Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Guimel · Mishná 3 de 10

Duas ervot cruzadas entre dois irmãos

הָיְתָה אַחַת מֵהֶן אֲסוּרָה עַל זֶה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná apresenta uma terceira variação: cada uma das duas irmãs é ervah, mas não para o mesmo irmão — cada uma é proibida a um irmão diferente. O resultado é que cada uma fica livre para o outro, e a mishná fecha citando a regra formulada já no Perek Alef.

Se uma delas era proibida a este por proibição de ervah, e a segunda era proibida àquele por proibição de ervah, a que é proibida a este é permitida àquele, e a que é proibida àquele é permitida a este. E é isso que disseram: a irmã dela, quando ela mesma é sua yevamá, ou faz chalitzá ou faz yibum.Diferentemente do caso anterior, aqui não há um irmão totalmente livre e outro totalmente preso: cada um dos dois irmãos remanescentes tem, entre as duas viúvas, uma que lhe é proibida por ervah e outra que lhe é permitida. A viúva proibida a um deles — por ser, digamos, sua sogra — é precisamente aquela que é permitida ao outro, e vice-versa; de modo que cada irmão pode fazer yibum com a mulher que não lhe é ervah, enquanto a outra, sendo ervah para ele, sai sem chalitzá nem yibum de sua parte. A mishná fecha citando uma fórmula já conhecida do Perek Alef: quando a irmã de uma ervah é, ela mesma, a yevamá regular de um homem — ou seja, quando ela cai perante ele por direito próprio, e não apenas como irmã de outra mulher proibida —, ela pode livremente fazer chalitzá ou ser tomada em yibum, pois a proibição de "irmã da ervah" só se aplica quando essa irmã seria, de outro modo, apenas uma rival vinculada por zika, e não quando ela mesma é a yevamá legítima.

הָיְתָה אַחַת מֵהֶן אֲסוּרָה עַל זֶה אִסּוּר עֶרְוָה, וְהַשְּׁנִיָּה אֲסוּרָה עַל זֶה אִסּוּר עֶרְוָה, הָאֲסוּרָה לָזֶה מֻתֶּרֶת לָזֶה, וְהָאֲסוּרָה לָזֶה מֻתֶּרֶת לָזֶה. וְזוֹ הִיא שֶׁאָמְרוּ, אֲחוֹתָהּ כְּשֶׁהִיא יְבִמְתָּהּ, אוֹ חוֹלֶצֶת אוֹ מִתְיַבֶּמֶת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 25:5
כִּי יֵשְׁבוּ אַחִים יַחְדָּו וּמֵת אַחַד מֵהֶם וּבֵן אֵין לוֹ לֹא תִהְיֶה אֵשֶׁת הַמֵּת הַחוּצָה לְאִישׁ זָר יְבָמָהּ יָבֹא עָלֶיהָ
Quando irmãos morarem juntos, e um deles morrer sem ter filho, a esposa do falecido não se casará com estranho, fora da família; seu cunhado virá a ela.

A obrigação bíblica de yibum recai individualmente sobre cada irmão em relação a cada viúva apropriada para ele. Quando uma mulher é ervah apenas para um dos dois irmãos, isso não afeta em nada a obrigação do outro irmão em relação a ela — a obrigação de "seu cunhado virá a ela" se aplica a ele normalmente, como se a outra proibição nem existisse. É por isso que, nesta mishná, cada irmão simplesmente segue a obrigação bíblica em relação à mulher que não lhe é proibida, sem que a proibição paralela do outro irmão interfira.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, em seu comentário, remete esta mishná ao princípio já estabelecido no Perek Bet sobre a irmã que é, ela mesma, yevamá legítima.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 3:3
זֹאת הִיא הַמִּשְׁנָה אֲשֶׁר רָמַז אֵלֶיהָ בַּפֶּרֶק הַקּוֹדֵם לָזֶה.

Rambam nota que esta é exatamente a mishná à qual ele já havia se referido no Perek Bet, ao formular a regra geral sobre a irmã de uma ervah que é, ela própria, a yevamá regular de um homem: nesses casos, a proibição de "irmã da vinculada" não se aplica, pois essa mulher cai perante ele por direito próprio, e não meramente como parente de outra mulher proibida.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura esclarece a expressão técnica "irmã dela, quando ela mesma é sua yevamá"; Rashi, na Guemará, confirma a mesma leitura sobre o cruzamento das duas ervot.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Yevamot 3:3
זֹאת הִיא הַמִּשְׁנָה אֲשֶׁר רָמַז אֵלֶיהָ בַּפֶּרֶק הַקּוֹדֵם לָזֶה.

Rambam observa, com brevidade, que esta mishná é a aplicação concreta de um princípio já enunciado anteriormente: quando cada irmã é ervah apenas para um dos dois irmãos, cada uma se torna, para o outro irmão, uma yevamá legítima por direito próprio — e não uma mera "irmã de vinculada" sujeita à proibição derivada.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 3:3
אֲחוֹתָהּ כְּשֶׁהִיא יְבִמְתָּהּ. אֲחוֹתָהּ שֶׁל עֶרְוָה כְּשֶׁהִיא יְבִמְתָּהּ אֵשֶׁת אֲחִי בַּעֲלָהּ, כְּשֶׁנּוֹפֶלֶת עִמָּהּ לְיִבּוּם: אוֹ חוֹלֶצֶת אוֹ מִתְיַבֶּמֶת. דְּלָאו אֲחוֹת זְקוּקָתוֹ הִיא, דְּעֶרְוָה לֹא רַמְיָא קַמֵּיהּ.

Bartenura explica a expressão técnica: "a irmã dela, quando ela mesma é sua yevamá" refere-se à irmã de uma ervah que, ela própria, é esposa do irmão do falecido e cai perante o sobrevivente para yibum. Como a ervah nunca esteve sujeita à zika perante ele, sua irmã não é tratada como "irmã de vinculada" — ela é simplesmente sua yevamá regular, livre para chalitzá ou yibum como qualquer outra.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 26a
מַתְנִי׳ הָיְתָה אַחַת מֵהֶן אֲסוּרָה עַל זֶה אִסּוּר עֶרְוָה — וְכֻלָּן: הַנָּשִׁים הַלָּלוּ: שֶׁנִּישְּׂאוּ — לַאֲחֵרִים כְּשֶׁאָסְרָה חָכָם אוֹ כְּשֶׁהֵעִיד עֵד בְּמִיתַת בַּעְלָהּ, וּמֵתוּ הַבְּעָלִים הַשֵּׁנִיִּים.

Rashi, comentando este trecho da Guemará, confirma que o princípio de "a que é proibida a este é permitida àquele" decorre diretamente do fato de que a proibição de ervah é sempre relativa a uma pessoa específica, nunca genérica: uma mulher pode muito bem ser sogra de um irmão e, ao mesmo tempo, uma parente perfeitamente permitida ao outro, sem qualquer contradição entre as duas situações.