Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Tet-Vav · Mishná 9 de 10

O filho nascido em terra ultramarina, sem conhecimento anterior

נִתַּן לִי בֵן בִּמְדִינַת הַיָּם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A nona mishná espelha exatamente a anterior, mas invertendo o ponto de partida: aqui, a mulher não sabia previamente que tinha um filho — ele lhe nasceu (ou foi-lhe informado) já em terra ultramarina — e o mesmo princípio de credibilidade circunstancial produz o resultado oposto ao da mishná anterior para cada ordem de relato.

'Nasceu-me um filho em terra ultramarina', e ela disse 'meu filho morreu e depois meu marido morreu': ela é confiável. 'Meu marido morreu e depois meu filho morreu': ela não é confiável, e há preocupação com suas palavras, e ela faz chalitzá mas não faz yibum.Aqui a mulher partiu sem saber de nenhum filho — pelo que se sabia até então, ela estava sob a presunção original de estar vinculada ao yibum, caso o marido viesse a morrer. Se ela agora conta que, apesar de ter tido um filho lá, ele morreu antes do marido — de modo que, no momento da morte do marido, o filho já não estava mais vivo —, essa versão mantém exatamente a mesma presunção original de vínculo de yibum com que ela partiu, sem lhe trazer vantagem alguma; por isso é aceita sem suspeita. Mas se ela inverte a ordem, dizendo que o marido morreu primeiro e o filho — cuja existência era desconhecida — só depois, essa versão a livraria retroativamente do yibum (pois, no momento da morte do marido, o filho ainda estava vivo), e por isso volta a mesma suspeita da mishná anterior: ela pode ter arranjado essa ordem específica para escapar da obrigação, e por isso sua palavra sozinha não basta, exigindo pelo menos a chalitzá.

נִתַּן לִי בֵן בִּמְדִינַת הַיָּם, וְאָמְרָה מֵת בְּנִי וְאַחַר כָּךְ מֵת בַּעְלִי, נֶאֱמֶנֶת. מֵת בַּעְלִי וְאַחַר כָּךְ מֵת בְּנִי, אֵינָהּ נֶאֱמֶנֶת, וְחוֹשְׁשִׁים לִדְבָרֶיהָ, וְחוֹלֶצֶת וְלֹא מִתְיַבֶּמֶת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 19:15
לֹא־יָקוּם עֵד אֶחָד בְּאִישׁ לְכָל־עָוֹן וּלְכָל־חַטָּאת בְּכָל־חֵטְא אֲשֶׁר יֶחֱטָא עַל־פִּי שְׁנֵי עֵדִים אוֹ עַל־פִּי שְׁלֹשָׁה־עֵדִים יָקוּם דָּבָר
Não se levantará testemunha única contra um homem, por qualquer iniquidade ou por qualquer pecado, dentre todo pecado que cometer; por depoimento de duas testemunhas, ou por depoimento de três testemunhas, se estabelecerá o caso.

Esta mishná confirma, pelo espelho invertido, que o único critério relevante para a credibilidade da mulher é se a ordem específica que ela relata a mantém na mesma condição jurídica com que era presumida antes de falar, ou se ela a modifica exatamente na direção que a beneficiaria. Não importa qual seja o fato concreto (ter ou não ter um filho conhecido) — o que importa é a estrutura lógica do relato em relação à presunção prévia.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam aplica, de forma espelhada, o mesmo princípio já explicado na mishná anterior, agora ao caso do filho cuja existência era desconhecida desde o início.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 15:8 (aplicado a 15:9)
וּבְמִשְׁנָה הַשְּׁנִיָּה, לְפִי שֶׁאֵין אָנוּ יוֹדְעִין לָהּ בֵּן וְיָצְאָה מִכָּאן וְהִיא מֻתֶּרֶת לְיַבֵּם, הֲרֵי הִיא נֶאֱמֶנֶת כְּשֶׁאוֹמֶרֶת הֲרֵי אֲנִי בְּחֶזְקָתִי הָרִאשׁוֹנָה וּמֻתֶּרֶת לְיַבֵּם וְתִתְיַבֵּם. וּכְשֶׁאוֹמֶרֶת נִתַּן לִי בֵן וּמֵת בְּחַיֵּי בַעְלִי, הַפֶּה שֶׁאָסַר הוּא הַפֶּה שֶׁהִתִּיר

Rambam explica a segunda metade do princípio geral, aplicável precisamente a esta mishná: como não sabíamos, quando ela partiu, que ela tinha um filho, ela partiu sob a presunção de estar livre para o yibum. Quando ela agora relata que lhe nasceu um filho, mas que ele morreu ainda em vida do marido, ela permanece confiável — porque é a mesma boca que primeiro revelou a existência do filho (o que a proibiria) que também revela sua morte prévia (o que a volta a permitir); segundo o princípio de que 'a boca que proibiu é a mesma boca que permitiu', sua palavra é aceita como um relato único e coerente, sem suspeita de manipulação.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha o mesmo princípio espelhado, explicando por que, neste caso específico, a mulher não é confiável para se libertar do yibum, embora os Sábios normalmente confiem nela sobre o próprio casamento.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 15:9
נִתַּן לִי בְמְדִינַת הַיָּם, וּמֵת בְּנִי וְאַחַר כָּךְ מֵת בַּעְלִי, דְּלֹא מַפְקָא נַפְשָׁהּ מֵחֲזָקָה קַמַּיְתָא, שֶׁאוֹמֶרֶת עֲדַיִן הִיא צְרִיכָה לְיָבָם, נֶאֱמֶנֶת וּמֻתֶּרֶת לְהִתְיַבֵּם. אֵינָהּ נֶאֱמֶנֶת לְהִנָּשֵׂא לַשּׁוּק בְּלֹא חֲלִיצָה, דְּכִי הֵימְנוּהָ רַבָּנָן לָאִשָּׁה, גַּבֵּי בַּעֲלָהּ הֵימְנוּהָ מִשּׁוּם דְּדַיְקָא וּמִנָּסְבָה, אֲבָל לְאַפּוּקֵי נַפְשָׁהּ מִיָּבָם לֹא הֵימְנוּהָ

Bartenura explica que, quando ela relata a ordem que mantém sua condição original de vinculada ao yibum, sua palavra não a está tirando de nenhuma restrição prévia — ela apenas confirma o que já se presumia —, e por isso é plenamente confiável. Mas quando busca se libertar do próprio yibum através da ordem inversa, Bartenura observa o princípio geral por trás de toda a leniência dos Sábios: eles confiaram na mulher especificamente quanto ao próprio casamento, porque presumem que ela seria cuidadosa antes de se casar novamente (já que um engano a exporia a graves consequências); mas não estenderam essa mesma confiança a declarações que a livrariam especificamente do vínculo de yibum, onde o interesse pessoal dela em escapar da obrigação é mais direto e suspeito.