Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Guimel · Mishná 6 de 10

O irmão casado com estranha

וְאֶחָד נָשׂוּי נָכְרִית
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná substitui o irmão livre da mishná anterior por um irmão já casado com uma mulher sem qualquer parentesco com as duas irmãs — chamada aqui de "estranha" (nochrit) — e examina duas ordens possíveis de morte e casamento, com o mesmo resultado em ambas.

Três irmãos, dois deles casados com duas irmãs, e um casado com uma estranha. Morreu um dos maridos das irmãs, e o casado com a estranha fez yibum com sua esposa, e morreu — a primeira sai por ser irmã de esposa, e a segunda por ser sua rival. Se ele fez nela mamar, e morreu, a estranha faz chalitzá e não faz yibum. Três irmãos, dois deles casados com duas irmãs, e um casado com uma estranha: morreu o casado com a estranha, e um dos maridos das irmãs fez yibum com sua esposa, e morreu — a primeira sai por ser irmã de esposa, e a segunda por ser sua rival. Se ele fez nela mamar, e morreu, a estranha faz chalitzá e não faz yibum.A mishná examina duas sequências possíveis do mesmo cenário de três irmãos: um casado com uma mulher estranha, sem parentesco com as duas irmãs, e dois casados entre si com as duas irmãs. Na primeira sequência, morre um dos maridos das irmãs; o irmão casado com a estranha, agora vinculado por zika à viúva, chega a completar o yibum com ela e depois morre também — deixando, então, tanto essa viúva quanto sua própria esposa (a estranha) caindo diante do terceiro irmão, o outro marido de irmã. A primeira sai por ser irmã da esposa remanescente desse terceiro irmão — proibição forte de ervah que a isenta totalmente —, e a estranha, sendo rival dela, sai junto, sem chalitzá nem yibum. Mas se, em vez de completar o yibum, ele apenas fez mamar antes de morrer, o vínculo é parcial, e por isso a estranha precisa fazer chalitzá, ainda que não possa fazer yibum. Na segunda sequência, a ordem se inverte: primeiro morre o casado com a estranha, deixando-a como viúva; um dos maridos das irmãs faz yibum com ela, e depois morre também — deixando essa mesma estranha e sua própria esposa (uma das irmãs) diante do terceiro irmão. O resultado final é idêntico nos dois casos: a irmã sai por ser irmã de esposa, a estranha por ser rival dela, e, havendo apenas mamar em vez de yibum completo, a estranha precisa de chalitzá.

שְׁלֹשָׁה אַחִין, שְׁנַיִם מֵהֶן נְשׂוּאִים שְׁתֵּי אֲחָיוֹת, וְאֶחָד נָשׂוּי נָכְרִית, מֵת אֶחָד מִבַּעֲלֵי אֲחָיוֹת, וְכָנַס נָשׂוּי נָכְרִית אֶת אִשְׁתּוֹ, וָמֵת, הָרִאשׁוֹנָה יוֹצְאָה מִשּׁוּם אֲחוֹת אִשָּׁה, וּשְׁנִיָּה מִשּׁוּם צָרָתָהּ. עָשָׂה בָהּ מַאֲמָר, וָמֵת, נָכְרִית חוֹלֶצֶת וְלֹא מִתְיַבֶּמֶת. שְׁלֹשָׁה אַחִים, שְׁנַיִם מֵהֶם נְשׂוּאִים שְׁתֵּי אֲחָיוֹת, וְאֶחָד נָשׂוּי נָכְרִית, מֵת הַנָּשׂוּי נָכְרִית, וְכָנַס אֶחָד מִבַּעֲלֵי אֲחָיוֹת אֶת אִשְׁתּוֹ, וָמֵת, הָרִאשׁוֹנָה יוֹצְאָה מִשּׁוּם אֲחוֹת אִשָּׁה, וּשְׁנִיָּה מִשּׁוּם צָרָתָהּ. עָשָׂה בָהּ מַאֲמָר, וָמֵת, נָכְרִית חוֹלֶצֶת וְלֹא מִתְיַבֶּמֶת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra (Levítico) 18:18
וְאִשָּׁה אֶל אֲחֹתָהּ לֹא תִקָּח לִצְרֹר לְגַלּוֹת עֶרְוָתָהּ עָלֶיהָ בְּחַיֶּיהָ
E não tomarás uma mulher junto com sua irmã, para rivalizá-la, descobrindo sua nudez, além dela, enquanto ela viver.

Nesta mishná, a proibição de "irmã de esposa" incide sobre a viúva de um dos maridos das irmãs, que se torna irmã da esposa do terceiro irmão. Como essa proibição é de ervah plena — e não apenas uma restrição derivada da zika —, ela isenta totalmente essa mulher, sem sequer exigir chalitzá; e, sendo uma isenção total, arrasta consigo também a rival da mulher isenta — neste caso, a estranha, que sai junto sem qualquer procedimento. É apenas quando o vínculo entre o irmão falecido e a estranha era parcial, por mamar, que essa isenção automática não se aplica por completo, e a estranha precisa então de chalitzá.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, em seu comentário, explica por que trouxe as duas versões do caso, mesmo sendo o resultado idêntico, e fixa o sentido do termo "estranha" para todo o restante do capítulo.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 3:6
זֶה מְבֹאָר הֵיטֵב. וְאָמְנָם הֵבִיא זֹאת הַמִּשְׁנָה, אַף עַל פִּי שֶׁהִיא מְבֹאֶרֶת, לְפִי שֶׁהִיא מֻקְדֶּמֶת בַּמַּשָּׂא וּמַתָּן וְאַחֲרוֹנָה בְּחִבּוּר. וְרוֹצֶה לוֹמַר בְּאָמְרוֹ נָכְרִית בְּכָל אֵלּוּ הַמִּשְׁנָיוֹת הַבָּאוֹת בְּזֶה הָעִנְיָן — נָכְרִית שֶׁאֵין לָהּ קוּרְבָה עִם הָאֲחֵרוֹת.

Rambam observa que esta mishná, embora repita em forma quase idêntica a mesma conclusão duas vezes, foi incluída porque a primeira versão é conceitualmente anterior no raciocínio, ainda que redigida por último no texto compilado. Ele fixa também o significado técnico de "estranha" para todo este bloco de mishnayot: trata-se de uma mulher que não tem nenhum grau de parentesco com as outras mulheres envolvidas no caso — distinção importante, pois o restante do capítulo depende dela.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica por que a estranha precisa de chalitzá mesmo quando isenta de yibum, e a razão de a mishná mencionar o mamar explicitamente; Rashi, na Guemará, discute se há zika mesmo quando apenas um irmão está vinculado à nova viúva.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Yevamot 3:6
שְׁלֹשָׁה אַחִים שְׁנַיִם מֵהֶם נְשׂוּאִין שְׁתֵּי אֲחָיוֹת וְאֶחָד נָשׂוּי נָכְרִית מֵת אֶחָד מִבַּעֲלֵי אֲחָיוֹת כוּ׳: זֶה מְבֹאָר הֵיטֵב.

Rambam confirma que o mecanismo desta mishná já foi estabelecido nas anteriores: a proibição de irmã de esposa isenta totalmente a primeira mulher, e essa isenção total se estende automaticamente à sua rival — a estranha —, exceto quando o vínculo com o irmão falecido era apenas parcial, por mamar, caso em que a chalitzá ainda é exigida.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 3:6
נָכְרִית. שֶׁאֵינָהּ קְרוֹבָה לֹא לְזוֹ וְלֹא לְזוֹ: נָכְרִית חוֹלֶצֶת וְלֹא מִתְיַבֶּמֶת. הוּא הַדִּין אַף עַל גַּב דְּלֹא עָשָׂה בָּהּ מַאֲמָר, וָמֵת, נָכְרִית מִחְלַץ חָלְצָה יִבּוּמֵי לֹא מְיַבְּמָהּ, דְּהַוְיָא לָהּ צָרַת אֲחוֹת אִשָּׁה בְּזִקָּה. וְהַאי דְּקָתָנֵי מַאֲמָר, לַאֲפוֹקֵי מִדְּבֵית שַׁמַּאי דְּאָמְרֵי מַאֲמָר קוֹנֶה קִנְיָן גָּמוּר וַאֲפִלּוּ חֲלִיצָה נַמִּי לֹא תִּבָּעֵי, קָא מַשְׁמַע לָן דִּצְרִיכָה חֲלִיצָה.

Bartenura esclarece o termo "estranha": mulher sem qualquer parentesco com nenhuma das outras envolvidas no caso. Ele observa também que a regra vale igualmente mesmo sem mamar — a estranha sempre faz chalitzá e não yibum, por ser rival de uma irmã de esposa, sujeita a essa restrição por zika. A mishná menciona especificamente o caso do mamar para refutar a posição de Bet Shamai, segundo a qual o mamar equivaleria a um casamento pleno, dispensando até a chalitzá: a mishná ensina que, mesmo assim, a chalitzá continua sendo necessária.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 30a
גְּמָ׳ נָכְרִית יִבּוּמֵי נַמִּי מְיַיבְּמָהּ — וְלֹא אָמְרִינַן מִשֶּׁמֵּת בַּעַל הָאָחוֹת וְנָפְלָה לְיִבּוּם הֻזְקְקָה לְנָשׂוּי נָכְרִית לְבַדּוֹ, דְּהָא עַל בַּעַל אֲחָיוֹת לֹא רַמְיָא, וְנַעֲשָׂה... וַאֲפִלּוּ בְּחַד אָחָא — כִּדְפָרֵישִׁית, דְּאַף עַל גַּב דְּתְרֵי אַחִין נִינְהוּ אֵין זוֹ זְקוּקָה אֶלָּא לְנָשׂוּי נָכְרִית לְבַדּוֹ.

Rashi discute uma questão sutil da Guemará: mesmo quando, no momento da primeira morte, a viúva das irmãs cai potencialmente diante de dois irmãos — o casado com a estranha e o outro marido de irmã —, ela não fica vinculada a ambos. Como o marido da outra irmã não pode recebê-la em yibum (pois isso o tornaria polígamo em relação à irmã dela), a zika recai apenas sobre o casado com a estranha, e é por isso que apenas ele, sozinho, pode e deve fazer yibum ou mamar com ela.