ato realizado sobre o corpo dele, e por isso sua omissão não invalida a chalitzá já feita.